segunda-feira, 2 de maio de 2016

7 Diretores de Teatro de Cabo Frio - O que assisti deles!

Nos últimos 10 anos, a cidade de Cabo Frio viveu altos e baixos no movimento de teatro local. Com a maioria de seu efetivo tendo que viajar para cidades maiores, a fim de encontrar trabalho na profissão, tem também, aqueles que migraram definitivamente para outras terras. Mas os que ficaram aqui, nunca deixaram de produzir e criar continuamente, embora com janelas relativamente grandes entre uma produção e outra. Por isso, resolvi fazer esta publicação, homenageando os diretores: Milton Alencar Jr., Rodrigo Sena, Italo Luiz Moreira, Cesar Valentim, José Facury, Silvana Lima, Fabio de Freitas.



JOSÉ FACURY

Ex secretário de Cultura, José Facury retoma sua vida teatral,
dessa vez, cuidando de seu próprio espaço cultural, o USINA4
José Facury é um dos nomes de ponta de lança da cidade, destacado diretor e cenógrafo, seu trabalho
no teatro local abarca uma gama de ações variadas. Quando cheguei na cidade, em 2004, o primeiro trabalho que assisti foi uma versão adaptada da obra "Pinóchio" de Carlo Collodi, dirigido pelo muito jovem Eduardo Magalhães. Eduardinho, na  época, estava na casa dos 18 anos de idade. Chamou minha atenção, o fato de um ator experiente, como Facury, ser dirigido por um jovem ainda em início carreira. Mas, Eduardinho era um baluarte de sua geração.
Tempos depois, Facury dirigiu e supervisionou diversos trabalhos além de escrever sobre e para o teatro local. Seu trabalho com dramaturgia, abarca, também, o teatro de bonecos e, tive o privilégio de ver nascer o espetáculo "Magia das Águas", do grupo Creche na Coxia, núcleo Tânia Arrabal.
José Facury, dirigiu grande parte dos atores da cidade e um dos seus trabalhos de grande destaque foi "Tempo de Espera" com Cesar Valentin e Marcelo Tosta, dois atores com características bem diferentes, em cena.
Tempos depois, tive o privilégio de ser, também, dirigido por José Facury no espetáculo de João Siqueira, "Auto do Trabalhador", uma remontagem encomendada pela TRIBAL - Associação Tributo à Arte e à Liberdade, e que, 30 anos antes, fizera muito sucesso com o grupo Creche na Coxia, o espetáculo trouxe um elenco novo, mas manteve uma trinca de artistas que já tinham feito a primeira versão, foram eles: Tania Arrabal, José Facury e Ivan Tavares, este ultimo, assumindo a direção musical. A montagem da TRIBAL, reuniu nomes importantes do teatro local, com destaque para atriz Vivi Medina, que circula de boca em boca, por sua ótima e dedicada maneira de atuar.
Em 2014, depois de longos períodos praticamente ausente da direção teatral local, obviamente que, atuando em outras áreas da vida cultural da cidade, José Facury reaparece com a cena "Sem Elas, Esmo" com Manuela de Lelis e Rafaela Solano, atrizes de sucesso, no interior do estado do Rio de Janeiro. O espetáculo fora criado, especialmente para o FESQ - Festival de Esquetes de Cabo Frio, no ano de 2014. Foi neste mesmo ano que tive o prazer de rever, em Cabo Frio a famosa montagem "Minha Favela Querida", um dos mais importantes e premiados espetáculos de animação do País, desta vez, pude conhecer a história bem de perto, vendo e conversando diretamente com os artistas dirigidos por Facury, nesta magnífica obra, dentre os presentes, destaco o mestre Clarêncio Rodrigues, criador de grande parte dos bonecos utilizados no espetáculo.
Recentemente, soube da retomada da parceria entre José Facury e Cesar Valentin, num solo dirigido por "Cezinha" com a atriz Rita Grego, "Mergulho, ou A Menina que Sangrava Poesia". O espetáculo, atualmente em cartaz no Parque das Ruínas, no Rio de Janeiro, iniciou sua grande viagem ao sucesso, neste ano de 2016. Facury aparece como cenógrafo, atividade principal de sua formação como artista dos palcos. Enfim, existe outras realizações, obviamente, da obra de José Facury, mas esta publicação é restrita aos trabalhos que pude acompanhar mais de perto.


ITALO LUIZ MOREIRA

Com estilo próprio e obcecado por ensaios e mais ensaios,
Italo se afirma como um dos fortes nomes da direção teatral
em Cabo Frio..
Italo é o diretor de teatro local com quem mais trabalhei. Em diversas tentativas de montagem do espetáculo "O Círculo do Jogo", acertamos a mão na montagem definitiva, em 2009, quando ele colocou toda a platéia no palco e fez os artistas representarem pendurados em um tecido. Neste trabalho, fiz a direção corporal, conseguimos um resultado satisfatório. Dois anos antes, em 2008, tentamos criar este trabalho com um elenco de novas atrizes, que incluía a hoje bem sucedida Rafaela Solano, mas não foi possível.
Por volta de 2010, junto com diretor-ator Frederico Araújo, chegamos a discutir a criação de um projeto em torno de "O Arquiteto e o Imperador da Assíria", de Fernando Arrabal. Fizemos uma leitura do texto, mas não conseguimos levar o projeto adiante. Vez ou outra, eu sempre me encontrava com Italo e trocávamos muitas idéias sobre teatro, nossas conversas eram afinadas e tínhamos muitas coisas em comum. Tivemos amigos em comum no Rio de Janeiro, embora não nos conhecêssemos de lá. Lembro que em 1998, meu grupo do Rio de Janeiro, "Trupe do Beijo", fora produzida por ele, numa semana de espetáculos realizados no Teatro Municipal de Cabo Frio, quase 10 anos antes de eu vir morar na cidade.
Em 2013, graças a um diálogo intenso entre Yuri Vasconcellos, José Facury e Italo Luiz Moreira, fui convidado para ser professor do curso de interpretação do Teatro local, em conversas e muitas reflexões com a equipe, criamos o nome de OFICENA para o curso e implementamos uma pedagogia totalmente voltada para o fazer teatral, através de montagens de clássicos da dramaturgia brasileira. Iniciamos com "O Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna, a peça inaugural do novo curso de livre de teatro, do teatro municipal de Cabo Frio. 
Paralelo à criação do OFICENA, Italo mergulhou fundo no seu espetáculo conceitua para criança, "A Lenda da Menina...", onde fui convidado para ser o cenógrafo. O trabalho teve duas apresentações apenas, mas foi inesquecível, dele fizeram parte as atrizes Claudia Mury e Mírian Panzer, Miriam, neste mesmo ano, migrou para o Rio de Janeiro, onde continua a carreira de atriz.
Em 2014, realizei junto com Italo, a montagem de "O Inspetor Geral" de Nikolai Gogol e a remontagem de "O Auto da Compadecida", foi neste ano que iniciamos uma série de Leituras Dramáticas, dentre as quais Italo apresentou para o público recém formado no OFICENA, a peça "Relações", com Gustavo Vieira e Claudia Mury. Algum tempo depois, já na  passagem para 2015, decidimos investigar a obra "Bodas de Sangue" de Federico Garcia Lorca e, finalmente, em 2015, Italo dirgiu uma da mais belas leituras dramatizadas de textos que tive o privilégio de assistir; "Bodas de Sangue" teve um grande impacto como leitura, mas por motivos de força maior, não tivemos como fazer a montagem definitiva deste texto, como era a intenção.
No teatro infantil eu e Italo dirigimos um estudo de Cinderela, direcionando os alunos infanto-juvenil, do OFICENA a pesquisar a fundo o conto infantil; e também a peça de sua autoria "Atlantic City", fechando o ano de 2015, com diversos trabalhos em  parceria. Já em 2016, tenho acompanhado a nova montagem do grupo "Andança por um Teatro Livre", onde Italo, depois de promover uma litura dramatizada de "A Farsa do Advogado Patelin", texto famoso, medieval, de autor desconhecido. Inciou um longo processo de ensaio com novos atores ligados à nova e antiga safra de alunos do OFICENA.

SILVANA LIMA

Silvana Lima, uma das diretoras mais queridas de Cabo Frio

Silvana Lima é uma das diretoras mais queridas de Cabo Frio, seu grupo, Creche na Coxia, tem uma forte tradição local, pelos seus 40 anos de existência e também, principalmente, pela obra realizada. Alguns dos grandes artistas da cidade, hoje, compõe a nova geração do grupo; que mantém-se fiel a praticamente uma ou duas montagens oficiais por ano, fora as montagens voltadas, exclusivamente para festivais, que é onde o grupo mostra sua maior vitalidade. Basta participar de um festival e a premiação é sempre garantida. Festivais espalhados pelo Brasil, já tiveram a honra de receber as peças do grupo, quase todas, escritas e dirigidas por Silvana Lima.
Dela eu assisti, "A Carroça dos Sonhos" e o impactante espetáculo "Iliada", de Homero, com uma adaptação livre da própria Silvana. Desde que cheguei em Cabo Frio, seu grupo nunca parou de produzir. Foram oficinas, vivências e intercâmbios, além de uma forte atuação politica local. Curioso é que, o Creche na Coxia, é o único grupo de teatro, no Brasil, que tem dois núcleos bem produtivos. O núcleo Silvana Lima e núcleo Tânia Arrabal, ambos, com espaços culturais que são um verdadeiro luxo para a cidade. O teatro Garagem e o Espaço Usina 4. Isto mesmo.
O trabalho mais recente do grupo, dirigido por Silvana é "O Velhinho e a Morte", uma cena curta, incrível, com uma perfeição de movimentos corporais e ritmo cênico, de tirar o fôlego. A cena que já recebeu diversos prêmios pelos festivais de teatro Brasil a fora; agrega diversas linguagens cênicas numa simbiose de ações que demonstram claramente o estilo seguro e a forma como ela dirige suas peças. Já estou sabendo da nova montagem do grupo é "A Menina e a Rosa". também fiquei sabendo, diretamente dela que a primeira montagem do Teatro Garagem será a peça "Bailei na Curva", um clássico da dramaturgia brasileira, dos anos 80. Agora é só aguardar porque o Teatro Garagem está a todo vapor.

FABIO DE FREITAS

Fabio de Freitas, diretor que também atua em suas peças.
Fundador do TAT - Trupe Andarilhos de Teatro.
Fabio de Freitas é um dos mais produtivos diretores de teatro, da Cabo Frio, uma coisa que é notória em seu trabalho é o conceito irrefutável de sua linguagem cênica. Dele, tive o prazer de assistir a inesquecível peça "Não Fui Eu", que tinha no elenco nada mais nada menos que as geminianas Vivi Medina e Louise Marrie, Fabio também fazia parte do elenco. Foi um magnífico espetáculo de rua, montado por volta de 2010. Seu grupo, Trupe Andarilhos, leva no próprio nome a essência do teatro que circula pelo Brasil.
Tive o privilégio de ser dirigido por ele, na montagem de um conto do escritor colombiano "Gabriel García Márquez" onde ele colocou para contracenar comigo, nada mais, nada menos do que Débora Diniz e Thainá Lasmar, hoje, duas atrizes afirmadas no teatro local e nacional. O trabalho de Fabio é rigoroso e vigoroso e o que chama a atenção na sua forma de dirigir, sem dúvida, é a maneira como ele transforma-se e transforma os atores que trabalham com ele. Sua linguagem é profundamente formal e exige muita dedicação.
Em 2012, Fabio lançou, no FESQ, a cena "Cenas de Sangue", um trabalho incrível, com Paulo Motta e Thainá Lasmar, trabalho incrível e que lançou, definitivamente o ator Paulo Motta que hoje pode-se afirmar que é uma forte energia local, da nova geração. Em 2011, assisti à cena "Fabulamente", um solo com a atriz Thainá Lasmar, dirigido por Fabio de Freitas, tremendo sucesso, que circulou por diversos lugares, sendo, inclusive o espetáculo inaugural da primeira edição do Fest Solos, evento que já vai para o terceiro ano de realização com grande sucesso.
Em 2015, Fabio fez, junto com Paulo Motta, o perturbador "Ratos e Homens" de Johan Steinbeck, uma cena perturbadora onde Fabio mostra sua habilidade como ator que investe fundo na concepção de maquiagem em suas cenas. É também um mergulho sério na realismo como linguagem, conferindo um peso intrigante à forma de atuação do ator Paulo Motta. O trabalho exibido no FESQ, teve grande repercussão e até hoje é comentado. É provável que a investigação do trabalho com "Ratos e Homens", tenha rendido, um retorno ao realismo com o incrível "Malefícios do Tabaco" de Tchecov. Trabalho onde Fabio, mais uma vez, investe como ator, na ma maquiagem e ambientação do espaço do teatro Garagem. 

CESAR VALENTIM

Cesar Valetin, extravagância na linguagem, não economisa
no visual, seus espetáculos são um verdadeiro Luxo!
Assiti diversos espetáculos do Cesar Valentin como diretor, seu grupo de teatro é bastante atuante na
cidade, o "Fabricarte" e é também, um grupo que investe no trabalho pra Criança. Em 2014, assisti ao belíssimo "No Quintal da Imaginação", que reúne u time de primeira, do teatro local: Rafaela Solano, Manuela de Lelis e Ricardo Amorim. No quintal, foi um dos poucos trabalhos locais, totalmente voltado pra criança, com um resultado satisfatório. Chamou a atenção, a agilidade com que "Cesinha" dirije seus atores.
Por volta de 2009, se não me engano ele fez o espetáculo "Trapezio" com um cenário incrível, gigantesco e bem produzido, infelizmente, o trabalho acabou não indo adiante por dificuldades de transporte, pois, o cenário exigia um aparato de produção, praticamente impossível de mobilizar em Cabo Frio, mas quem viu este espetáculo, iria ficar impressionado com a extravagância da linguagem luxuosa de Cesinha, que não economiza no visual, sempre muito rico também em figurino e maquiagem.
Por volta de 2007, se não me engano, assisti um espetáculo infanto-juvenil com um nome longo e divertido "Prosaicas prosopopéias propaladas por praticantes de prosas, predispostos a polivalência prelecionando para preclaras plateias!" Lembro que a gaiatice era tanta que a própria exposição do nome do espetáculo rendeu uma cena inteira e completa. Era um espetáculo ágil e musical, uma verdadeira proeza saída da imaginação deste tão querido diretor. Ao final de tudo, ficou a sensação de que o ator, nas mãos de Cezinha, vai ganhando corpo e expressão, não é à toa que, por volta de 2010 ou 2011 nascia o incrível espetáculo "Viagens de Américo", talvez, o trabalho mais divulgado do grupo.
Uma coisa interessante é que, "Viagens de Américo", pude assistir 5 vezes e pude perceber a forma lenta e gradativa como o espetáculo foi crescendo. Gosto de diretor com personalidade que mantém seu trabalho no ritmo natural de crescimento, que depende, principalmente, do próprio desenvolvimento natural e técnico do ator. Quando vi a ultima apresentação, em 2015, pude sentir o espetáculo mais radical na proposta visual, sem mudar a estrutura mas com um investimento maior ainda no acabamento artístico que se podia sentir na perfeita caracterização do ator Ricardo Amorim.

RODRIGO SENA

Rodrigo Sena, o mais "outsider" dos diretores locais, como a própria foto diz
nunca se sabe quando seu próximo trabalho vai acontecer, mas quando
acontece, há sempre uma boa surpresa.
O diretor mais "outsider" de todos os que conheço no local, Rodrigo é meio misterioso, caladão.
Aparece "do nada" com seus novos trabalhos e sempre surpreende. Se for mostra competitiva, ele premia logo de cara. Tive o prazer de assistir sua peça "Segredos do Campo de Girassóis" e foi impressionante a empatia com o público, no Fesq de 2008. A cena ficou famosa pela "cena do beijo", depois de um percurso profundamente metafórico do começo ao fim, o elenco todo feminino se beija em cena e causa um misto de espanto e poesia, que levou o público a uma grande e sensível viagem. Este tipo de abordagem é rara, no teatro local, já que a região é infestada de igrejas e propaga um puritanismo irritante. Rodrigo, entretanto, conseguiu extrair muita arte de seu premiado elenco.
No fest-solos de 2015, assisti a uma cena incrível, "Seu Coisinha", trabalho meticuloso que afirmou as qualidades do ator Wenerson Ramalho. Neste trabalho, Rodrigo deu muita alma à sua inventividade, oferecendo ao ator, diversas possibilidades cênicas. O trabalho foi muito bem recebido e aplaudido, tanto que, foi convidado para reapresentação no III FesTSolos, agora, em maio de 2016.
No final de 2014, Rodrigo apresentou, junto do curso LD, um estudo teatral chamado "Cacos", realizado com alunos do curso, apresentando um resultado que, rendeu um ótimo debate. Neste espetáculo-estudo, Rodrigo fez questão de explicar que direcionava-se, naquele momento, para alguns estudos da arte do ator e punha em prática o processo como resultado. Ao final, um debate incrível com a presença dos alunos do OFICENA, visitando o espaço LD. Encontro inesquecível.
Uma das cenas que gosto de recordar é, sem dúvida "A Menina Escondida no Baú", que revelou qualidades interpretativas incríveis, da atriz Anna Fernanda. Rodrigo soube esculpir cada gesto e criar um ambiente perturbador, indo fundo na psique humana, marca registrada de sua linguagem como diretor.

MILTON ALENCAR JR.

Focado no cinema, Milton Alencar Jr.
também dirige teatro.
Embora produza pouco no teatro local, não tem como não lembrar do trabalho de Milton Alencar "A Armadilha", realizado em 2006, com Guilherme Guaral, Vivi Medina e Italo Luiz Moreira no elenco. No espetáculo, Milton criou um clima sufocante, mesclando uma harmoniosa, embora perturbadora, cena em que utiliza o audiovisual, sua marca, pois, Milton é um reconhecido diretor do cinema nacional, com diversas obras realizadas destacando o filme "Garrincha" onde coloca uma boa quantidade de artistas locais na telona.
Cor-responsável pela criação do festival Curta-Cabo Frio, foi muito bom ver a forma como ele trabalha com atores, quando, em 2015, o TCC - Teatro Cabo Friense de Comedia participou do projeto TELETEATRO, dirigido por ele e Bruna Pozzebon. Sua habilidade e concentração para lidar com atores mostrou não apenas a larga experiência de um profissional, como também, a força criativa e o ótimo orientador de atores no SET. Milton não produz muito para o teatro local. Ter assistido seu espetáculo "A Armadilha" deu uma noção clara, para mim, de sua pegada como diretor, também da cena teatral. 

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