quarta-feira, 30 de setembro de 2015

COMENTÁRIO SOBRE O FESQ 13 - Por Jiddu Saldanha.

O FESQ 13, foi um acontecimento especial e diferenciado, dentro da estrutura dos últimos FESQS. Este, de 2015, primou pela reinvenção de sua própria estrutura, tanto artística, quanto logística.

O Bate Papo do FESQ é um momento onde os grupos podem refletir melhor sobre suas cenas e definir novos rumos para sua
linguagem.
Um evento cada vez mais  profissional e complexo, exige muito dos produtores e das equipes constituídas, quer sejam, contratados, voluntários ou convidados.
Dentre as formas de reinvenção do FESQ, destaco o apresentador, Rodrigo Rodrigues, que entrou em cena mais arejado, com uma gama de novos personagens e segurou a peteca do começo ao fim. Dessa vez, além de construir novos olhares sobre suas personagens, esteve mais enxuto no palco, e interagiu na medida certa de sua irreverência característica.
Outro momento de reinvenção foi a forma vigorosa como a produção investiu no teatro de rua, não só na abertura de portas para grupos locais de forma planejada, mas também, por criar uma organização mais eficiente e mais visível para toda a cidade.
O Teatro Municipal de Cabo Frio, está cada vez menor, para abraçar um evento de tamanha importância. O FESQ merecia mais espaço para se expandir, mas a produção o fez de forma criativa; ao transformar o FESQ BAR num ambiente onde a festa, definitivamente, se torna um momento para além do mero consumo, ocupado, definitivamente pela expressão artística. 
Este ano, a presença do coletivo "La Vai Maria", deu, definitivamente ao território do FESQ BAR, uma aura de espaço totalmente tomado por artistas e pela arte.

SOBRE A CURADORIA
Cabo Frio ficou com uma fatia suficiente na participação competitiva, dois grupos, (Trupe Andarilhos e Creche na Coxia); mas houve inovação na participação de grupos convidados locais e da região, além da presença de um dos grandes nomes do teatro brasileiro, Guti Fraga.
A extensão do grupo "Nós do Morro", situado em Saquarema, com seu espetáculo "O Rapé" foi um grande acerto, além da presença da peça "Vanice no País da Armadilhas", contemplando nomes de peso de São Pedro da Aldeia, como a atriz Rafaela Solano e o diretor Marcelo Tosta.
A presença do TCC - Teatro Cabofriense de Comédia, fazendo a abertura do primeiro dia e apresentações na rua e, também, a participação do OFICENA - Curso Livre de Teatro de Cabo Frio, com a peça "O Inspetor Geral", foi, sem dúvida, uma cartada positiva, na estratégia de inserção de novos artistas locais, no complexo tabuleiro artístico da cidade.

SOBRE O JÚRI
Todo Júri é sempre polêmico. Historicamente, foram raras as vezes em que a opinião do Júri, coincidiu com a visão do público e dos artistas envolvidos na parte competitiva do evento. Mas uma coisa que sempre procuro orientar, nos debates, é que um Júri, composto por 3 convidados, se movimenta num complexo tabuleiro de xadrez, revelando sempre sua própria tendência.
Na visão do público, "tal peça é melhor e pronto". Já, na visão do Júri, existem configurações estéticas que vão, de forma natural ou planejada, classificando os trabalhos em tendências e possibilidades possíveis de intensos debates.
Hoje em dia, todos nós sabemos que teatro não é uma coisa só, e sim, uma configuração artística complexa onde se misturam escolas diferenciadas, níveis contrastantes e fusão de linguagens que podem surpreender, tornando a cabeça do Júri, totalmente focada no debate para conseguir, não só, contemplar o melhor, mas também as tendências apresentadas no evento como um todo.

COMENTÁRIO SOBRE OS TRABALHOS PREMIADOS

MEU NOME É ERNESTO - Grupo Primitivos
Melhor atriz
Melhor esquete
Nem sempre uma cena consegue agradar o público e o júri.  "Meu Nome é Ernesto" conseguiu esse feito. Levou os prêmios de melhor esquete, e melhor atriz para Jéssica Menkel. Deixou o público extasiado e impressionado com o desempenho tanto do elenco, quanto da caracterização.
Através de uma pesquisa rigorosa, a equipe desta cena, conseguiu dar vitalidade a personagens que passaram fragilidade e vigor, um verdadeiro desafio, pois, não é fácil para atores jovens, interpretar personagens de idade avançada.

CHÃO DE PEQUENOS - Cia Negra de Teatro
Melhor direção.
Melhor esquete
Trazendo um teatro engajado e ao mesmo tempo contemporâneo, a Cia Negra de Teatro, recebeu os prêmios de melhor direção, para Thiago Gambogi. Além de ser uma das três contempladas com o prêmio de melhor esquete.
A cena, construída de forma quase haicaística, primou pela economia de signos. Evitou lugares comuns e se apropriou de forma inteligente, dos elementos formais da linguagem teatral e da dança-teatro, mesclando o discurso da compaixão e do inconformismo, com a forte energia criativa de um elenco preparado e um diretor de mão segura.
A cena variou entre a encenação e a performance, se fazendo valer de elementos como o teatro invisível, que é de profunda reflexão política. A surpresa foi ver os atores fazendo performance na escadaria do teatro de forma inesperada e que causou grande comoção no público. Convenceu o Júri.

O VELHINHO E A MORTE - Creche na Coxia
Melhor esquete
Melhor figurino
"O Velhinho e a Morte", traz um grupo coeso e vigoroso em cena, fazendo um tipo de teatro que exige uma partitura corporal afinada e ativa, além de grande concentração do elenco.
A peça tinha um ritmo impecável, com encaixes que proporcionou grande prazer ao público e, também, ao Júri, que a premiou com MELHOR FIGURINO e MELHOR ESQUETE.

A TERRÍVEL PLANÍCIE DE KENÓTITA - Coletivo Areia de Comer
Melhor ator
Melhor esquete júri popular.
Com excelente desempenho em cena, o ator Matheus Macena, ganhador do prêmio de melhor ator, foi quase uma unanimidade entre público e júri. Não foram poucos os entusiastas que o saudaram como merecedor do prêmio. Sua movimentação de cena, com riquíssima gramática corporal e uma voz soberba, trouxe-lhe, no FESQ, um belo momento de sua carreira.
A cena, muito bem construída, fez combinar cenário, figurino e iluminação, além, claro, de um belíssimo momento, onde a poeta Elvira, de Cabo Frio, de forma sutil fez uma inteiração com Matheus Macena, ao colocar no tapete de livros de seu personagem, o livro que fora escrito por ela. A cena, deixou o público surpreso e, ao mesmo tempo, se inseriu no tempo poético do espetáculo. Coisas assim, só se vê uma vez na vida. Neste momento, Matheus mostrou sua personalidade ao transformar, pela mágica de sua interpretação, o momento de intervenção, em pura poesia. Ganhou o espetáculo. Este acontecimento ficará gravado para sempre, na memória afetiva do FESQ.

GOLDEN GATE BRIDGE - Grupo Suicidas Teatrais
Melhor texto
Melhor concepção cenográfica
Comédia que mistura absurdo ao romantismo, com uma forte dose de niilismo, é impressionante a eficiência do texto, que valeu, para Ygor Cosso, uma premiação de MELHOR TEXTO. Trabalho original e divertido.
Levou também o prêmio de melhor cenografia, para Marcela Rica e Ygor Cosso; solução inteligente para reconstruir a ideia da famosa Golden Gate. O cenário, parecia uma escultura que dava uma bela possibilidade de triangulação para os atores que o fizeram, o tempo todo, em plano alto e com muita competência. Foram reconhecidos pelo Júri, que percebeu a sofisticação de uma comédia inteligente e eficiente, no palco.

VALKÍRIA - GRUPO TEATRALHA
Prêmio Especial do Júri
O Grupo TEATRALHA, impressionou pela presença e engajamento no FESQ, compareceu em todos os debates e não perdia nenhuma apresentação, tanto dos colegas, como da programação extra do evento. O tempo todo, participando das ações e marcando presença nos debates, foi, aos poucos, impondo sua militância artística.
A esquete "Walkíria" foi provocante em diversos aspectos, pois, além de constituir num imenso desafio à atriz Larissa Gonçalves, que tinha de correr o tempo todo em cena, enquanto dava o texto, criando ótima interface com o trabalho autoral do próprio Jô Bilac, que o escreveu, como um exercício de linguagem, sugerindo uma forma diferente de carpintaria dramatúrgica.

* Jiddu Saldanha é coordenador dos debates do FESQ.