quarta-feira, 26 de outubro de 2016

FESQ - Um Olhar Politico.

Arte e política caminham de braços dados, pode até não ser política partidarista, mesmo assim, o artista sempre traz uma visão ampliada sobre questões que envolve cidadania e reflexão. No FESQ 14, não poderia ser diferente.


MACACOS - CIA DO SAL

Clayton Nascimento, além de premiado como melhor ator e melhor esquete
trouxe um discurso contundente denunciando toda a hipocrisia por trás do
racismo vigente no Brasil.
Bastou entrar em cena para que o ator Clayton Nascimento desse uma aula de história sem nenhum pedantismo. Sua destreza e domínio da voz, dramaturgia e geografia de palco, foi suficiente para mostrar que está surgindo um grande ator do teatro brasileiro. Sua energia combativa, sua força de expressão, fez com que ele construísse uma profunda empatia com o público que ficou extasiado com seu trabalho incrível.
"MACACOS" é de arrepiar a alma, trouxe reflexões aprofundas sobre nosso cômodo respirar consumista, nos jogando num abismo de reflexões. Tendo o racismo como foco principal, a cena é uma provocação do começo ao fim. O público permaneceu calado e apreensivo e cada um de seus movimentos em cena e, como numa boa artilha de Bertold Brecht, o momento em que ele convoca a platéia a cantar e refletir sobre a letra da música sobra a proclamação da república, aquele famigerado hino que diz "liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós". Clayton desconstrói a hipocrisia expressa até mesmo num hinos que se propõe ser representativo de uma nação inteira, construída apenas para uma minoria em detrimento do sofrimento da grande maioria. Isto é o Brasil que Clayton retratou com profundidade e uma acurada técnica dramatúrgica e de ator.

Last Dance - Um tapa na cara dos "relacionamentos
abusivos", uma cena belíssima, com profunda
poesia no melhor estilo Pina Bauch.
LAST DANCE 

Outra cena que chamou muito a atenção, causando, inclusive, sentimentos de participação intensa do público, foi o trabalho Last Dance, com um elenco afinadíssimo, e bem compenetrado. Por trás de uma temática politicamente provocativa, a performance Last Dance investiu pesado no Teatro Dança. Uma dramaturgia que fala de relacionamento abusivo traz, na proposta de direção a junção de técnicas muito bem articuladas nas mãos, pés e voz dos artistas: Henrique Cordoval e Lorena Tófani.
Com uma energia vigorosa, engajamento corporal, fluidez de movimentos, o trabalho levou o público por caminhos de experimentação. Uma abordagem quase lírica para um tema tão impactante mexeu com todos, até mesmo no debate onde até mesmo eu, comovido com tudo o que ouvi, senti vontade de investigar meu próprio machismo. O debate, foi comovente, delicado e profundo, nos fez pensar, refletir e investigar a própria questão pessoal no bojo desse acontecimento artístico tão singular que é o FESQ de Cabo Frio.
Lorena e Henrique, foram pródigos em mostrar que conhecem bem as técnicas que praticam, sua cena está bem construída e tem grande potencial.
Segundo Henrique, a investigação e a proposta cênica de seu trabalho, mostra também uma tendência de alguns grupos teatrais de Belo Horizonte, não só na mescla de linguagem como também nas temáticas cada vez mais mergulhadas em discussões e reflexões referente ao tempo que vivemos. Uma nova tendência, talvez, do teatro engajado. Cada vez indo para uma discussão onde a estética e a ética confrontam o panfletismo, abrindo caminho para um discurso que atinja toda a sociedade, independentemente de quaisquer ideologia.

A PASTORA DO LIXÃO 

foto: Mariana Ricci. A atriz Jéssika Menkel, que já havia encantado em 2015
com uma excelente caracterização na peça "Meu Nome é Ernesto", este ano
veio com o solo "A Pastora do Lixão", uma cena inspirada no
monumental filme "ESTAMIRA" de Marcos Prado.
Os primeiros minutos de cena já oferece um panorama inspirado no monumental filme "Estamira" de Marcos Prado. O grande encanto, para os fãs do filme, é ver Jéssika dar vida a uma personagem que existiu, de fato, e que tem uma legião de fãs, desde que o filme foi lançado, em 2004. O gancho político da peça é, justamente, apresentar um ser social, com uma fé complexa e uma abordagem da vida humana a partir de sua condição social. A vida num lixão, essa praga que nunca foi resolvida no Brasil e que, traz sua própria ecologia. No entorno do lixão, existe uma legião de seres humanos, com suas crenças, costumes e economia. Um lugar que mostra claramente o submundo da civilização, colonizada, no caso do Brasil, por uma visão fortemente influenciada pela mídia e os falsos profetas de plantão, vendendo todo tipo de opressão através de sua "fórmula de eternidade".
A pesquisa de Jéssika, no entanto, vai além e traz a marca de sua interpretação impecável, tanto que arrebatou o  prêmio de melhor atriz no Fesq XIV - A Resistência, de 2016. Em 2015, Jéssika interpretou uma velhinha de 80 anos numa belíssima história chamada "Meu Nome é Ernesto" e que também lhe valeu o prêmio de melhor atriz. O que chama atenção no seu trabalho, são suas caracterizações, valorizando a maquiagem como elemento fundamental da cena. O domínio de técnicas clássicas e contemporâneas, são, também, evidentes em sua abordagem artística, no entanto,
O teatro, quando feito de forma abrangente, pegando tradições fortes como o uso da caracterização e da maquiagem, tem uma força e traz ao público uma visão de acabamento e cuidado com um trabalho, em toda sua extensão. Dominar o fazer artístico é um projeto de vida inteira, ainda mais quando se vai fundo em aspectos que ainda são bastante restringidos no Brasil, apesar de termos um forte histórico no fazer teatral enquanto exposição de habilidades outras, que não só a de atuar.


"O Sexto Céu de Júpiter" a dramaturgia de Matheus Macena, e a competência
da atriz Priscila Verginaud / Foto: Mariana Ricci
O SEXTO CÉU DE JÚPITER  Priscila Verginaud

Uma atriz com performance precisa e impactante, Priscila investiu sua energia para criar uma personagem quase mítica, a prostituta que se transfigura na imagem da mulher atingida em cheio pelo preconceito da sociedade. O texto, construído com habilidade, por Matheus Macena,  assunto que vamos abordar com mais detalhe, depois, quando vamos falar sobre dramaturgia e os dramaturgos presentes no FESQ 2014.
Como a própria foto da Mariana Ricci, já diz, Priscila utiliza a riqueza de sua técnica corporal e o impacto de seu corpo forte em cena, para dar vida e oferecer metáforas e muita estética para a figura de sua personagem. Seu trabalho, que também falou do machismo na sociedade, foi comovente, e jogou todo o público na reflexão, não sem colocar de forma direta a interlocução feminina, de forma mais específica, criando uma grande empatia com as mulheres da platéia. Priscila é uma atriz de combate, seu corpo em cena traz vigor e ao mesmo tempo uma sensibilidade que deu força e energia estética ao trabalho. O resultado foi o encantamento e que nos fez ver em seu trabalho algo para se pensar, de verdade. O debate nos jogou no centro de uma proposta de impacto, um teatro até certo ponto engajado, sem partidarismo, ponto para a busca de fortes transformações sociais na vida da mulher.

Aguarde os próximos artigos onde irei abordar o uso da luz e o mergulho no Claro-Escuro, trabalhos que ficaram evidentes nas cenas "Procura-se Profundidade" e "Panchito González".

Jiddu Saldanha - Blogueiro





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