sábado, 17 de setembro de 2016

Os jovens e o Teatro de Cabo Frio - O que fazer?

Findando sua etapa de formação livre de jovens para o Teatro, em Cabo Frio, o OFICENA como tudo o que respira numa cidade de interior, prepara-se para uma grande dúvida. Como ficará, a partir do ano que vem, dentro de outra conjuntura política, a vida teatral da cidade?
Essa é uma pergunta que todos os jovens fazem e que não cabe a nós, responder, senão, tecer uma breve reflexão sobre as novas gerações do teatro local e sua inserção na ecologia artística atual da cidade.


Teatro Quintal - Um novo point na cidade, com programação sequenciada e muitos projetos de aperfeiçoamento para
atores de Cabo Frio e Região dos Lagos.
Durante o período que foi de 2005 a 2012, o teatro Cabofriense viveu uma grande agonia. Com jovens recém formados nos cursos livres da cidade, uma profunda divisão política jogou os principais realizadores artísticos em em lados opostos da política autofágica local. Naturalmente e sem se entenderem, começou um longo período de devoração que culminou com o teatro vazio e algumas programações vindas de fora. O FESQ - Festival de Esquetes ainda conseguiu absorver até 2007 uma forte energia criativa do teatro local, porém, com a falta de uma política mais focada no fazer teatral e a demolição do Festival Estudantil, Cabo Frio acabou perdendo seu entusiasmo e a prática artística desse segmento foi minguando. O FESQ passou a trazer poucos grupos de Cabo Frio para sua teia competitiva mantendo a robustez da programação e premiação para os grupos vindos de fora, entretanto, e graças a este grande evento, o entusiasmo pelo teatro sempre se manteve, ainda que aos trancos e barrancos.
Mas a cidade nunca parou, os grupos consolidados como Creche na Coxia e Sorriso Feliz, mantiveram suas portas abertas, neste mesmo período, a TRIBAL também passou a atuar no seguimento de danças e cultura popular, trazendo para a rua aquilo que o historiador Ricardo do Carmo, chamou, no filme de Lucas Müller, "O Rei do Sagrado", de "Teatro dos Acontecimentos". Foi em 2011 que a TRIBAL montou o "Auto do Trabalhador" de João Siqueira e levou o trabalho até 2013, com diversas apresentações num caminhão palco. A Cidade manteve, também, a fabulosa encenação anual da Paixão de Cristo, que sempre levou a população local para ver o grande espetáculo, patrocinada pela igreja católica. 
Os fatos ligados ao teatro apontam para o trabalho de resistência de alguns nomes da cidade como Cezar Valentin, Italo Luiz Moreira, Frederico Araújo, Guilherme Guaral, Anderson Macleyves, Bruno Peixoto, Vivi Medina, Fabio de Freitas, Marcelo Tosta e Rodrigo Sena, esses dois últimos de São Pedro da Aldeia mas com uma atividade artística ligada a Cabo Frio. Nesse período o grupo Creche na Coxia, núcleo Silvana Lima, iniciou uma grande reforma em sua casa/sede que se tornou, hoje, o Teatro Quintal e que antes fora chamado de Espaço Garagem.
Em 2013, José Facury, então secretário da cultura de Cabo Frio, junto com o recém empossado diretor do Teatro Municipal de Cabo Frio, Yuri Vasconcellos e o diretor teatral Ítalo Luiz Moreira, se juntam para retomar o curso de teatro do teatro municipal de Cabo Frio, em seguida, fui convidado para integrar a equipe e criamos um conceito que passamos a chamar de OFICENA. E foi a partir da refundação do curso de teatro e sua nomeação, que passou-se a viver um grande boom do teatro local, com a reconstrução de alguns parâmetros que iriam, nos próximo anos, definir alguns caminhos para vida teatral da cidade.

Quatro anos depois, a turma Ifanto-Juvenil entra no âmbito das grandes dramaturgias do OFICENA, montando uma nova
concepção de "O Inspetor Geral", espetáculo que faz parte do repertório do curso.
Quatro anos depois

Quatro anos depois da retomada do teatro no Teatro Municipal, uma nova geração, passou por uma imersão na vida teatral da cidade. Os grandes realizadores da cidade, recuperaram seu fôlego e começaram a oferecer diversas oportunidades, na verdade, muitos cursos surgiram a partir de 2010 e 2011, mas ganharam revitalização a partir da reedição do Festival Estudantil, principalmente o de 2014, que agregou uma primeira geração do OFICENA e trouxe cursos de peso como a LD e o Ensina Encena, neste período, o colégio Miguel Couto, retomou sua agressividade teatral, agregando novos artistas em seu festival interno que se entrecruzou com a turma do OFICENA. O grupo Creche na Coxia, fez uma leitura rápida da situação e começou atuar com mais força, na militância do teatro local. 
Eu e o professor Italo passamos a pensar, de um ponto de vista bem prático uma ação de impacto no OFICENA, de um lado, Yuri fazendo contatos na cidade para inserir o curso, criando a Mostra de Escolas de Teatro com grande sucesso e participação de todos os cursos livres da cidade. Também definiu-se o papel do OFICENA no festival estudantil e posteriormente, a partir de 2014, no FESQ. A criação de espetáculos como "O Auto da Compadecida", 2013 e "O Inspetor Geral", 2014, deu fôlego e preparou os estudantes para absorver uma avalanche de novidades que começou a surgir, tornando o curso uma espécie de "movimento cultural na cidade". Desde posto de troca de livros, varal artístico, cenas curtas, criação de novos grupos de teatro, festivais internos e turbinagem de público nos eventos locais, o OFICENA passou a fazer parte da rotina artística de Cabo Frio.

Rupturas e novas descobertas

Yuri Quintanilha - Cada vez mais experiente, ator é conhecido pela sua
pegada bem humorada e dedicação ao seu grupo teatral "Operários do Teatro".
Longe de estar desgastado, o modelo de ação e trabalho do OFICENA se desdobra para novas possibilidades, em 2016, Yuri Vasconcellos decide separar os alunos mais antigos formando uma grupo de estudos para aprofundar outras formas de teatro, depois de ter trabalhado aproximadamente 3 meses com esses estudantes, os mesmos começaram a se interessar pela oficina de montagem do Teatro Quintal, a primeira turma absorveu um grupo de alunos já bastante presentes no curso. A nova turma, no entanto, dividiu uma parte dos alunos velhos e novos do OFICENA, ao nosso ver, algo bem saudável, ampliando a oferta de estudos e possibilitando aos estudantes fazerem escolhas que vão além dos cursos já tradicionais na cidade, o resultado é uma ampliação de oferta de oficinas e consolidação do trabalho dos novos grupos de teatro, novas alianças e aqueles que até então foram alunos, agora, passam, também a ser realizadores e formadores de opinião dentro do fazer artístico da cidade.
Com a ativação do Teatro Quintal, novos professores de teatro surgem na cidade, com filosofias próprias, cada um de acordo com suas tradições. Dois nomes que vale a pena citar é Dio Cavalcanti e Vivi Medina, que, juntos com Silvana Lima, Matheus Lima e Ivan Tavares, formam um timaço de criação e influência artística para as novas gerações, e, com isso, pode-se dizer que gente que já estava um pouco afastada do teatro, voltaram a exercer essa prática, destaque para a atriz Jane Lacerda Lacerda, que já é possível ver em alguns cursos livres pela cidade. 
Enquanto isso, no Espaço Usina 4, Tânia Arrabal começa a entrar com seus cursos livres, na área de teatro de máscaras e boneco, além de confecção de adereços com oficinas de máscaras, papietagem, etc... também chega a notícia de que o núcleo Tânia Arrabal do Creche na Coxia, se junta a Yuri Vasconcellos e Anna Luiza Barbosa, para a criação de um novo espetáculo de teatro de bonecos. Vem coisa boa por aí.

Medos e Frustrações

Jovens que optaram por seguir carreira, ainda que dividindo seu tempo entre faculdade, emprego e tempo para se dedicar a seus grupos, estão descobrindo a imensa dificuldade que um artista enfrenta para se tornar um profissional de fato. Também parecem, alguns, bem decepcionados com a falta de apoio oficial e da iniciativa privada, para levar seus projetos adiante. Tudo isso já era algo apontado por nós, professores e diretores teatrais, desde que esses jovens nos procuraram,em 2013 e 2014. Dosar a vida criativa e artística com a expectativa de uma sociedade voraz e focada apenas na economia de finanças e bens materiais, atinge o coração do jovem, em cheio. Muitos não desejam dinheiro, mas vêem no teatro uma forma de dar um significado mais lúdico a suas vidas, além de poder trocar energias com sua geração, podendo se aproximar mais do fazer artístico e das relações fundadas, principalmente, num tipo de qualidade de vida onde a arte é o único meio de tornar a vida possível.

Movimentação líquida pelo universo da cultura local.

Celso Guimarães e sua grande empatia para lidar com grandes públicos. No Cine Mosquito, tornou-se referência de sua
geração, apresentando o cinema nacional e local além de fazer ótima animação cultural durante o sarau do mosquito.
Desde que iniciou sua atividade, em 2013, o OFICENA foi fazendo surgir uma geração que passou a se mover de forma líquida, pela vida cultural da cidade. Alguns jovens foram pra noite, dedicar sua vida à música ou prestigiar o mundo da música, alguns descambaram pelo mundo da palhaçaria e do circo e outros passaram a se encontrar em seus próprios grupos. Jovens como Guilherme Carvalho e Yuri Quintanilha, debandaram para a criação de seu próprio espaço artístico com o grupo "Operários do Teatro", que investe numa identidade própria. Já a jovem Kéren-Hapuk, hoje, dirige musicalmente e cada vez mais o TCC - Teatro Cabofriense de Comédia, além de começar a tomar iniciativa e direção ao caminho da performance que tanto lhe apraz. 
A jovem Nathally Amariá, é um exemplo de quem quer realmente tornar a atividade artística como uma possível fonte de profissionalismo. Desde que o OFICENA surgiu, em 2013, ela passou a atuar com auxiliar de produção e depois produção propriamente dita, lidando diretamente com a economia do fazer artístico e participando de planejamentos e propondo alguns caminhos. A partir de 2015 passou a fazer faculdade de Artes Visuais e deu uma cara nova à sua atividade artística ao criar o Varal do Beijo, que passou a fazer parte de eventos do OFICENA, Fest Solos, Cine Mosquito e NUDRA - Núcleo Livre de Dramaturgia.
O Movimento artístico do teatro de Cabo Frio, chamou a atenção de uma jovem designer, Manuela Ellon que passou a fazer parte de um grupo de teatro, com o intuito de dar uma cara visual ao TCC - Teatro Cabofriense de Comédia; hoje, Manu, como carinhosamente a chamamos, deu uma cara visual para diversos projetos: Cine Mosquito, Cidade de Palhaços e Fest Solos são alguns deles, trazendo para o teatro local, suas técnicas de abordagem visual, importantes para garantir marcas e descobertas no universo do teatro.
Com a fusão de novas participações e acontecimentos no meio artístico, o teatro de Cabo Frio se prepara para enfrentar o futuro incerto das mudanças políticas, agora é torcer para que todas as energias concentradas num trabalho focado e com continuidade nos últimos 4 anos, siga dando "frutos saborosos" para a nossa cidade.