quinta-feira, 19 de setembro de 2013

TEATRO LOTADO NO FESQ 2013


Diário do FESQ – Primeio e segundo dia



Até agora, 14 trabalhos passaram pelo palco do TIAM (Teatro Inah Azevedo Mureb). Foram muitas e variadas emoções, sensações que vão do drama à comédia, da tregédia à farsa, da inventividade à reinvenção da linguagem teatral. Uma mistura de diversos estilos, possibilidades e criações, tudo a serviço da carpintaria teatral, realmente, um mergulho na arte, na poesia, na sensibilidade e na percepção real do mundo, através da arte do TEATRO.

Alguns momentos marcantes como o retorno, dessa vez mais agressivo, dos grupos locais, com cenas feitas por artistas da cidade. A trupoe Andarilhos, supreendeu com uma comédia de altíssimo nível e a afirmação definitiva da atriz Tainá Lasmar, que marcou presença no 9º FESQ (2012) e de lá pra cá não parou mais. O grupo Creche na Cochia que, com sua linguagem já firmada no cenário nacional, voltou à cena depois de um longo jejun de participações no festival local. Dessa vez, trazendo, além de ótiam performance coletiva, o destaque estupendo do trabalho corporal da atriz Vivi Medina e a estréia honrosa do ator Ivan Alves.

Rodrigo Rodrigues, nos brindou com sua nova personagem, Rejane, uma cearense juvenil, espevitada, que fazia o público viajar em seus apartes antológicos, desta vez, a “vendedora de abrosia” mostrou total domínio de palco e trabalhou duro para que o FESQ não fosse levado por alguns expectadores mal educados que levam crianças (quase bebês) para assistir aos espetáculos mas acabam na gente da cena, torturando as crianças e atrapalhando os artistas. Rodrigo foi elegante e soube, de forma bem humorada, recuperar o momento, e não deixar a peteca cair.

O FESQ demonstrou grande amadurecimento, com o grupo de voluntários e contratados do evento, atentos e trabalhando duro pelo coletivo e, principalmente, para fazer a platéia se sentir “em casa”. Foram muitos os momentos altos das duas noites, com ótimas comédias, tragédias e dramas e até cenas de palhaçaria, com o funcionamento a todo o vapor do debate do dia seguinte e o comparecimento em massa dos artistas presentes no festival.

Destaque também para a bela homenagem, na arena cultural, que funciona antes do início da cessão de esquetes. Uma bela homenagem ao poeta Paulo Silveira, com um belo varal poético, saudando a passagem deste nobre e tão amado lietarato da cidade. A presença marcante do poeta Diego Sá com sua bela interferência em forma rap e declamações, destacando um momento singelo onde o FESQ abre, também, suas portas para a literatura. Aliás, entre os poetas presentes, um da nova geração, Miguel Lima, que com sua timidez de costume, não perdeu a chance de mostrar porque, a boa poesia independe de “declamadores”, se o texto é bom o público ouve e respeita.

Das 14 peças já apresentadas, nos dias 17 e 18, ficou a certeza de que a qualidade artística está cada vez mais forte e o encontro cada vez mais potente, levando a arte do teatro à categoria popular na medida em que, também mergulha na essência artística e no pensamento desta arte milenar. O FESQ está fazendo bonito e não faltam cidadãos cabofrienses orgulhosos de ver seu teatro mais uma vez, LOTADO!

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O FESQ VAI COMEÇAR!

Todos os anos, o Fesq lota de público e artistas, uma injeção de teatro na
cidade de Cabo Frio.
Isso mesmo, O FESQ VAI COMEÇAR! Fazemos questão de grafar a frase em caixa alta como se estivéssemos gritando... a ideia é essa mesma. "Gritar" aos quatro ventos que o mais importante evento de cenas curtas do interior de estado do Rio de Janeiro, vai começar. O FESQ (Festival de Esquetes de Cabo Frio) é um evento que marca presença no cenário nacional pela enorme quantidade de inovações que imprimiu, na forma de fazer e promover teatro. Para destacar dois pontos importantes, o evento tem um sistema de voluntariado que faz a fila andar com ou sem dinheiro. A outra inovação é o tratamento dado aos artistas que participam do evento, oferecendo textos críticos sobre os trabalhos premiados e um amplo debate que envolve a cena curta e aqueles que por ela se interessam.
Num outro sentido o FESQ ajuda festivais da região e até de outros estados, exportando sua excelência, ajudando a criar estilo e influenciando novas tendências no campo da produção de eventos desta natureza. Uma vez, numa conversa com Ravi Arrabal, da Evohé Produções, sobre os possíveis "segredos" deste evento, ele simplesmente respondeu. Além de AMOR AO TEATRO, nosso segredo é o TRABALHAR PELO TEATRO. Isso mesmo, o FESQ é quase uma unanimidade. Junta o pulso de uma geração intermediária que é "tarada por teatro", mas consegue dosar a emoção com trabalho duro e muita dedicação.
Hoje, dia 17 de Setembro de 2013, o FESQ iniciará mais uma edição e trará, sem dúvida, muito teatro de qualidade para a cidade de Cabo Frio, sem contar, que as peças de teatro local, também terão seu espaço. A novidade maior de todas é o apoio que os estudantes de teatro do OFICENA (Curso Livre de Teatro de Cabo Frio), terão, podendo assistir às peças no dia de hoje levando um quilo de alimento, apenas, e nos demais dias terão desconto especial para terem acesso às inúmeras peças de teatro profissionais que o evento irá oferecer à cidade de Cabo Frio.
ALVÍSSARAS!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Alguns conselhos para quem quer formar grupo de TEATRO.

Como dizia mamãe, "se conselho fosse bom era vendido e não dado", espero que esses conselhos "vendidos" aos leitores do Teatro Possível possa ser útil e gere boa lucratividade para todos.
Durante meus quase 30 anos de teatro, detectei alguns padrões na vida artística que vale a pena comentar a fim de ampliarmos o relacionamento saudável em busca de nosso maior sonho. Fazer teatro como OFÍCIO.

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Padrão 01 - Brigas inexplicáveis:

Quando o grupo começa a decolar, brigas e desavenças começam a brotar de todos os lados, muitas vezes, terminando com o afastamento de pessoas importantes no processo. O grupo perde força e na maioria das vezes morre. Os ex-membros a princípio ficam de mal e depois passam a agir como se nada tivesse acontecido.
Raramente a questão é discutida cara a cara  e as partes não se sentem muito confortáveis para o diálogo. A mágoa pode aumentar e a intransigência acaba gerando não só um grande prejuízo financeiro para o grupo e os artistas envolvidos como, em alguns casos, o artista nunca mais recupera sua auto-estima; às vezes acaba por desistir da profissão ou passa a trabalhar completamente sozinho, fazendo bico.

Como lidar com isso?
Habituar-se a fazer rodas de avaliação com foco na mediação dos conflitos. Olho no olho, perdão e respeito ao tempo de cada um. O diálogo não quer dizer que tudo voltará a ser como era, mas ambas as partes conflitantes podem abraçar o essencial e trabalhar juntos por um objetivo que transcenda seus egos.

Um modelo de grupo bem organizado, em Cabo Frio, é a TRIBAL embora
não seja um grupo de teatro, tem uma forma dinâmica de lidar, de forma
habilidosa, com a pressão externa e as diferenças internas. 
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Padrão 02 – Dificuldade de gerir o caos e os egos: 
Diferenças ideológicas e intelectuais, geram diversos comportamentos que criam confusão no coletivo e o grupo acaba indo sempre na conversa dos que são “bons de lábia”, aqueles que são capazes de argumentar melhor acabam exercendo um domínio “pseudo carismático” sobre os demais. O grupo, devido à sua deficiência gestora acaba “acreditando demais” numa pessoa e quando “essa pessoa” desanima todos ficam sem direção e perdem o foco.
Dentro do grupo é importante dar valor a cada ação de cada membro e se houver discordância é importante que a fala seja clara e sem julgamento. Dizem alguns especialistas em comunicação que deve-se evitar o termo “discordo de você” e substituir por uma linguagem que some o seu pensamento com o do outro ao invés de desejar que seu pensamento se imponha e “ganhe a batalha”. É importante ver que todo argumento tem um fundo de verdade e um diálogo avança quando reconhecemos o que realmente nos importa, no discurso do outro. Do contrário, um diálogo pode se transformar numa “batalha intelectual” e, neste caso, o “perdedor” tende a se calar e, muitas vezes, ficar magoado e retirar sua colaboração do grupo.

Como lidar com isso?
Roda de estudos, distribuição da palavra com mediação para que todos possam se posicionar e ouvir sempre até o fim tudo o que o outro deseja dizer para só depois replicar. Fazer rodízio de liderança é um ótimo exercício mas evitar “eleição”, tomar cuidado com a pseudo democracia para evitar que o grupo se divida entre “quem quer” e “quem não quer”.  Existe várias dinâmicas de grupo para lidar com isso mas o grupo precisa ver o relacionamento como um foco e não só “ensaio interminável” de um trabalho.

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Padrão 03 – Falar mal dos companheiros que fazem sucesso: 
Outro padrão pernicioso que esvai toda a energia do grupo é o excesso de julgamento do trabalho alheio conforme afinidade. Se “gosto” de alguém vou ser tolerante e elogiar, porém,  se “não gosto” vou falar do seu ponto fraco e jamais reconhecer sua capacidade positiva. Este tipo de comportamento se espalha como uma praga no meio artístico, e quase sempre um ou outro artista vai para a “berlinda” em função disso. Esta situação mina a auto-estima e prejudica o desempenho perante os colegas, ao se sentir ameaçado, o então artista que se sente “de fora” acaba “falando mal” dos ex-colegas de trabalho, espalhando uma cizânia no mercado e no espaço onde o grupo atua.
Um ex-participante frustrado se não tiver uma boa formação de caráter, acaba por se mover de forma sorrateira pelos guetos e convidar amigos do “ex-grupo” para festas, excluindo seus desafetos e espalhando desconfiança sobre o “processo anterior”. É comum também, juntar-se a outro grupo “rival” e tentar arrastar pessoas do grupo “antigo” para fortalecer o “inimigo”. A pessoa que age assim, muitas vezes está ferida por não se sentir ouvida e/ou ter suas idéias reconhecidas no grupo anterior. Este tipo de comportamento é um padrão que pode se repetir no próximo grupo e acompanhar o indivíduo por todos os lugares por onde andar.

Como lidar com isso? 
Aceitar a crítica e o elogio é um bom passo. Na hora de criticar e elogiar, ser ponderado nos dois quesitos evitando bajulação e/ou desrespeito ao trabalho do outro posando de “dono da verdade” sob a alegação de que está sendo “sincero”!

O grupo "Armazém Companhia de Teatro" é um dos grupos mais sólidos do
Rio de Janeiro, com uma economia estável e ótima reciclagem constantes
de seu coletivo.
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Padrão 04 – Flerte, relacionamento afetivo e comportamento sexual são questões que acompanham de forma muito ativa um grupo de teatro. O universo da arte é uma usina de desejos em todos os sentidos. Muitos desentendimentos entre os membros dos grupos são gerados por ciúme exacerbado, sentimento de posse, inveja e projeção de desejo uns sobre os outros.
Quando essas questões se instalam é comum os homens “competirem” pelas mulheres e as mulheres “competirem” entre elas. A formação de territórios “sagrados” que vão referendar relacionamentos amorosos entre pessoas pode criar situações de mal entendido, traições e desconfiança além de duplo vínculo, como, tratar bem alguém na ausência de outrem mas ser indiferente ou tratar mal na presença de alguém.
Nossa herança latina transforma relacionamentos em “novelas intermináveis”, falta de auto análise e também de reflexões coletivas leva os membros do grupo a sentirem carências de ordem afetiva e sinestésica.

Como lidar com isso?
Aprender a dialogar e falar francamente sobre o assunto. O reconhecimento da situação pode levar ao diálogo justo e abrir com franqueza a real situação e isso pode gerar acordos benéficos  para o grupo. Evitar coisas do tipo “charminho”, “falso jogo de sedução” e em caso de envolvimento assumir o que quer, pode deixar todo mundo à vontade para lidar com o caráter de cada um.
Exercícios que envolva o toque, práticas coletivas de massagem pode descarregar a tensão sexual e levar o relacionamento para outro lado, em alguns casos vai reforçar o desejo, pois, a química pode fluir espontaneamente entre duas pessoas ou mais, neste caso, o que se recomenda é sempre o diálogo, a compreensão do que está acontecendo e a franqueza na hora de resolver algum “mal entendido”.

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Padrão 05 – Dinheiro, dinheiro, dinheiro: 
Existem pessoas no grupo que se gabam de serem fracassadas financeiramente e deixam claro que só está ali porque todo mundo é duro. Esse tipo de argumento pode ser poético mas o indivíduo que diz isso com tanta veemência acaba não participando dos esforços do grupo para atrair recursos para o trabalho coletivo. Acaba sendo sempre contra a prosperidade e ofende os colegas que trabalham honestamente chamando-os de “capitalistas”!
Nossa herança judaico-cristã, nos ensina que dinheiro é sujo e, por causa disso, muitos mal entendidos acontecem no relacionamento inocente entre as pessoas que só querem se dedicar com amor a um ofício, embora, muitas vezes, não acreditem que possam extrair recursos dele. O trabalho recompensado é bom e mais importante ainda é firmar compromisso e se ajudar mutuamente, fazendo "vaquinha", participando de editais, promovendo festas pagas e agregando recursos para melhorar a qualidade de vida do grupo e dar melhor visibilidade a suas produções.

Como lidar com isso?
Fazer rodas de estudos sobre como abordar as  perspectivas de mercado para o trabalho, trocar idéias sobre como melhorar financeiramente, colocando metas em comum e fazendo um esforço pessoal para reconhecer que trabalhar por remuneração justa não é nem um tipo de pecado mortal. É muito comum nos grupos existirem pessoas com talento administrativo e que estão ali para serem artistas e não “contadores” e/ou  “patrões”, para que haja um equilíbrio, aqueles artistas de perfil menos administradores, devem se esforçar por, pelo menos, saber a diferença entre gasto e investimento.
Uma coisa que se recomenda é a ajuda mútua, aquele que tem dom para administrar às vezes precisa de apoio para desenvolver seu lado artístico e aquele que tem uma ótima “veia artística” pode colaborar com o outro e assim, ambos, se ajudando, podem levar o grupo ao sucesso não só estetico mas, também, com resultados financeiros.
A troca de conhecimento de forma metódica ajuda a desenvolver e fortalecer economicamente o grupo. Ao invés de ficar dizendo para seus colegas que está estudando inglês na escola mais cara do Rio de Janeiro, seria muito melhor propor aos colegas que tem dificuldade com esta língua e fazer uma roda semanal de estudos ajudando-os a ampliar o conhecimento do idioma.

O grupo "Andança - Por um Teatro Livre", sediado em Cabo
Frio, vem se mantendo a anos, graças à determinação de seu
criador, Italo Luiz Moreira.
Só para fechar a ideia!
A troca de informações práticas é uma coisa muito antiga no meio teatral. Os grupos podem desenvolver grande contato com a arte se valorizar a troca de aprendizado. Uma boa forma de lidar com isso é tirar os finais de semana para fazer uma grande roda de saberes. Onde cada um vai ter um tempo entre 15 minutos a uma hora para propor ao grupo algumas dinâmicas referentes ao seu saber principal e o grupo ter o acordo de aceitar “irmanamente” o presente oferecido a todos por um de seus componentes.
Numa roda de troca ninguém deve se sentir ridículo ou como quem “não tem nada pra dar”, transmitir seu saber ao grupo é uma forma de aceitar os outros saberes com gratidão. Notem que, quando essa prática é instalada, várias pessoas despertam para o dom da pedagogia do teatro e o grupo pode acrescentar em sua receita as tão famosas oficinas curtas e longas onde os resultados dessas trocas internas passam também, a servir a comunidade além de melhorar o fator econômico do coletivo.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

CABO FRIO: UM SÉCULO DE CENA - Por José Facury Heluy

A publicação deste estudo historiográfico das práticas teatrais em Cabo Frio, contribui de forma visceral para a realização de nossa missão mais importante, informar as novas gerações e contribuir para que novos grupos surjam. Nossa cidade sempre foi marcada por uma intensa atividade artística no setor teatral, embora tenha sofrido uma esvaziamento que, aos poucos, vem se recuperando. Este texto de José Facury, com certeza ajuda-nos a tocar enfrente o sonho de tornar o teatro local cada vez mais presente na vida do cidadão cabrofriense. (Jiddu Saldanha, criador e coordenador do blog teatro possível).


Capítulo 1


A história do teatro em Cabo Frio, nos seus primórdios, não foi diferente das de muitas pequenas cidades brasileiras. Logicamente, a que se arvorava em construir a sua casa de espetáculos, por conta da febre cultural que se deu ao final do século dezenove de informar e ampliar o cabedal cultural da sociedade urbana construiu um maior lastro intelectual histórico. Principalmente, por terem sido palcos disponíveis à presença das grandes companhias que se deslocavam dos grandes centros, alguns até de companhias internacionais. Inclusive, porque estes teatros, cada um mais portentoso do que outro, se constituía o espaço de referência para os grandes acontecimentos sociais e artísticos das cidades que largaram na frente dessa febre de casas de espetáculos a partir do século das luzes.
Naquela época, construir um bem cultural dessa monta exigia vultosa quantia e a maioria das cidades interioranas que conseguiu construí-lo aproveitou os seus ciclos econômicos benfazejos; como a produção da cana de açúcar e o antigo Teatro Trianon em Campos; além de referências mais pontuais ligadas ao extrativismo da borracha como os teatros da Paz em Belém e o Teatro Amazonas em Manaus. Em Cabo Frio, motivada pela inauguração do Trianon em Campos e pelo desenvolvimento da produção do sal, foi possível unirem-se as forças econômicas para pensarem em construir um espaço que abrigasse essa arte, que só veio acontecer anos mais tarde quando foi possível germiná-la á emergente arte cinematográfica. 
Nico Felix
As cidades brasileiras que mostravam condições de ter as suas casas de espetáculos o faziam de forma competitiva, pois tê-lo em magnificência e opulência demonstrava a alta cultura do povo e ainda se disponibilizavam para atrair grandes companhias nacionais ou internacionais de ópera ou teatro, que aventuravam em turnês pelo Brasil adentro. Logicamente que, quanto mais infra-estrutura tivesse estes espaços, mais se tornariam abertos a essa visitação, até porque tais turnês se tornavam grandes acontecimentos sociais. 
Sem realçar nenhum juízo de valor qualitativo, as cidades sem esta grandiosidade, por conta da ausência destes espaços, recebiam as pequenas companhias, muitas das vezes mambembes e, quase sempre, voltadas ás paródias resumidas das grandes montagens. Mesmo se tornando uma arte que surgiu do veio popular nas feiras e mercados nos séculos anteriores, desde o século dezessete onde ela foi encampada pela nobreza e pela elite social consumidora foi aos poucos se desenvolvendo os críveis momentos históricos da encenação teatral; que atingia a sua grandiosidade ao final do século dezenove, como que já prevendo a variedade de veículos de comunicação que viriam no século a seguir, para enriquecê-la de linguagens e recursos, mas também para mergulhá-la em crises constantes, tornando-a dependente dos poderes públicos. 
Na época em questão, a necessidade da arte teatral era comum a todos, pois era o único veículo de informação e entretenimento sem exigir que o cidadão soubesse ler ou escrever. Isto fazia as cidades sem tais espaços receber as companhias constituídas de produções menores, de perfil inteiramente popular que reproduziam, em tons de farsa melodramática, as montagens de sucesso da época, apresentando em circos e em espaços adaptados.
Já no início do Século XX, várias destas companhias chegavam a Cabo Frio trazendo antigos vaudevilles e gostosas burletas onde em prédios adaptados pela sociedade local, faziam as suas apresentações. Sabe-se que um destes espaços era um galpão de secos e molhados localizado no Bairro do São Bento, que se transformou posteriormente em uma agência de automóveis. 
Cada casal levava a sua mais sofisticada cadeira, deleitando-se com a dramatização dos atores mambembes que por aqui chegavam. Às damas das famílias abastadas era destinada a obrigação de arrecadar fundos para limpá-lo, prepará-lo, emitir convites e hospedar os atores. O drama naturalista francês “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas Filho, por mostrar a trama romântica de uma cortesã e a contração fatal de uma tuberculose - doença que ceifava vidas na época -, era uma das coqueluches, montada por diversas companhias da forma adaptada ou mesmo improvisada. 
Muita das vezes a mesma companhia reaparecia na cidade sempre fazendo muito sucesso, apesar de que, na repetição, o público não ligava muito para o que ocorria em cena, e sim com o público ao lado verificando os modelos, os penteados ou mesmo a postura de cada um diante da encenação. 
Assim como, na partidarização cultural que envolvia as bandas de músicas rivais, também os grupos políticos que dominavam a arte musical da Banda Lira Luso Brasileira (Liras) e a Euterpe Cabofriense (Jagunços) disputavam quem trazia a melhor companhia para a cidade. Quando ocorria uma apresentação mais onerosa, onde seria preciso unir as duas facções, tinham que dividir a platéia para não acontecerem os acirramentos conflituosos. Em épocas de querelas políticas na cidade as facções conflitantes se portavam nos lados da platéia formada, tendo como limite de trincheira o corredor central que dividia as alas das cadeiras. 
O teatro era na época o grande espaço do encontro social e informativo e, dessa forma, as apresentações se davam década após década em Cabo Frio, porém ainda sem ter um espaço próprio para a função. Os melodramas circenses tomavam corpo, quase sempre donos de um poder histriônico autêntico. Também contribuíam para o enriquecimento cultural e informativo da sociedade local, estendendo as raias desse importante veículo de comunicação cultural às populações subliteratas.


Capítulo 2
O cinema e o teatro como necessidade cultural.


Desde os festejos dos trezentos anos da sua fundação, em 1915, quando a cidade se engalanou em festas e circunstâncias, já era cogitado ter um espaço definitivo para os acontecimentos teatrais e cinematográficos. Somente alguns anos depois com a chegada do italiano Luís Salvati, proprietário de um projetor que, unindo-se ao jovem jornalista e romancista Pedro Guedes Alcoforado, se dedicou a ser o programador e operador com a necessidade de ocupar um espaço em um galpão da família Massa – Gallo & Cia -, onde hoje é a sede da Caixa Econômica Federal. Ali, vez ou outra, aconteciam projeções de cinema e apresentações teatrais de outras plagas.
Conforme nos conta o memorialista Hilton Massa em Cabo Frio, Nossa Terra, Nossa Gente: “a casa foi adaptada para o espetáculo teatral, inaugurando-se o gênero com a companhia da atriz paulista Sofia Galine, a mesma era versada em interpretar as obras de Alexandre Dumas Filho”. Portanto, intui-se que deveria ter vindo à cidade com uma das obras desse repertório. Outra companhia que sempre aparecia por aqui, “não se tendo dados do seu verdadeiro nome ou da sua naturalidade foi o ator Sátiro, logo sendo apelidado na cidade como Caôlho, pelo defeito que apresentava. Outra atriz que não se tem muitos dados precisos sobre de quem se tratava era a bela Miss Ione que cantava e interpretava versos musicados e juntava muitos rapazes a suspirar por ela”. 
“No entanto, foi o galã Guilherme Martins de Souza que, tendo vindo por aqui se apresentar em uma dessas companhias, despertando o frisson nas moças e a inveja nos rapazes acabou se fixando em Cabo Frio” e disseminando a possibilidade dos jovens se juntarem e exercitarem a arte dramática. “Posteriormente o incentivador casou com uma das moças de São Pedro da Aldeia, indo lá morar onde se tornou um político influente.”
As comédias de costumes também fizeram sucesso por aqui até 1930. O chamado teatro ligeiro, sem definição estilística e formal também grassavam nas cidades interioranas. Foi aí que, em Cabo Frio, a coisa mudou de figura. Sentindo a necessidade de um cabedal cultural, a elite viu a necessidade da criação de um espaço que abrigasse essa importante arte e que contemplasse também a crescente arte cinematográfica. Era impossível não tê-lo, já que a febre do cinema se alastrava pelo mundo todo e a cidade já estava devendo por não tê-lo como função cênica.
Quase toda a primeira metade do século XX Cabo Frio ficou mais a esperar as companhias de fora, que às vezes se apresentavam em espaços improvisados, como salões dos sobrados, ou quando se queria apresentações dos saraus culturais geralmente promovidos pelas damas da sociedade da época e na maioria das vezes de caráter exclusivamente filantrópico. Nessa leva, nos chegou o teatro musical O Paulista de Macaé de Luís Peixoto e Marques Porto gênero que depois foi denominado como teatro de revista
Surge então, aproveitando o desenvolvimento da indústria salineira o Cine Teatro Recreio, construído em 1917 pela firma Salles & Abrantes. Ele foi o veículo principal da mudança sócio cultural da cidade, se estendendo em seguida com a profusão dos clubes sociais e a adaptação de palcos dos seus salões para abrigar as orquestras carnavalescas, onde passaram a ser usados para alavancar a atividade como alternativa cultural.
Como já havia ocorrido nas cidades que abriram seus teatros, a abertura do Cine Teatro Recreio também impulsionou o florescimento das artes cênicas na cidade. Nesta época deu-se grande crescimento no número de companhias dramáticas que compareciam em Cabo Frio, buscando expandir seu mercado, principalmente quando as companhias francesas e portuguesas lhes faziam concorrência na Capital Federal. 
Na segunda década do século XX, transitava em Cabo Frio peças de Coelho Neto, Cláudio de Souza, Gastão Tojeiro e Armando Gonzaga, montadas por companhias periféricas do Rio de Janeiro, Niterói e Campos. Em 1930 se apresentou por aqui a Companhia do Teatro de Brinquedo, de Eugênio e Álvaro Moreira, que projetou Joraci Camargo e sua peça Deus lhe Pague.


Capítulo 3
Os primeiros agrupamentos teatrais da cidade.


Uma casa de espetáculo mista de teatro e cinema, além de estar afinada com os novos tempos, acabou sendo palco de consagradas revistas onde se retratavam costumes da época, aspectos do comércio e da vida local, inclusive a sátira política como aconteceu na célebre revista Na Terra do Sal, encenada pelo consagrado ator Mauro de Almeida quando, teria estreado o teatro cabofriense despontando como compositor Deodoro Azevedo com grande sucesso” ressalta Hilton Massa.
Em seguida, sem dúvidas que incentivado pela febre que se deu em busca de uma dramaturgia nacional, surge o primeiro agitador teatral cabofriense que a tradição oral nos conta: Antonio da Cunha Azevedo, popular Nico Felix, que incentivado pela promoter cultural Cacilda Santa Rosa foi capaz de realizar montagens onde atuavam os filhos das tradicionais famílias cabofrienses. 
Nico Felix organizava suas montagens também com o objetivo voltado à filantropia, para o elenco não passar por meros atores e atrizes, alvos de preconceitos dos mais desumanos possíveis. As suas encenações basicamente eram intercaladas entre montagens teatrais e saraus cênicos onde interpretavam monólogos curtos de autores conhecidos. Os homens eram chamados de vagabundos e as mulheres de prostitutas.Formavam jograis recitativos e, uma vez ou outra, se punham a parodiar cenas de clássicos românticos da literatura dramática. Neste potencial nascedouro revestido de resistência social se destacaram também Deodoro Azevedo, Hilton Massa, Iná Azevedo Mureb, Candida Terra e Cacilda Sta Rosa. 
Seguindo a linha da paródia Nico Felix aguçado pela sua espirituosidade juvenil escreve e dirige a satírica Na Terra dos Macacos, ironizando o sucesso anterior do seu tio. “Macacas eram compras de sal, mais ou menos marotas, esgueirando-se entre o pagamento do imposto do consumo real e o calculado, entre aspas, pela vistoria”. Ainda seguindo o resgate do Hilton Massa “Dona Maria Carlota de Sá Pereira, a dona Mocinha, animando os seriados do velho cinema Recreio ou nos intervalos das peças teatrais: Tinha de Ser de Armando Braga, Casamento por Anúncio, Um Sacristão Em Apuros”. A nosso ver esta última peça deve ter sido a comédia As Desgraças de Uma Criança de Martins Pena.
Ressalte-se, conforme Hilton Massa, que a dramaturgia da cidade não ficava distante da inspiração política. E já na época antes da Revolução de Trinta que “o vitorioso do renhido pleito não iria governar, profetizou a revista teatral cabofriense Seu Julinho Vem. Essas memórias da nossa cultura teatral são hoje efetivas recordações de um passado distante”. Também, na década quarenta quem aparecia por aqui motivando a juventude local com as suas encenações era o Teatro Amador do Colégio Anchieta de Nova Friburgo.
Depois da metade do século XX, a inauguração da nova sede do clube Tamoio Esporte, com o seu pequeno palco italiano contíguo ao salão de dança, começou a favorecer as possibilidades para que se formassem agrupamentos teatrais na cidade com produção contínua.


Capítulo 4
A Tradição Bonequeira.


Antes da primeira metade do século XX, qualquer quermesse ou prática circense que aparecia por essas bandas, trazia como atração, um mamulengueiro, acompanhado de uma sanfona, sua empanada e seus fantoches para alegrar a gurizada local. Um desses brincantes, o nordestino sanfoneiro de nome Miguel Escuma, "ele vinha prá Cabo Frio e botava o festival desses bonecos em todas as festas juninas, foi com ele que aprendi a manejar os bonecos" Conforme nos conta Antonio de Gastão em O Pescador de Cabo Frio, editado pela Funarte em 1986.
Sabe-se também que, lá pela década de trinta, se apresentava no Cine Teatro Recreio antes das projeções cinematográficas as performances de fantoches de Belisário Loiola e as bonecas de pano de D. Rosa Cobra que eram vendidas, mas também fazia evoluções com os bonecos de luva do Belisário que pode ser considerado o primeiro bonequeiro de Cabo Frio.
Também no âmbito popular ligado ao teatro de bonecos, Zé Barbosa e Antônio de Gastão estendiam as suas práticas mamulengueiras às festas populares da cidade indo de Búzios à Arraial do Cabo, apresentando as suas brincadeiras muita das vezes em lombo de burro
A partir daí foi que a arte bonequeira floresceu na cidade, muitos manipulavam os bonecos dos visitantes. Zé Barbosa e Antônio de Gastão passaram a ser os grandes bonequeiros de quase todas as festas da cidade: "era engraçado, porque quando a gente ia fazer um espetáculo fora, ia todo mundo atrás, tudo montado na carroça ou no caminhão", ressalta Zé Barbosa, em entrevista oral.
Os bonecos da dupla, feitos a principio em madeira e depois em isopor, tinham vida dramática e personalidades, dentro do mais puro estilo mamulengueiro. Eram eles: Chico Preto, Moleque Trinta e Um, Doutor Mamão, Padre, Palhaço Bicudo, Filomena, Soldado, Lamparina, João Redondo, Jararaca, Sabiá, Seu Belo e Sanhaço.
A partir da década de cinqüenta começou verdadeiramente a ser intensificada a prática teatral na cidade, tanto os mamulengueiros populares como a intensificação contínua das produções agora sem o objetivo apenas filantrópico, mas imbuído pelo desejo de montar os textos nacionais que começavam a ser valorizados pelos encenadores em todo o país.
Foi o que pudemos constatar também no teatro de bonecos em Cabo Frio. Já em 1978, movidos talvez pelas peripécias mamulengueiras de Zé Barbosa e de Antônio de Gastão. Chico Lima com o seu Grupo Raios de Sol e Clarêncio Rodrigues com o Sorriso Feliz Criações Artísticas, enveredam na arte da confecção e do manuseio do teatro de bonecos, começando com os bonecos de luva feitos em papiê machê. Ao participar de encontros e festivais da área, os bonequeiros da cidade desenvolveram várias técnicas com Clarêncio Rodrigues se especializando na técnica dos bonecos de fio (marionetes), Chico Lima nos bonecos de espuma de manipulação direta e mais tarde a atriz Tânia Arrabal que trafega por variadas técnicas, inclusive na feitura de máscaras. Aí já podíamos ver o artista teatral da cidade vendendo o seu produto e dele conseguindo algum sustento.
Os textos e roteiros de Clarêncio Rodrigues e seu Grupo Sorriso Feliz produziram Anastácio Boca de Sandália em 1979, Clink, O Menino do Planeta Brilhante em 1982, O Medo Acabou 1983, Zé Canudo Magricela em 1984, Titeritagem em 1986. Em 1990, fui convidado pelo grupo para dirigir a Minha Favela Querida espetáculo com cinqüenta bonecos que retrata o dia a dia de moradores de uma favela, que, estando ainda vivo até a época em que escrevo esse resgate, ganhou vários prêmios nacionais e se apresentou nas maiores cidades brasileiras; Ainda se destacaram dai para frente Quem Canta um Conto Encanta 1998, Pintou Rebú na Fazenda Sururú em 1999, Major Terra e Maria Mingau 2003 e Animagia em 2005 .
O bloco de bonecões Brincareta (banda de marcha rancho e cordão de reis de boi) e o Bonecarte, festival nacional de teatro de bonecos que acontece como forma de resistência desde a década de 90 são as referências de continuidade para essa importante tradição cultural da cidade.



Capítulo 5 
O Teatro Amador Cabofriense e a Produção Constante.


Na década de cinqüenta começa uma necessidade da profissionalização do ator no Rio de Janeiro, luta que só vai se concretizar na década de setenta. O termo “amador” começa a surgir para marcar a diferença entre aqueles que a exercitavam por puro diletantismo e aqueles que tinham o desejo de sobreviver da sua prática. Em Cabo Frio não foi diferente, o Teatro Amador Cabofriense (TAC), que foi conhecido inicialmente como Teatro Amador Tamoio, quase sempre dirigido por Antônio Soares marcou toda a década sessenta com inúmeras montagens. 
Antonio Soares, mineiro de Diamantina e recém chegado do município de Areal, onde lá, iniciou sua paixão pelo teatro sob a influência de Tina Gonçalves, atriz já de grande sucesso nos palcos de Belo Horizonte que, com idade mais avançada incentivou e capacitou vários jovens a enveredar pelas artes cênicas na pequena cidade do sul fluminense. 
Antonio Soares chega em Cabo Frio com a sua família para trabalhar na contabilidade da Companhia Álcalis, empresa de produção de barrilha que foi uma das causadoras de grande migração funcional para a cidade de Cabo Frio. Já totalmente integrado com a sociedade local, após se associar ao Clube Tamoio, onde exerceu o cargo de Diretor Artístico tratou logo de montar o seu grupo de teatro, juntando-se a Laudir da Silva Araujo, Lauro Afonso Faria, Jurandir Costa, Maria Franscisca, Anita Mureb, Margarida Araujo, Estélio Elbanny, entre outros e monta o seu primeiro espetáculo, a comédia de costumes A Mulher Que Veio de Londres de Paulo Magalhães.
A partir daí encampam a idéia de realizar festivais, que primeiro acontece com o seu próprio repertório, para depois se estender para companhias convidadas. Realizam praticamente, um festival por ano conseguindo estendê-los até a década de setenta. Estes festivais mantinham a presença de grupos do interior do Estado com presença constante na cidade onde se apresentavam nos palcos do Clube Tamoio, da Associação Atlética Cabofriense. Mais tarde, se desdobram para construir o palco da Sociedade Musical Santa Helena, com o empenho de um dos seus componentes Célio Guimarães, eleito presidente dessa importante entidade cultural. Surgindo assim outra alternativa de espaço teatral para cidade. 
Com todo esse destemor não param de produzir e seguiram-se várias montagens como: Morre Um Gato na China de Pedro Bloch, comédia que conta a história da complicada relação entre o submisso homem e sua esposa, uma escritora famosa. Sustentado e humilhado pela mulher, transfere seu amor para os gatos que cria. O teatrólogo Pedro Bloch que já tinha residência em Cabo Frio passou a ser o grande patrono e incentivador do grupo. 
Seguem-se no extenso repertório do grupo a comédia dramática Flores do Lôdo de Ferreira Netto; a comédia juvenil Maria Cachucha de Joracy Camargo; a comédia com pitadas eróticas Chica Boa de Paulo Magalhães; a comédia sobre um homem que virou homem A Viúva do Tibúrcio de Adail Viana; a farsa regionalista O Santo e a Porca de Ariano Suassuna; a comédia A Bruxa de Nestor de Holanda; as comédias românticas Procura-se uma Rosa e Amor a Oito Mãos de Pedro Bloch; Zero Hora de Kleiber Andrade, Juramento a Longo Prazo de Saint Claire Sena; a sátira política Moeda Corrente no País de Abílio Pereira de Almeida e o drama realista O Assalto de Jose Vicente já com a direção de Estélio El-Banny são as principais montagens do grupo, além de esquetes, saraus de declamações e apresentações esporádicas em eventos sociais.
Vários prêmios fora da cidade foram conquistados pelo Teatro Amador Cabofriense onde se destacam os prêmios de melhor atriz para Joilete dos Santos em O Santo e a Porca e para Maria Emilia Soares em Amor a Oito Mãos. O Teatro Amador Cabofriense também foi o percussor do teatro infantil 
e tratou de fazer belas montagens, começando com A Bruxinha Que Era Boa, A Volta do Camaleão Alface ambas de Maria Clara Machado e o O Circo do Carrapeta de José Valeri
Em 1972 o Teatro Amador Cabofriense encerra as suas atividades com o espetáculo infantil O Coelhinho Pitomba de Milton Luiz. O Grupo que uma disputa acirrada com o Grêmio Artístico Cultural Viriato Corrêa (Gatvic - Três Rios) em vários festivais do Estado, foi o primeiro conglomerado artístico a se preocupar com a feitura de um espaço próprio para que a arte de Dionísio pudesse florescer na cidade.
Já, na primeira metade da década de setenta, vê uma primeira possibilidade de lutar por um espaço cênico no mandato de prefeito de um dos seus componentes José Bonifácio Novelino. Por conta dessa aproximação, foi destinada uma praça localizada atrás do Posto Esso na Av. Teixeira e Souza, para construção do teatro com projeto do arquiteto e cenógrafo Marcos Flacksman. Não tendo sido possível construí-lo na época, o prefeito e o arquiteto, vinte anos mais tarde se reencontram para concluir a idéia e construírem o Teatro Municipal de Cabo Frio. 
Inúmeros jovens de variadas classes sociais da cidade passaram pelo Teatro Amador Cabofriense, onde podemos destacar Paulo Orlando, Neucir Santana, Nilton Praxedes, Maria Luiza Meirelles, Aurora Costa, Theresinha Brettas, Helenice El-Banny, Elza Santa Rosa, Wanda Roque, Candido Ferreira, Rosquelin Roque, Penha Leite, Olimpia Leite, Olivia Perelló, Jaime Perelló,Carlos Alberto Lopes de Souza, Claudio Weber, Franscisco Sobrosa, Dario Ladeira, Célio Mendes Guimarães, Neumar Fernandes, Otácilio Ferreira, Roseli Novelino,Valéria Sherman, Maria Anita Mureb,Maria Aparecida Nogueira,Lauro Afonso Faria,Josias Barbosa,Paulo Fernando Assunção Souza, Libelton Boechat Diniz, José Bonifácio Novelino, Angelo Samersson, Emilia Soares,Mauricio Mureb,Joillete dos Santos,Olimpia Conque,Mary Neide Conque, Edith Soares, José Augusto Nunes, Carlos Alberto, Ataliba Pereira, Ítalo dos Santos Sampaio, Damião de Almeida, Widson Brettas, Jurandir Costa, Theresinha Terra e João da Silva.
Os anos se passaram e o TAC foi encerrando parcialmente as suas atividades. Aliás, na época, existia um conceito que incentivava os jovens da sociedade a fazer teatro para desinibi-los. Conceito este, que se transformava em preconceito quando se tornavam adultos, deixando-o de praticá-lo. Como não poderia deixar de ser diferente, este mesmo fenômeno ocorreu em Cabo Frio. 
Somente com a sua extensão às camadas mais pobres da população e a ampliação do mercado de trabalho, com a abertura de teatros nos grandes centros, associado ao surgimento das telenovelas, foi que o desejo de interpretar saiu das camadas mais abastadas, despertando desejos aos jovens da dita classe média baixa. Não mais na forma diletante e, sim, com o desejo de profissionalizarem-se.
Cabo Frio também, nesta época ficou à margem do teatro engajado para combater a Ditadura que se instalara no país desde 1964. Essa vertente se deu mais nas capitais, onde incentivados pelos Centros Populares de Cultura da proscrita União Nacional dos Estudantes, criaram as suas cenas de contestação ao regime, e muita das vezes rompiam os espetáculos comportados com palavras de ordem e cenas de protesto. A resposta do Governo foi a instituição do Ato Institucional que, a partir 1969 obrigava a instalação da censura prévia, onde os autores teriam que enviar os seus textos para a Polícia Federal em Brasília, sofrerem os cortes literais devidos, para posterior aprovação no dia do ensaio geral do espetáculo. Sem contar a paranoia e o medo que assombrava os artistas criadores. Em muitas cidades interioranas esse autoritarismo desmobilizador contribuiu para que muitos artistas deixassem de praticá-lo.
Sem dúvidas que o Teatro Amador Cabofriense pode ser considerado a primeira companhia formal, organizada com razão social e tudo o mais, exercendo um potencial de produção que enriqueceu a vida cultural da cidade que tinha no clube que o abrigava a sua referência social.


Capitulo 6
O Creche na Coxia - inicio, conhecimento e profissionalismo.



A Carroça dos Sonhos - Grupo Creche na Coxia
Em 1979 surge a partir de alunos do Colégio Miguel Couto o Grupo Ziembinsky, que homenageia velho criador cênico polonês que colocou o mundo teatral do Brasil de cara para o teatro contemporâneo. Composto por Silvana Lima, Edinho Ferrô, Paulo Augusto,Tânia Arrabal e Nadinéia Oliveira, os componentes iniciais do Grupo eram alunos que incentivados pela professora Celita Rodrigues abraçaram o teatro com fervor, resolvendo entre eles mesmos as suas montagens iniciais. 

O espetáculo de estréia foi uma comédia de costumes que tratava das relações humanas: Vida Jogo, Jogo Vida primeira incursão dramatúrgica da jovem Silvana Lima. À medida que o seu interesse pela arte aumentava convidavam diretores do antigo Teatro Amador Cabofriense (TAC) para palpitar nas suas montagens que de pronto emprestavam o seu conhecimento àqueles jovens. Ataliba Pereira foi um desses atores que se prestava a incentivar aqueles jovens. Com a montagem do lírico Cabo Frio em Tom de Poesia que falava poeticamente das belezas da cidade também da Silvana Lima, dirigida pelo argentino Ângelo Samerson também do TAC, conseguiu representar a cidade em vários festivais promovidos pela Associação de Teatro Amador Carioca (ATACAR) ligado à Federação de Teatro Associativo do Estado Rio de Janeiro (FETAERJ) começando assim a ampliação dos seus conhecimentos na arte teatral. As inúmeras participações em festivais no Rio de Janeiro desperta no jovem grupo o desejo de continuar sondando os mistérios das artes cênicas.
Em Volta Redonda em 1983 o Grupo conheceu o diretor teatral maranhense José Facury Heluy, este, que ora resgata essa história. Eu estava naquele festival ministrando uma oficina de direção. Naquela época os debates dos espetáculos eram realizados logo após as apresentações o que suscitava radicalizações e posturas críticas muito severas diante do público, o que, no caso do Grupo, acabou se concentrando na direção do espetáculo. Aqueles argumentos ao invés de fazê-los desistir, foram cruciais para que o Grupo procura-se saberes mais apurados convidando diretores para repassar-lhes ainda mais os conhecimentos técnicos que necessitavam. 
Primeiramente de forma oficial e profissional pela Secretaria de Cultura do Estado fui contratado para ministrar uma oficina na cidade. Com minha união com a atriz Tânia Arrabal, planto raízes em Cabo Frio, onde imediatamente de forma voluntária comecei a instrumentalizar os componentes do grupo nas diversas funções que compreende as artes cênicas. 
O resultado deste curso se deu com uma dramatização improvisada na Praia do Forte, onde recebido por ciganas uma nau pirata aportou para roubar as areias das dunas e levá-las para fabricar vidros. Comandados pelo Capitão Pirex (interpretado por mim) as cenas se desbobraram em vários pontos da praia da enseada, tendo tido a participação especial dos artistas populares Chico Lima e Antonio de Gastão.
Nessa dinâmica de repassar conhecimentos aprofundei os saberes da Silvana Lima nos mistérios da dramaturgia; induzi e sensibilizei Ivan Tavares na pesquisa da composição musical do teatro; abri horizontes de instrumentalização à Tânia Arrabal e Nadinéia Oliveira na adereçagem cênica e figurinos, além de desenvolver as diversas técnicas que exercitavam a improvisação, a interpretação e a teoria da semiótica cênica. Naquela época era preciso estar meio fechado para aprender a difícil arte teatral, aprendizado que se completou nos inúmeros festivais que o grupo participou a partir daí, vencendo quase todos.
Na mesma época, despertando sensibilizações para o grupo se voltar aos problemas visíveis da cidade, incentivei Silvana Lima a escrever uma comédia que criticasse a cultura mercantil da alta temporada com o Aluga-se para Verão que na época fez enorme sucesso. No ano seguinte trouxe-lhes o engajamento político através da montagem do Bailei na Curva de Julio Comte que conta a trajetória de um grupo de crianças que ao crescerem se deparam com os revezes e as alienações impostas pela ditadura militar. 
A partir daí os casamentos entre os seus componentes foram se concretizando e à medida que os filhos nasciam, foram levados a mudar o nome do grupo para Creche na Coxia, pois bebês nasciam aos borbotões. Durante os ensaios e apresentações elas eram acalentadas e amamentadas na coxia dos espaços. No casamento meu com a atriz e agora também aderecista e bonequeira Tânia Arrabal nasceram Ravi, Téo e Tamer. Do casamento do ator e músico Ivan Tavares com a Silvana Lima nasceram Diogo e Matheus. Do casamento de Edinho Ferrô com Nadinéia nasceram Igor e Luíza e quase todos tendo as coxias como berço. Por conta desse nascedouro cênico, a maioria enveredou pela prática teatral.
Desde 1984, que o grupo recomeçou a lutar por um espaço teatral na cidade. O veículo além da massificação do desejo na mídia seria a montagem de um espetáculo para a rua e praças. Com o espetáculo O Auto do Trabalhador de João Siqueira estendeu-se a luta pela sua construção. A peça que contava a história do nascimento de menino Jesus, filho de uma família de retirantes procurando trabalho na cidade foi apresentada em bairros, ruas e praças até 1990, onde a reivindicação maior, após as suas apresentações era a construção do Teatro Municipal.
O espetáculo que reuniu todas as experiências apreendidas comigo e tantos outros instrutores foram A Barca do Divino que retratava o desmatamento ambiental e a descaracterização cultural e Baco (o Teatro) que se constituiu uma ousadia cênico musical através de uma opereta que falava da própria história universal do teatro. E, considerado outra grande montagem que mexeu com as vísceras de Cabo Frio ficando em cartaz durante um mês de casa lotada em 1995 foi o Querelas Liras e Jagunços de minha autoria com Silvana Lima que versava sobre o conflito histórico das duas bandas de músicas antagônicas que chegaram a se digladiar radicalmente no início do século vinte.
Daí para frente, continuando a abiscoitar prêmios nas diversas categorias nos diversos festivais que participavam; engajou-se radicalmente na luta para a construção do Teatro de Cabo Frio. Paralelamente também abriram o Grupo para a entrada de outros componentes ampliando os seus conhecimentos para jovens interessados na arte teatral. Os infantis da Silvana Lima, Sem Eira nem Beira e Sua Alteza Advinha seguindo a linha construtivista do teatro infantil moderno recebeu vários prêmios da categoria em festivais onde participou.
Silvana Lima cada vez mais se capacitando na linguagem do teatro infantil inicia a função dirigindo o espetáculo de sua autoria Histórias e Cirandas trazendo-nos as brincadeiras folclóricas das crianças de antão. Sem Eira nem Beira, retratando os conflitos entre o bem e mal, o opressor e o oprimido. Estende a sua prática par o espetáculo adulto O Vôo, concepção cênica sem palavras que apresenta o encontro lírico e silencioso entre um mendigo e uma velha contorcionista de circo a reviver as suas artes. 
Enveredando pela contação de histórias ela ainda nos brinda em seguida com: Causos de um Cabo, ao homenagear o artesão popular Antônio de Gastão nos levando a pesquisar e interpretar os causos contados pelo artista que emolduraram a antiga e bucólica Cabo Frio; Sua Alteza Advinha um jogo de achegas e muita movimentação cênica onde os panos e a musicalidade explodem fazendo-nos participes da ação; Sapos, Galos e Outros Bichos, também um jogo infanto juvenil onde formas animadas se integram aos atores para contar histórias humanizadas pelos animais. 
Outro nome de destaque no grupo foi o ator César Valentim bem jovem quando entrou no grupo conseguiu se aprofundar em todas as técnicas teatrais, com a atriz Tânia Arrabal escreveu e montaram o Circo Catatempo usando e abusando da técnica bonequeira aprendida com o mestre bonequeiro Clarêncio Rodrigues.
Assim como que segurando as rédeas da produção e da encenação montei em 1998 o drama psicológico e cruel de três adolescentes que brincam de matar os adultos que o cercam no O Jogo dos Assassinos de José Triana; O Último Brincante também de minha autoria, apresentou uma comédia folclórica que conta a saga de Cazumbá, onde quixotescamente larga o folguedo do bumba-meu-boi para combater as seitas evangélicas que causaram a conversão dos seus companheiros de brincadeira. Seguindo a profusão de experiências do teatro infanto-juvenil, o Grupo ainda monta sob a minha direção o texto adaptado por Silvana Lima para bonecos A Tempestade de Shakespeare. 
Para comemorar o meu aniversário de quarenta anos de teatro produzi sob direção de um dos aprendizes do grupo o jovem Eduardo Magalhães o espetáculo Gepeto Conta Pinóquio. Neste espetáculo conseguimos ordenar quatro gerações em cena. Em 2005 remontei o espetáculo Tempo de Espera de Aldo Leite, prêmiada com o Moliére 1977 do qual participei e que correu mundo na década de setenta. Na versão montada em Cabo Frio, um drama silencioso de uma família catadora do lixão que se decompõe em um quadro de miséria absoluta. Ainda em 2005, Silvana Lima recebe o segundo lugar no Concurso Nacional de Dramaturgia da Funarte com o texto A Flor do Cerrado montando-o em seguida com jovem elenco pertencente à terceira geração do grupo.
Outro grande destaque, já uma característica importante do Grupo, é a sua sempre pontual desenvoltura musical. E o grande responsável por essa criação, logicamente respeitando as letras dos textos em que cria as suas belas canções é o músico e ator Ivan Tavares, que cuida desde as métricas e frases musicais, dentro do conteúdo da dramaticidade, incluindo os arranjos instrumentais e vocais. Tarefa complicada, mas que o mesmo domina com o conhecimento de grandes mestres, haja vista o excesso de prêmios adquiridos pelo grupo nessa modalidade.
Nos quesitos cenografia, adereçagem e formas animadas também o grupo se completa no seu imenso acervo cênico com as peças cenográficas das quais pude elaborar; os bonecos e adereços de Tânia Arrabal e Nica Bonfim; os figurinos de Nadinéia Oliveira e Leo Cabral entre outros aprendizes que vão dominando o artesanato cênico na medida das montagens.
Em 2007 o Grupo manteve dois trabalhos infantis em cartaz e participando de vários festivais estaduais: A Carroça dos Sonhos que conta as alegrias e desilusões de uma companhia teatral mambembe no inicio do século e a Magia das Águas feito com bonecos que fala da irritação dos elementais marítimos diante da poluição das águas dos mares, rios e oceanos. Estes espetáculos, compostos pelos filhos e aprendizes na arte de interpretar, fizeram o grupo acumular uma quantidade significativa de prêmios de excelência por onde tem passado.
Mas a grande conquista do Grupo Creche na Coxia foi, na verdade ter conseguido a vitória de todos os artistas e habitantes da cidade, quando se deu a construção e a inauguração do Teatro Municipal de Cabo Frio. Agora eles tinham o espaço laboratorial para as suas experiências cênicas. Com o espaço conseguiram multiplicar ainda mais o seu saber para jovens e adultos interessados na arte teatral. Passou pelas montagens do grupo Inês Marques, Isabel Vasconcellos, Maria Alice Neto, Paulo Augusto, José Inácio, Rebeca Soares, Betão, Cristine Ilene, Linley Rodrigues, Cláudio Tinoco, Alcione Peixoto, Luís Eduardo, Marcelo Antunes, Patrícia Presgrave, Marina Breves, Camila Guerra, Thaís Binato . Destaca-se nessa trajetória os que perseveraram na prática teatral: César Valentim, Marta Sirimarco, Jane Lacerda, Guilherme Guaral, Nica Bonfim, Carlos Eduardo Alves, Pablo Alvarez, Paulo Mainhard, Marcos Rolemberg, Marcelo Tosta, Eduardo Magalhães, Fábio Enriquez, Rita Grego, Mariana Pimenta, Rafael Rodrigues, Sidney Santos, Leonardo Cabral, Carol Barros, Alex Antunes, Manuela de Lellis, Natacha Gaspar, Júlia Lima, Bruno Peixoto, José Pedro, Matheus Lima, Diogo Cavalcanti, Ravi Arrabal, Téo Arrabal Heluy, Tamer Arrabal, Anny Meirelles, Bebel Bonfim, Helena Marques, Adassa Martins, Rodrigo Sena, Débora Diniz dentre tantos.
Conceitualmente o Grupo Creche na Coxia nestes longos anos de atividade não se tornou detentor de uma linguagem teatral única e nem se voltou as mergulho em pesquisar formas interpretativas que o levasse a aprofundar a experimentação cênica. A extensão da pesquisa ficou por conta dos seus fazedores na área da dramaturgia, da interpretação, da música e da cenografia, fazendo que tais experimentos fossem inseridos na montagem, sem, contudo destacá-los acentuando a referência do experimento.
O Grupo Creche na Coxia nestes seus trinta anos de vida ativa mantém seu arquivo com fotografias, fitas de vídeos, criticas teatrais, troféus, recortes de jornais, desenhos de cenários e figurinos que referenciam a sua longa trajetória.


Capítulo 7
A Luta e a Conquista do Teatro.


Seguindo a luta iniciada pelo Teatro Amador Cabofriense o Grupo Creche na Coxia também enveredou em muitas lutas por vários anos, para que fosse construído o teatro da cidade. Uma dessas lutas se deu em parceria com o compositor Maurício Tapajós e uma associação musical, na qual ele era o presidente, durante o governo do Prefeito Ivo Saldanha que acabou também não dando em nada. Lembro que cheguei até a fazer um projeto de um pequeno teatro que se localizaria no final do Espaço Cultural na Praia do Forte.
Diante de tantas iniciativas frustradas permanecem os grupos Creche na Coxia, Raios de Sol do Chico Lima e o Sorriso Feliz do Clarêncio Rodrigues, realizando suas apresentações ora na Sociedade Musical Santa Helena, ora no palco do Centro Cultural Cacilda Santa Rosa, ora no palco do Clube Tamoios. E muitas vezes em espaço alternativos, incluindo como sempre, ruas e praças. 
Em 1995, no aniversário de 15 anos do grupo, fizemos uma cena no espetáculo Querelas Liras e Jagunços montado pelo grupo, que satirizava a situação da ausência de um espaço cênico por mais de cem anos. "Além da qualidade do trabalho do grupo, eu fui tocado pela cena da peça e fiquei na obrigação cultural de começar a obra", declara no jornal Folha dos Lagos o prefeito da época José Bonifácio Novelino.
Foi em uma tarde de abril de 1996, eu estava em casa sozinho, convalescendo de uma operação, quando vi alguém me chamando pelo condomínio adentro, era o Prefeito pedindo que eu descesse e fosse com ele e o arquiteto Marcos Flacksman escolher um lugar para a construção do teatro. Não acreditei, mesmo assim esqueci a cirurgia e os acompanhei por vários lugares promovendo a escolha do lugar ideal e buscando a forma do prédio. No mês seguinte, o prefeito reuniu alguns artistas de teatro, música e dança para apreciarem o projeto, que trazia um esboço em forma de teatro de arena com o palco avançando entre um octógono fechado de arquibancadas. 
Na oportunidade fomos contra a forma de arena, pois iria restringir a vinda de espetáculos de fora e iria sempre dificultar de sairmos do tal formato. Na oportunidade, entendia que se constroem espaços com forma alternativa quando na cidade se tem algum da forma clássica: o palco italiano. O prefeito foi convencido do argumento, porém a contra gosto o arquiteto adaptou o seu projeto, diminuindo a projeção do palco e abrindo a arquibancada em forma de ferradura.
Durante a obra, muitos problemas ocorreram, começando com a fundação para a colocação das sapatas do alicerce, as dificuldades com o charco ali encontrado e a abertura do fosso para colocação de macaquinhos para movimentar o palco, que acabou não se concretizando. Hoje temos um fosso, abaixo do palco, que pelo menos poderia ser um depósito significativo onde com a ausência total de ar, acaba mofando tudo que ali se coloca. 
Outro momento complicado foi a mudança da estrutura do teto que deveria ser de madeira, mas que acabou sendo de aço, montado por uma firma de São Paulo, por causa da extensão do vão e o apoio do mesmo nas colunas que compunham o octógono. 
A obra continuava e precisava ser inaugurada, porém o Prefeito José Bonifácio estava a um passo de perder a eleição para o Prefeito Alair Corrêa. Sugeri então, que o mesmo não fizesse nada às pressas, e que não seria a inauguração que iria reverter a situação para o seu candidato. Por outro lado, o arquiteto apresentava um projeto de varandas e manobras cênicas computadorizadas sofisticadas e de primeiro mundo, que além de inexeqüível para o quadro político que se apresentava, seria a meu ver de difícil manutenção. O prefeito movido pelo bom senso e pela conjuntura eleitoral pára a obra e em janeiro entrega a Prefeitura para o seu sucessor.
Nós da área teatro, apesar das pequenas esperanças da sua continuidade, e ao nos vermos sintomaticamente com um palco sem piso, não cruzamos os braços e partimos para a mobilização através do Conselho de Cultura, criado pelo Secretário de Cultura, o cineasta Milton Alencar Jr. Logicamente que ficamos espantadíssimos, quando o Prefeito Alair Corrêa, acatou o pedido unanime daquele fórum de terminar parcialmente a obra. 
Pelo meu lado, ajudei na entrega de alguns orçamentos viáveis, projetei a estrutura cênica e como presidente da Federação de Teatro Associativo do Estado do Rio de Janeiro (Fetaerj), desloquei o Prêmio Paschoalino 97 de Volta Redonda para Cabo Frio. No dia 14 de agosto o teatro foi inaugurado oficialmente com o espetáculo Paixão com a atriz Nathalia Timberg e no dia seguinte teve o inicio o Festival de Teatro do Estado (Prêmio Paschoalino-97) com apresentação de 23 (vinte e três) espetáculos de diversas cidades do Estado do Rio de Janeiro.
No seu nascedouro, e convidado para ser o seu coordenador artístico, com minha matricula de professor da rede pública: programamos uma política de ação teatral com o objetivo voltado à sensibilização, a exposição, formação básica e a integração de uma gama considerável de jovens da Região dos Lagos. A sensibilização e a exposição - podemos dizer - foram suscitadas pelos cinco festivais estudantis que realizamos desde a inauguração do Teatro Municipal; a formação acabou sendo adquirida pelos oito Cursos Básicos de Interpretação; a integração pela inserção dos iniciantes em grupos considerados permanentes ou na criação de novos grupos. 
Já nos meados da primeira dezena do terceiro milênio, Cabo Frio adquire o reconhecimento notório institucional no âmbito estadual e federal, de ter o melhor movimento de teatro do interior do Estado do Rio de Janeiro, haja vista as premiações, indicações, apresentações e temporadas no circuito profissional das grandes capitais. 
Pela quantificação e pela qualificação das ações, a existência do espaço e as reclamações da comunidade cabofriense que ele é pequeno para a cidade 250 (duzentos e cinqüenta) lugares, termina por silenciar, definitivamente, todos aqueles que vaticinavam contra a feitura da obra.


Capítulo 8
Os novos criadores e as linguagens diferenciadas.


Com a inauguração do Teatro Municipal de Cabo Frio Iná Mureb e a sua política de ocupação inicial voltada à germinação de grupos e a capacitação de jovens na arte de interpretar. A política realizada foi de criar três vertentes: o Festival Estudantil de Teatro, o Curso de Interpretação Básico e o Centro de Estudos Teatrais com todas as tês ações fazendo elo com os grupos que fossem surgindo. Essa dinâmica funcionou de 1998 a 2004 e a cidade se desenvolveu de três para treze grupos com cada um desenvolvendo uma característica própria nas suas encenações. 
No raiar do século vinte e um a cena cabo-friense expressava as adaptações de Frederico Araújo e José Antonio Mendes com os “Ode a Cabo Frio” e “Divinas Palavras” tratamento lírico teatral ressaltando e extraindo o que há de melhor da métrica poética para o aproveitamento cênico. Uma linguagem difícil de ser feita, mas que se torna grandioso quando a eloqüência do colóquio interpretativo realçando o poema, sem o tom monocórdio da declamação.
Um trabalho de qualidade ímpar ligado ao teatro e afeto a várias experiências com inclusão ou não de atores celebres da televisão é a Paixão de Cristo, dirigida pelo produtor cultural Valtencir Silveira, encenada em cinco a seis palcos no circuito central de Cabo Frio, com elenco formado também por membros da igreja católica e componentes dos grupos teatrais da cidade, em suas montagens anuais consegue juntar mais de vinte mil pessoas na Semana Santa para se emocionarem com o drama cristão. Desde 2004 que o personagem de Jesus Cristo é interpretado pelo ator e diretor teatral Frederico Araujo.
Em um parágrafo à parte, tive que observar o vento revolucionário da tragédia em todos os sentidos que passou por essas bandas: a do finado José Eduardo dos Santos. Dos tantos sopros dados por ele aos nossos poros sensitivos, o mais instigante foi o genialmente taciturno e engajado “Rosa & Becket”, uma obra representativa da vanguarda cênica, bem acima do controverso diretor carioca Gerald Thomas. E do contundente e pós dramático Palimpsesto extraído da obra Um Ensaio Para a Cegueira do escritor português José Saramago que teve vida curta mais de impactante experiência. Já estávamos nos preparando para sugar a versão que o mesmo faria com “Woiseck” de Buchner quando uma misteriosa mão assassina com características de crime passional ceifou-nos de nós. Uma perda até agora também tragicamente sentida.
Discípulo de toda essa geração, mas apontando para caminhos próprios tivemos o jovem Eduardo Magalhães cria e aprendiz destes novos tempos que, tanto na escrita como na encenação enveredou-se pelo drama romântico filosófico nos mostrando a cada montagem sempre trabalhos de notável envergadura dramática. Um Ibsen sintético. Os prêmios que recebeu, tanto trabalhando com crianças (Flor do Igarapé) como com profissionais (Farol da Madrugada), além de ter sido o diretor do espetáculo Gepeto, Conta Pinóquio que comemorei em 2004 os meus quarenta anos de atividades teatrais, confirmam esse valor. Infelizmente, perdemos esse outro Eduardo para uma infecção generalizada quando já despontava para ser uma das referências do nosso teatro
Ainda podemos apontar Marcelo Tosta, visceral, corpóreo com o seu boêmio “Nudez”, nos revelando uma escrita cênica que permeia o naturalismo denso, psicológico e inquietante na melhor safra apregoada pelo teatro sensitivo de Frank Weddekind. Completando o quadro da diferenciação de linguagens que enriquecem o cenário dramático da cidade ainda poderemos apontar o César Valentim e a sua Trupe Falcatrua com a comédia de absurdos do próprio em Traços Típicos e na brejeira Prosopopéias... Também de sua autoria. 
Também ocupando a praça podemos ver a Truppe Andarilhos do ator Fábio Freitas com os espetáculos de rua Os Diletantes de Martins Penna e Não Fui Eu do próprio. Destacam-se ainda a adaptação narrativa dramática de Guilherme Guaral em “Eu Lírico”, os melodramas épicos de Ítalo Luiz e o terror “trash” de Anderson Mackleyves. Quem nos chega despontando na primeira dezena desse milênio é o mímico Jiddu Saldanha que, junto com Bruno Peixoto e seu Grupo Bicho de Porco nos leva a mergulhos viscerais em Shakespeare. 
No campo coletivo transparece a Associação Cultural Tributo à Arte e à Liberdade com as suas representações cênicas, suas leituras dramáticas e o seu ponto de cultura Tribal Sobre Rodas da Animação (Secretaria de Cultura do Estado e Ministério da Cultura) que circulará os bairros populares da Região dos Lagos com a animação bonequeira de Clarêncio Rodrigues e Tânia Arrabal.
Outra mobilização cênica que desde 2003 se notabiliza com um dos eventos mais importantes da cidade é o Festival de Esquetes de Cabo Frio (FESQ), produzido pelos jovens atores e produtores culturais Pablo Alvarez e Yuri Vasconcellos, que já se incorporou ao cenário teatral do Estado do Rio de Janeiro, inclusive recebendo o Prêmio Myriam Muniz de produção patrocinado pela Funarte.
É difícil ir se montando uma trajetória com documentação precisa somente a partir dos relatos escritos do TAC pelo seu diretor Antonio Soares, e a partir da oralidade ir germinando uma história tão rica de valores ao ponto das diversas linguagens se diversificarem, criando um painel de riqueza ímpar no campo cênico. 
Lógico que, se não tivéssemos tido esse corte sistêmico em 2005 das políticas teatrais implantadas na cidade anteriormente, junto a isso uma ação voltada ao fomento dessa atividade para motivar uma maior capacitação e a elaboração de editais para a produção poderíamos ter alcançado um grau melhor de excelência. Seria o mínimo a ser feito para não ficarmos hoje, apenas apreciando o êxodo de tantos talentos que se vão para galgar outros caminhos funcionais ou mesmo rumarem para outros centros que dêem eco às suas aspirações.
Quanto a mim, muito mais afeto a mexer com todas as linguagens teatrais possíveis deixo que algum outro pesquisador ou memorialista mais capacitado analise a minha participação e trajetória estética nesse universo teatral cabofriense. Com este, lego às gerações que virão a continuidade desse exercício histórico. E que esse saboroso resgate feito por mim com auxílio dos memorialistas Hilton Massa, Mere Damasceno e as informações e documentações prestadas pela empresária Ana Emília Guimarães, ex atriz e filha do ex diretor Antonio Soares, que, na época se dedicou a escrever a trajetória do TAC para que ela servisse de um dos elementos básicos para essa matéria.



(José Facury Heluy - Publicado no Anuário de Cabo Frio-2010/Semuc).