segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Entrevista com Vivaldo Franco e Crítica do espetáculo METAMORFOSE PRIMEIRO AMOR!

Tenho visto Vivaldo Franco, esporadicamente, nos palcos da vida e algo me chama atenção neste cara. Seu profissionalismo, e sua ação artística focada nos objetivos da profissão. Professor da famosa escola de Rio das Ostras, ONDA, ele está trabalhando sua arte como legado estético e político, e isso não é pouco. Por isso fiz questão de entrevistá-lo para o blog Teatro Possível. (Jiddu Saldanha - Blogueiro)

Breve Biografia.

Vivaldo Franco iniciou sua carreira artística em 1978 no grupo Tafetá de Teatro Popular na periferia do Rio de Janeiro. Em 1983 ingressa na UNIRIO formando-se em Artes Cênicas.  Pós graduado em Teoria da Arte pela UERJ e em Docência do Ensino Superior pela USAM.  Ator, diretor,  produtor cultural, tem mais de 30 montagens em seu currículo. Foi diretor de palco do Teatro Ziembinski e produtor cultural do departamento de cultura da UERJ. Trabalha na Fundação Rio das Ostras de Cultura, desde 2006 ocupando a função de professor de Artes Cênicas e coordenador técnico no Centro de Formação Artística – ONDA. Conselheiro Municipal de Cultura de Rio das Ostras  (2017/2018). Atualmente dirige e atua no espetáculo METAMORFOSE PRIMEIRO AMOR, adaptação dos textos de Franz Kafka e Samuel Beckett.


Entrevista

Teatro Possível - Na tua percepção, o que é necessário para ser artista de teatro?

Vivaldo Franco - Vocação.  Para ser artista precisa ter vocação. Talento é importante mas não é fundamental.  Você pode ser um artista com recursos limitados e pouco talento mas se você tiver vocação você vai sobreviver da sua arte. De uma maneira ou de outra.  Você pode desenvolver técnicas para isso. Mas sem vocação não adianta.  Conheço muita gente talentosa que não sobreviveu.  Virou dona de casa ou caixa de banco.

TP - Você se considera um artista engajado? Como você percebe o ofício, face às questões políticas que o Brasil vive, hoje em dia?

VF - Totalmente.  Não acredito na Arte pela Arte. Toda Arte é política.  Neste sentido acredito que todo verdadeiro artista é um ativista político,  seja de esquerda seja de direita. Ou ainda um alienado a serviço de um ou de outro mas ainda assim um agente político. Para mim não existe Arte puramente para diversão,  entretenimento.  Isso é parque de diversão.  Para mim o artista que diz que faz arte e não faz política ou é um grandessíssimo filho da puta ou é um analfabeto político que acha que a sua “não participação “ o isenta dos acontecimentos políticos do país e do mundo .

TP - Kafka e Becket num mesmo espetáculo, como surgiu esta idéia? Porque?

VF - Há alguns anos vinha pensando em montar um espetáculo solo que me possibilitasse viajar, participar de festivais,  mostrar mais o meu trabalho de ator. Nestes 40 anos de carreira tenho produzido e dirigido mais do que atuado, embora tenha começado como ator. Então comecei a procurar monólogos.  Já conhecia A METAMORFOSE do Kafka mas não via como adaptar para um solo. Quando li o PRIMEIRO AMOR de Beckett há três anos atrás descobri uma relação extremamente forte entre os dois textos. Foi instantâneo. A partir daí passei a pesquisar mais profundamente sobre a obra dos dois autores para fazer uma adaptação.


METAMORFOSE PRMEIRO AMOR, inspirado em Kafka e Beckett!
TP - Que tipos de limites você teve que romper, para chegar à concepção deste espetáculo. É muito cansativo? É preciso muita dedicação?

VF - Foram três anos de trabalho até a estreia. Muita leitura. Muita pesquisa. Muitas versões. Queria me impor algo completamente diferente do que já havia feito como diretor e ator. Tive que ter uma disciplina corporal rigorosa.  Tive que experimentar linguagens corporais e vocais ainda não experimentadas.  Tive que vencer medos e vaidades. Foi um processo sofrido. Fisicamente sofrido. As apresentações são extenuantes e meu corpo sofre. Mas estou muito feliz em ter conseguido chegar até aqui. O processo continua. Vamos ver até onde vou aguentar. Tive a ajuda de muitos amigos mas duas pessoas foram fundamentais para o resultado : Marcellus Machado que vem acompanhando todo o processo desde o inicio e Polyana Lott que fez um treinamento corporal que me ajudou muito.

TP - Quais são seus planos e sonhos para a circulação de Metamorfose - Primeiro Amor?

VF - Quero mostrar esse trabalho para o maior número de pessoas. Quero viajar.  Espero poder ficar com este trabalho por alguns anos.

TP - Quem é Vivaldo Franco por Vivaldo Franco?

VF - Sou de capricórnio.  Terra. Chão.  Sou um pessimista nato que acredita que no fim tudo vai dar certo ou não. Tenho orgulho de ser gauche na vida. Sou canhoto.  Sou artista.  Sou ateu. Sou de esquerda.  Sou petisca de alma e coração.  Sou bissexual.  Sou amoral. Sou METAMORFOSE. 
































Crítica de Metamorfose Primeiro Amor
Por José Facury

Quando se procura algo que fale sobre Kafka e Beckett em qualquer enciclopédia, aparece inevitavelmente a " teoria do fracasso "...E é o que está contido filosoficamente na obra literária destes dois fabulosos autores que, incompreendidos por muitos alavancaram notório sucesso em poucos e exigentes pesquisadores da nossa vanguarda, literária e teatral...O que precisa ser crivado, não sei se para entendê-los, mas muito mais para sentirmos o rastejamento animal da transposição humana dos  personagens de um e a completa auto anulação do agir do outro, até eles serem carcomidos  na dor pelo desejo exaustivamente reprimido. Muito do que pessoas da nossa sociedade atual vivem, quando trocam a realidade vivencial pela virtual...Em A Metamorfose de Franz Kafka e O Primeiro Encontro de Samuel Becket estes estados são transparentes. Uni-los em uma encenação solo, interpretá-los e ao mesmo tempo se auto dirigir exige do encenador, ator e cenógrafo um domínio pleno em pesquisas, tanto literária como nas partituras dramatúrgicas corporais que terá que construir e desconstruir para metamorfosear os estados de consciência e inconsciência  de si e da contextualização metafórica dos personagens. O banco de praça que desenvolve um "trouvaille" cenográfico, mesmo descontextualizado da locação das duas cenas e o nú, o mijar em cena, aponta no sentido do libertarem-se daqueles seres que se auto flagelam por não suportarem mais aquelas peles que os sufoca. Uma grande interpretação para uma belíssima concepção cênica que precisa ser vista por todas as almas sensíveis. (José Facury Helluy)
















Com a palavra, o ator-diretor.

APRESENTAÇÃO

Encenar um monólogo é sempre um desafio para aqueles que “amam a Arte que há em você e não você na Arte”, para citar o grande Mestre Stanislavski. Para esses é sair da zona de conforto. É reconhecer os limites e tentar superá-los. É (re)aprender sempre.
Para comemorar 40 anos de carreira – completados agora em 2018 – resolvi desafiar-me. Nada melhor para isso do que encenar um texto do TEATRO DO ABSURDO. Ou melhor ainda: impor-se o supremo desafio – e porque não dizer extremamente pretensioso – de adaptar, não só uma, mas duas novelas da literatura do absurdo.
E já que era para ser desafiador porque não escolher os melhores?
A METAMORFOSE, de Franz Kafka, já era minha conhecida desde há muitos anos, dos tempos de faculdade. Já PRIMEIRO AMOR, de Samuel Beckett, eu o descobri há uns três anos, quando a idéia de um SOLO começou finalmente a tomar forma dentre os meus desejos.
A bem da verdade não se trata de traduções ou mesmo adaptações ipsis litteris dos textos originais. Eu classificaria mais como uma releitura livremente inspirada nos personagens que habitam essas histórias.
Há em Kafka e Beckett um fatalismo quase niilista. Uma desesperança vital que leva seus personagens a seguir em frente mesmo que este caminho sempre leve ao mesmo ponto de partida, num círculo vicioso digno de Sísifo.
Há nestes dois protagonistas uma inerente inadaptação ao mundo que os cerca. Eu diria mesmo que à própria vida. Uma estranheza e um estranhamento (no sentido brechtiano) intrínsecos aos seus olhares e também aos olhares dos que os olham e que os forçam a fugir, a refugiarem-se, a metamorfosearem-se em outros. Em solitários insetos.
O mesmo sentimento que me tem acompanhado durante toda a minha vida e, particularmente nestes tempos sombrios em que vivemos. Tempos que são reveladores e assustadores tanto pela ignomínia coletiva a que estamos sujeitados quanto pela inércia e impotência a que estamos nos submetendo.
(Fora Canalhas de Todas as Estirpes!)
A genial Cacilda Becker e o grande Sergio Britto tiveram como último trabalho teatral uma peça de Samuel Beckett. Longe de mim comparar-me aos grandes mas estas histórias de maldições teatrais são instigantes e inspiradoras. Como um labirinto do qual não se conhece a saída.
Enfim, é com grande prazer e dor que apresento este trabalho a vocês. Que ele possa de alguma maneira ter algum significado.

Vivaldo Franco – Diretor e Ator

Nenhum comentário:

Postar um comentário