quinta-feira, 14 de julho de 2016

Um Sonho de Liberdade: TCC libertando as asas para voar.

Desde que foi criado, em 2015, o espetáculo "Palhaçada à Brasileira", vem revelando uma arte que se descortina no coração de cada artista do TCC. Descobertas e aventuras. A vida que começa e que vai, aos poucos, moldando um sentido e uma busca mais profunda com a arte de um coletivo organizado e focado. Um espetáculo que nasceu da delicadeza e paixão, para se tornar um grande amor e abrir portas para "Um sonho de liberdade"! Agora, indo para o Rio de Janeiro, no Teatro Municipal Carlos Werneck de Carvalho, o grupo vai mostrar aquilo que tem de melhor. Delicadeza, respeito à arte e afinação em cena!

Sarah Fortes, atriz irreverente e cheia de descobertas no TCC.
Guimarães Rosa, em uma de suas frases monumentais, fala que todo ser humano precisa encontrar algo como "um descanso no meio da loucura". Assim tem sido a rotina do TCC - Teatro Cabofriense de Comédia. Um grupo que junta sucesso e cicatrizes e que faz de cada momento, motivo a mais para dar, sempre, a volta por cima. Ninguém disse que seria fácil e, quando as coisas parecem realmente querer nos lançar no escuro, cada participante do grupo se enche de uma força guerreira e, apenas com atitudes, vão dizendo sutilmente "sim, não é fácil, mas é isso que estamos fazendo e vamos dar o nosso melhor."! 
Composto por 11 integrantes, hoje; o grupo começou, na verdade, com 16 participantes. Tanta coisa mudou em 2 anos, que, às vezes e de forma inconsciente, talvez, as lágrimas apareçam nos olhos de cada um, de forma suave e é de saudade daqueles que partiram para sonhar outros sonhos. Nós estamos por aqui, sonhado nosso sonho e sempre grato a todos os que contribuíram para a construção dessa história. Talvez, por isso, a viagem ao Rio de Janeiro, para a próxima apresentação, está mobilizando amigos que vieram de longe, amigos do Rio de Janeiro e familiares, num exercício que mistura expectativa, emoção e orgulho, afinal, fazemos aquilo que amamos e isso, não é pouco. 
Nos últimos 2 anos, o TCC realizou uma campanha de aproximação com os grandes espaços culturais de Cabo Frio, voltados para teatro: O Garagem, o Usina 4 e o LD, além de dedicar-se, com amor ao OFICENA, no Teatro Municipal de Cabo Frio e abraçar, principalmente e com vigor, as praças, ruas e espaços alternativos da cidade. No bojo da prospecção de mercados para trabalhar, o grupo encontrou, também, a lona "Meu Vizinho Trazpezista", onde está podendo exercer a potência de sua pesquisa voltada para a arte da palhaçaria. No afã de sempre ajudar, participar e construir, o grupo abraçou, também, o  cinema local, participando do principal festival de Cinema da Cidade. Como sua vocação são as artes cênicas, o grupo participou como convidado do FESQ - Festival de Esquetes, e tambémm do Fest Solos onde, exerce parceria constante com os realizadores do evento.
Descobrindo a forma de levar seu trabalho a públicos diversos, o TCC não abre
mão do "Espetáculo da Gratidão", que já faz parte de sua agenda.
No coletivo Cidade de Palhaços, o TCC vem sendo peça chave para ajudar na formação de uma ecologia voltada para a palhaçaria teatral, na cidade. A diretora musical do Grupo, Kéren-Hapuk soma em parceria com a Design Manuela Ellon e os diretores do projeto, para que, de forma sutil, a palhaçaria se espalhe entre todos, através de oficinas de iniciação a esta arte tão singular e que abre perspectivas para novas descobertas e um fôlego a mais para a juventude da Região. 2016 está sendo um ano ímpar para o grupo, que tem que se reinventar a cada instante, criando eventos como o TCCEXTA, um sarau para revelar talentos e promover o encontro entre gerações da arte de Cabo Frio.
No exercício constante da arte, o grupo, não deixa de exercitar aquilo que mais dá sentido à vida. A gratidão. Com tantas batalhas cotidiana para se manter de pé, o grupo encontra tempo para fazer seus "espetáculos da gratidão", levando sua arte para projetos sociais, ocupações e creches em estado de necessidade para construir pontes que possam conectar a essência humana, que, afinal, é o sentido mais pleno da arte. Dia 16 e 17 de julho, no Rio de Janeiro, o TCC levará, ao teatro municipal Carlos Werneck, muito mais do que o currículo de conquista de um dos mais significativos espaços para o Teatro Carioca, lá, vamos dividir com a platéia, sonhos e reflexões sobre nosso fazer teatral.

SERVIÇO:
Espetáculo: Palhaçada à Brasileira
Data: 16 e 17 de Julho
Local: Teatro Carlos Werneck
Hora: 11h.
Endereço: Praia do Flamengo, altura do número 300.

Jiddu Saldanha - Blogueiro.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Canto para Teatro, três nomes de Cabo Frio.

Ivan Alves - Muita entrega muita pesquisa, credibilidade
e essência são a marca de seu trabalho musical.
Parece que foi ontem que fizemos o incrível "Auto do Trabalhador", de João Siqueira, uma montagem da TRIBAL, em 2011. Este mesmo espetáculo fora realizada 20 anos antes, pelos integrantes do grupo Creche na Coxia, uma história de peso e carregada de emoção, já que o diretor musical foi Ivan Tavares. Trabalhar com Ivan foi uma experiência incrível, focado, principalmente na disciplina e mergulhado num aprendizado que é fundamental para o ator. Cantar.
Voltando um pouco mais no tempo, o grupo "Bicho de Porco", do Bruno Peixoto, e que eu era, na época diretor artístico, teve a honra de ter o poema "Os Lusíadas" de Camões, trabalhado em vozes, no estilo rap, também, por Ivan Tavares. Essa aproximação com uma forma diferenciada de cantar, mantém, em Cabo Frio, um arsenal de possibilidades. O próprio grupo Creche na Coxia em seu imenso repertório, sempre usou a música, o canto, como forma cênica, razão pela qual, o grupo desenvolveu excelência nesse quesito.
Em 2014, o espetáculo Ilíada, configurou como um marco do novo teatro Cabo Friense, além de reunir uma nova geração de artistas, colocou o canto cênico como foco. As temporadas do espetáculo Ilíadas, encheram Cabo Frio de um frescor que, a muito tempo, o teatro local não vivia. Foram temporadas cheias de energia e graça, com plateias lotadas e viagens para apresentar em outra cidade. O trabalho que encantou as novas gerações e que também tinha um elenco formado por novos e antigos integrantes do Creche na Coxia, chamou a atenção, um jovem, tímido, que ainda estava começando sua carreira mas que já era um talento reconhecido por todos, Ivan Alves.
Creche na Coxia, o grupo mais antigo de Cabo Frio, hoje conta com um timaço
de artistas e uma musicalidade que reúne, Ivan Tavares, Ivan Alves e
Dio Cavalcanti, no mesmo time. Foto: Dona Mariana Fotografia
Ivan Alves, músico desde criança, por vocação mas que, abraçou o oficio a partir de 2011, aproximadamente, na verdade já era compositor e tinha um repertório musical de sua própria lavra, chamava a atenção a criatividade de suas canções, a inventividade e a referência variada de seus temas. Sempre criativo, Ivan passou a confeccionar bonecos com uma habilidade incrível, criou seus próprios personagens e, numa oficina de Contação de Histórias, ministrada por mim, em 2012, no espaço LD, começou a flertar com o teatro. Entrou para o núcleo Silvana Lima, do Creche na Coxia, e passou a se dedicar a cenas curtas. Passou a fazer parte do repertório do grupo. Em 2014, com a estréia de Ilíada, Ivan Alves faz parceria com Dio Cavalcanti e Ivan Tavares. Começa então, uma forte relação com o canto para teatro.  Generosamente, Ivan Alves ofereceu, em 2015, algumas aulas avulsas, de canto, para o OFICENA, conquistando o interesse de todos, pelo seu belo trabalho.
Sexta-Feira, dia 08 de Julho de 2016, haverá, no espaço LD, a primeira aula da OFICINA DE CANTO PARA TEATRO, de Ivan Alves. Nem precisa dizer do sucesso que aguarda esta vivência, mas também, da oportunidade que consiste, um trabalho assim, para o ator local. Cantar é uma arte delicada e que exige o domínio da paciência, e também da explosão da cena. Um espetáculo que se apropria de recursos musicais para além da sonoplastia, acaba entrando no imaginário poético e o público nunca esquece. É por isso que a OFICINA de IVAN ALVES é altamente recomendada para atores que queiram descobrir ou até mesmo ampliar sua capacidade musical em cena. Uma oficina de CANTO PARA TEATRO está chegando em Boa Hora.

O Canto Cênico do TCC - Teatro Cabofriense de Comédia.

Sofisticada e extravagante, Kéren-Hapuk é diretora musical do TCC
além de ter retomado seu trabalho musical com seu mestre, o maestro
Budega. Foto: Manuela Ellon
Quando o OFICENA - Curso Livre de Teatro de Cabo Frio, surgiu, em 2013, uma das atividades propostas foi a criação do NUDRA, Núcleo Livre de Dramaturgia. E a ideia principal era a criação de textos teatrais sob o ponto de vista de quem estava chegando ao mundo do teatro. Gente nova, sangue novo, aprendendo a carpintaria de construção de textos para incrementar o universo artístico-estudantil dos novos alunos atores, que vinham para o curso aos borbotões. No meio do fogo cruzado de tanta informação, uma aluna, tímida, mas muito focada na linguagem musical, me perguntou se eu sabia como se escrevia uma peça de teatro musical. Levei um choque com a pergunta, pois, a única informação que eu tinha é que, fazer musicais não era para principiantes. Entretanto, uma estudante aparece com essa pergunta e me põe contra a parede. Curioso que sou, comecei a pesquisar tudo o que foi possível sobre teatro musical e fiz diversas publicações no grupo, para estimular os alunos a mergulhar nessa forma artística. Um dia, o professor Ítalo me chamou num canto e disse: "estimule os alunos de dramaturgia a escrever pelo menos um musical". E foi assim que surgiu "O Estrelato de Gold", um musical com apenas 6 minutos de duração, escritos por aproximadamente 7 estudantes mas que tivera as músicas compostas por Nathally Amariá e Kéren-Hapuk; esta última, a jovem estudante tímida que indagou sobre o Teatro Musical.
Com a estréia do "Estrelato de Gold", no primeiro "Cenas do OFICENA", EM 2013, nasceu o desejo de explorar a musicalidade de forma mais profunda. Foi quando o professor Ítalo Luiz Moreira, mais uma vez, fez uma provocação radical. Declarou à equipe do OFICENA que e espetáculo "O Inspetor Geral", de Nikolai Gógol, um clássico da dramaturgia mundial, deveria ser montado em forma de opereta musical. Disse isso sem qualquer parcimônia e entregou o texto nas mãos das irmãs Andrav; Nathally e Kéren-Hapuk, o resultado foi uma quase-opereta, quase musical e que deu uma noção mais densa sobre a importância da musicalidade no teatro. Diversos estudantes atores, agradeceram a oportunidade de poder mergulhar num universo mais complexo do fazer teatral, cantar em cena. Tarefa que requer muito treinamento e cuidado redobrado para encaixar a encenação ao conceito de voz cantada. Por outro lado, o OFICENA revelou, talvez, aquela que viria a ser, também, uma força do teatro musical na cidade, a jovem Kéren-Hapuk.

Com direção musical de Kéren-Hapuk, o espetáculo Balaco de Baco, ganhou
inserções musicais que deram grande energia ao elenco, sob a direção musical
de Kéren-Hapuk. Foto: Manuela Ellon
Em 2014, Kéren lançou sua cena curta "Os Vampiros Estão com Fome", onde explorou, seu trabalho musical a partir de suas próprias idéias originais, dando alguns destaques vocais na construção da cena, onde ela atuou como diretora artística e musical. A peça, que era para ser encenada apenas no OFICENA acabou ganhando uma agenda maior, sendo, inclusive, apresentada no FESQ 13, em 2015 a convite do "TCC-Teatro Cabofriense de Comédia". Ainda em 2015, sua direção musical do espetáculo "Balaco de Baco", teve grande impacto, mostrando uma jovem segura em suas propostas para o grupo, do qual é, também, fundadora. O espetáculo "Balaco de Baco", conferiu ao elenco um grande avanço musical e, aproveitando esta oportunidade, o grupo passou a ensaiar números e cenas musicais, dirigidos por ela e que teve, inclusive, o incentivo do músico Azul Casu, muito gentil, e que, inclusive, ofereceu participação do TCC em seu show musical realizado no Teatro Municipal de Cabo Frio.
Foi no mesmo ano, 2015, que surgiu um convite para o espetáculo "Por Detrás do Silêncio", de Jiddu Saldanha, para fazer uma participação como convidado do Festival Estudantil de Teatro de Cabo Frio, o FESTUD XI, teve a participação de Kéren-Hapuk, estreando sua palhaça, "Hermetinha", inspirada em Hermeto Pascoal, o grande nome da música brasileira. Foi nos bastidores da apresentação da "Estúpida Trupe", formada inicialmente por Gustavo Vieira, Kéren-Hapuk, Daniel Harm, Jiddu Saldanha e Nathally Amariá, que a jovem musicista confessou que estava mesmo muito inclinada a dedicar-se a um tipo de teatro onde a música service como gancho. Em meados de 2016, Kéren-Hapuk deu ênfase ao trabalho musical, ampliando e melhorando os cortejos de abertura das peças "Piquenique no Front", "A Notícia" e, já como diretora cênico-musical, do espetáculo "Palhaçada à Brasileira", uma encenação com pesquisa na música lúdica-palhascesca, um gênero despojado, que colocou nas mãos de todo o elenco, instrumentos musicais, os mais variados, para que pudéssemos viver de forma deliciosamente ingênua, a relação espontânea com a música.
Tcc- Teatro Cabofriense de Comédia, o uso de instrumentos e
musicalidade espontânea e bem ensaiada. Foto: Manuela Ellon
Enquanto o grupo desenvolvia sua musicalidade e ia apostando mais no canto cênico, também, como proposta para um teatro voltado para o musical. Kéren-Hapuk retoma a parceria com seu mestre, o maestro Budega, e passa a cantar no evento Quintas Musicais no MART, com inserções que mostram não apenas seu canto voltado para o teatro mas, também, como  pesquisadora e cantora, buscando, cada vez mais, um mergulho na essência musical brasileira, foco de dedicação e entrega do Maestro Budega. Atualmente, Kéren-Hapuk, dá aula como voluntária em diversos lugares, como OFICENA e IFFCENA, e é professora contratada do projeto "Cidade de Palhaços", onde desenvolve seu trabalho de "musicalização para palhaços", um despertamento para quem quer perder o medo e a resistência com instrumentos e musicalidade espontânea. Como profissional, é também diretora musical do "TCC - Teatro Cabofriense de Comédia", onde, atualmente, desenvolve o projeto "Papel Celofane", uma proposta de pesquisa musical cênica, com desdobramentos ainda estudados pelo grupo, e que, sem dúvida, amplia possibilidades significativas para o Teatro Musical.
Na primeira festa junina do TCC, Kéren-Hapuk, fez a direção do primeiro Flash Mob do grupo, com a canção "Disparada" de Geraldo Vandré, um exercício que teve a aprovação maciça do público presente. A pegada cênica com "ataques" musicais inesperados, emocionou a platéia, tornando confortável o desconforto e a dificuldade natural que o ator encontra neste tipo de linguagem, mas que, ao mesmo tempo, é depositário de prazer e crescimento artístico.
Diretora de cena, diretora musical, além de cantora com repertório próprio e voz única, Kéren-Hapuk tem uma legião de fãs pela cidade. Seu nome corre como pessoa dedicada ao que faz, além de buscar, constantemente, o aprimoramento de sua arte.

Jiddu Saldanha - Blogueiro

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Eduardo Magalhães, antena de uma geração - MEMÓRIA É VIDA

Quando cheguei em Cabo Frio, 2004, ele era o jovem que agitava a cidade, junto com sua geração de artistas. Eduardo Magalhães, o EDUARDINHO, não só era visto com muito carinho e simbolizava um misto de entrega e responsabilidade com o teatro, como também, construía cenas cada vez melhores e se tornava um olhar para o teatro, que todo mundo respeitava. Lembro que o primeiro espetáculo que vi no Teatro Municipal, foi dirigido por ele e chamava-se "Gepetto Conta Pinóquio".

(Jiddu)

Eduardo Magalhães (Eduardinho) referência e excelência artística,
a saudade que fica é também estímulo para que o teatro de
Cabo Frio, siga surpreendendo o Brasil.
O FESQ (Festival de Esquetes de Cabo Frio) era um evento praticamente novo na cidade e Eduardinho, na ópoca,  dirigiu a cena "Flores, para quem o amor Passou". Um trabalho com um ritmo alucinante e uma forte integração de elenco, em cena, "flores" levantou o teatro com uma força impactante. Um figurino e maquiagem impecável, os atores pareciam ter saltado de alguma fábula. Neste ano, eu participava, junto com Rodrigo Portela e Fabio Fortes, do Juri, que tinha que distribuir a premiação do Festival.
Dois ou três anos depois, no mesmo festival, Eduardinho surpreendeu com outra esquete ainda mais impactante. "Enquanto as Crianças Dormem". Escrevi sobre este trabalho naquele mesmo ano. Uma coisa que me chamou a atenção, foi a cena se desenrolar num ambiente que em tudo lembrava um filme de Werner Fassbinder, o cineasta que sempre fui reverente, pela estética e profundidade de ambiente e construção dramatúrgica. A peça era praticamente um filme em cena, talvez muito avançado para a época, pois lembro que o elenco ficou estarrecido de ver que seu trabalho não premiou naquele ano, talvez um exemplo de como é complicado lidar com arte em eventos competitivos . 

"Flores, para quem o Amor Passou", cena teatral que marcou época no teatro
de Cabo Frio. Foto do acervo de Luciano Paiva.
Para mim, uma estética daquele nível, só poderia ser dominada por alguém que tivesse muita experiência, no entanto, Eduardinho tinha algo em torno de 18 ou 20 anos, no máximo, quando este espetáculo foi criado. Confesso que foi uma das cenas que mais apreciei no teatro de Cabo Frio, até hoje. Infelizmente, trabalho daquele nível, precisaria ter uma temporada, para que pudesse penetrar o inconsciente coletivo da cidade, algo que, na época, não aconteceu. Mas o lado positivo é que, dos jovens que faziam teatro naquela época, com Eduardinho, praticamente todos continuaram seguindo carreira de ator e, hoje em dia, vejo esse pessoal espalhado pelo Brasil, seguindo seu caminho e sua arte. Dos que ficaram em Cabo Frio, continuam firmes oferecendo sua arte para a cidade.
Também tive a oportunidade de conversar muito com Eduardinho Magalhães, ele sempre me procurava para falar de sua paixão pelo teatro físico, gostava muito de mímica e sonhava fazer espetáculos que bebesse mais na fonte deste gênero teatral, mas eu sempre dizia para ele que já via muito desses elementos em sua linguagem estética, tanto que hoje em dia, percebo que alguns artistas de sua geração e que conviveram com ele, levaram adiante a pesquisa do teatro físico que, hoje, é praticamente uma prática rotineira para muitos desses jovens contemporâneos e cúmplices daquele jovem tão talentoso.
Lutando contra os ventos de desesperança e enfrentando os moinhos de ventos da vida, Eduardinho teve seu destino tragado por uma morte precoce, ninguém se conforma com isso, porém, sua arte permanecerá viva e será sempre honrada por aqueles que estiveram mais perto dele. A coisa é tão séria, que, uma vez, o hoje ator Gustavo Vieira, comentou comigo uma vez, dizendo que "Adoraria ter conhecido Eduardinho", para mim, Gustavo Vieira é quem mais se semelha àquele jovem, em alguns aspectos, embora o tempo e a demanda seja outra.

"Enquanto as Crianças Dormem" - uma obra prima, encenada no
Teatro Municipal de Cabo Frio. Foto do acervo de Leo Cabral

MEMÓRIA É VIDA. NÃO HÁ VIDA SEM PASSADO.

Para que a gente nunca esqueça e, também, para que os jovens que hoje fazem teatro, na faixa de 20 anos de idade, saibam, Eduardo é quase uma entidade. Alguém que, tendo nascido, de algum modo, desfavorecido pelo universo que nem sempre o incentivou a seguir enfrente com o teatro, se tornou uma força vital do teatro Cabofriense, pela sua criatividade, energia, força e coragem. A ele, presto essa homenagem simples, para que a geração OFICENA, veja o quanto já se fez e até onde é possível ir, quando vencemos a mediocridade, substituindo-a por coragem, capacitação artística e determinação realizadora.
Convidei algumas pessoas para falar de Eduardinho segue abaixo alguns comentários de pessoas que conviveram diretamente com ele.

EDUARDO MAGALHÃES VISTO POR SEUS COLEGAS DE GERAÇÃO

RODRIGO SENA
Dramaturgo e Diretor.

"Conheci pouco da pessoa. Tive contato com a genialidade de um rapaz novo, mas com uma alma mais antiga do que se imagina. Ou se viu.
Um talento que tinha muitos a nos ensinar nessa seara teatral. Perdemos... ficamos aqui...
No pouco contato que tive com ele já nos conhecíamos e já nos abraçávamos como amigos de longa data. Sem nunca ter tido alguma conversa mais profunda.
Quando penso no "Eduardinho", eu sinto que perdi um grande amigo, sem mesmo termos sido esses grandes amigos!"

ADASSA MARTINS
Atriz
"Coisa mais iluminada. Um cara gênio, generoso, de muita força e empenho. Uma das pessoas mais inspiradas e inspiradoras que conheci."

BRUNO SILVA
Ator e diretor teatral
"Eduardinho para mim era antes de tudo uma figura engraçada, divertida e sempre disposta a ajudar. Nos conhecemos nas quadras jogando handebol e, quem diria, que nos encontraríamos na vida tetral?! No palco virava gênio. Conseguia criar de uma forma absurda. Tinha uma linguagem que tocava na alma. Sinto falta do amigo e desse artista maravilhoso."

JOSÉ FACURI
Cenógrafo, gestor cultural.
"Não precisaria dizer mais nada.. O único e oportuno reconhecimento que eu fiz ao completar meus 40 anos de teatro, foi escolher artistas das artes cênicas de várias gerações de Cabo Frio com mais talento para a montagem comigo. Dentre eles, eu escolhi como diretor do espetáculo Eduardo Magalhães, ou seja um talento máximo com idade mínima (20 anos) para dividir comigo a montagem do espetáculo Gepeto Conta Pinóquio."

LEO CABRAL
Ator, professor.
"Eduardo foi e sempre será para mim, além de irmão e melhor amigo, uma referência de profissional e ser humano. Um homem, travestido de menino, meio moleque, meio juiz. Guardava dentro de si a inquietação consigo mesmo e o mundo que o cercava.
Poeta marginal que sabia o que queria dizer e fazer, através da arte, de forma tão grandiosa, purgando seus demônios. Nem sei como cabia tanta gente com tanta bagagem dentro daquele corpo fisico com seus1,59 de altura! Um monstro, um bicho, uma mulher, um deus, um louco, um santo, um doce, ..."

PABLO ALVAREZ
Produtor
"Grande menino pequenino ... Grande no fazer teatro, grande no ensinar teatro, grande no escrever teatro, grande no amor e grande na amizade. É... Pequeno só na altura mesmo!"

NATACHA GASPAR
Atriz
Único Peculiar Atemporal Amigo, amado Extraordinário, inigualável, simplesmente Eduardo Magalhães!

IVAN TAVARES
Diretor Musical
"Eduardo Magalhães, meio doce e meigo amigo, irmão, filho. Quanta saudade de nossas risadas em nossas viagens teatrais. Rir talvez tenha sido seu maior legado entre nós. Nosso pacto de pararmos de fumar, logo que saísse do hospital. Não deu. Sinto muito a sua falta. Te amo".

FABIO CARVALHO DE FREITAS
Ator, diretor e produtor.

"E"nquanto lembro de ti "D"e toda gargalhada que ficou "U"ma gratidão se apossa de mim "A"h quanta coisa ficou "R"elembrar é mais que honra, um prazer "D"epois que plantantastes em nós "I"nesquecíveis flores para um amor que nunca passou "N"em nunca passará "H"aja o que hover "O" rastro da sua luz ainda ilumina minha alma".

YURI VASCONCELLOS
Ator, Artista Visual, Gestor Cultural.
"Eduardo Magalhães, um gênio em corpo de criança, na agilidade e criatividade, em uma cabeça de um ancião de imensos valores e saberes teatrais... Foi como um trovão anunciando sua Arte pra todos os que conviveram e tiveram a oportunidade de ver suas obras, sempre pontuadas com muito carinho, pesquisa e um sorriso de quem sabia o que estava fazendo... Um raio na rapidez que veio e se foi, mas uma tempestade em nossos corações!!!"

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INTENSAS VIDAS CURTAS 
Por José Facury

José Facury, na peça "Gepetto conta Pinóquio",
Direção de Eduardo Magalhães, eduardinho,
uma montagem de 2004.
   
     Nestes dez anos de vida do Teatro Municipal de Cabo Frio, dois Eduardos deixaram referências na vida cultural da cidade por terem passado por lá em suas curtas vidas, marcadas por existências singularmente breves. Para eu que acompanhei tais trajetórias bem de perto, muitas das vezes sendo até referência das suas dúvidas cênicas, só readquiri forças para traçar estas linhas por conta da necessidade de extravasá-la do meu combalido coração e dividir um pouco com leitor a perda do segundo Dudú com apenas seus vinte e três anos de idade. Os dois chegaram lá na época em que eu o coordenava artisticamente.

      O primeiro, José Eduardo Santos, com vinte e nove anos, recém formado da UniRio e com idéias cênicas revolucionárias. Para ele o importante no teatro seria instigar o espectador, tirá-lo da pasmaceira acomodada da poltrona e colocá-lo dentro da ação. Como eu já havia visto esse filme, apontava-lhe sempre que naquele momento estávamos formando platéia e que seria preciso pegar leve para não afugentar o público. Mas ele não poderia escutar um conselho tão conservador, e os realizava da sua forma, sem ligar a paradigmas tradicionais. Eu como estudioso do teatro admirava todos os seus trabalhos e via ali uma genialidade indomável. Zé Eduardo, já sabia no seu íntimo artístico que sua vida seria curta e só pude entender toda essa impulsão criativa quando um assassino covarde, até hoje não desvendado pelas autoridades policiais, cortou a sua trajetória com três tiros em julho de 2002.
    O segundo, Eduardo Magalhães, nos veio com quinze anos de idade em 1999, fruto do segundo Festival Estudantil de Teatro onde apresentou uma peça infantil, engajou-se em produções como ator, fez o curso básico do Teatro, aprendeu também, discutindo e vendo muita coisa. Arvorando-se em escrever e montar os seus próprios trabalhos começou a mostrar o seu exuberante potencial criativo. 
    Na comemoração dos meu quarenta anos de teatro em 2004, realizei um projeto chamado Gepeto Conta Pinóquio, onde, uni quatro gerações abaixo da minha: com a autora Silvana Lima, o músico Ivan Tavares e a aderecista Tânia Arrabal, companheiros de longas aventuras cênicas; com o César Valentim de geração abaixo das delas; o meu filho Tamer, então com nove anos fazendo o Pinóquio. E, para dirigir-nos, optamos pelo mais talentoso jovem da cidade: Eduardo Magalhães e navegamos por muitas águas teatrais nos entregando à sua estética.
     Aceitou desafios dificílimos de serem realizados como o de montar espetáculos de qualidade com estudantes de escolas do primeiro grau, menores carentes e com eles ganhou vários prêmios nos festivais estudantis e de esquetes. Não se contentou com isso, e foi sem nenhuma condição financeira estudar na Escola de Teatro Martins Pena no Rio, onde este ano estaria se formando. Até que outro assassino, desta feita um cirurgião dentista tira-lhe irresponsavelmente três sisos deixando-lhe como herança uma hemorragia que o levou a contrair uma leucemia até então desconhecida o fazendo encontrar a morte na semana passada. 
     Os Dudus se foram e o que ficará será a lembrança eterna das suas passagens e a efemeridade das suas artes, que eles em tão curto tempo, souberam realizar. A essas alturas celestiais, se elas existirem, os dois estarão se encontrando e rindo das nossas tragédias vivenciais. E para você, querido Eduardo Magalhães onde estiveres ilumine-nos com a luz jovem da sua criatividade explosiva nos encharcando da tua arte em nossos corações

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Reviver momentos de arte e intensidade é o que dá sentido à nossa vida artística, o teatro não sobrevive sem sua memória e sua história deve ser contada para que o esquecimento não nos torne vítimas de uma sociedade que não conhece a si mesmo. 
Eduardo Magalhães foi e será um grande exemplo, sua obra, embora breve, é, no fundo, a grandeza de uma geração que até hoje continua firme, trazendo luz para o teatro local de Caob Frio e do Brasil e, porque não dizer, do mundo. O teatro faz parte do acervo de memória da humanidade...

Jiddu Saldanha - Blogueiro

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Dramaturgia em Cabo Frio, anatomia de uma nova resistência.

Com uma produção de mais de 100 textos em 3 anos, o NUDRA - Núcleo Livre de Dramaturgia de Cabo Frio, busca o apoio incondicional dos jovens, para se afirmar como uma possível vertente de produção e criação de novos textos teatrais. Tarefa difícil, que envolve um intenso e lento despertar, mas que não é impossível.

Estudantes de teatro do OFICENA lendo textos de novos dramaturgos no
Segundo Ciclo de Leitura Dramatizada, realizado em 2015, no Teatro
Municipal de Cabo Frio.
Lembro uma vez, no final da década de 80, o ator Emílio Pitta, um dos monstros sagrados do teatro do Paraná, numa conversa sobre arte, falava com gosto sobre a arte da dramaturgia. Revelava sua paixão por Gianfrancesco Guarneieri e Plínio Marcos e, já na época, reclamava que não havia mais dramaturgos no Brasil e por isso, os artistas famosos acabavam sempre montando textos estrangeiros. Já naquela época, devido à burocracia, diversos grupos de teatro começaram a escrever e montar seus próprios textos. De um lado, tínhamos os dramaturgos jovens que, praticamente não eram levados a sério, já que a dramaturgia havia caído em total descrédito no Brasil.
Na década de 90, o Brasil começou a divulgar timidamente, os textos do Mauro Rasi, que escrevia comédias e dramas familiares e depois passara a escrever para televisão. Em meados dos anos 2.000, surgiu um forte movimento de dramaturgia com a entrada em cena de Jô Bilac, a partir daí, voltou-se a falar mais abertamente de dramaturgia. O Brasil pareceu sair de um vácuo de mais de 20 anos. Não que não houvesse novos escritores pra teatro, mas a falta de apoio e discussão sobre essa forma artística de produzir, levava sempre nossos melhores atores a mergulhar na produção de textos estrangeiros já ha muito tempo ultrapassados. A falta de opção por um lado e o obscurantismo da produção por outro, fazia com que todos achassem que no Brasil, os dramaturgos fossem uma "espécie em extinção".
Em Cabo Frio, com surgimento do OFICENA - Curso Livre de Teatro do Teatro Municipal de Cabo Frio, resolvemos criar o NUDRA - Núcleo Livre de Dramaturgia de Cabo Frio, com o intuito de estimular a produção de mais textos teatrais. A partir de uma carpintaria simples e que marcasse a ação cênica como elemento principal do texto, jovens começaram a perder o medo e escrever mais. Imaginar suas ações e criar contextos para a cena, de onde pudemos ver surgir já, alguns nomes que se destacaram nessas forma de escrever. Alguns textos, foram levados à cena e fizeram grande sucesso dentro do curso OFICENA mas também fora, como as peças "OsVampiros Estão com Fome" de Kéren-Hapuk e "Urânio Tóxico", de Larissa Gomes. Foi a partir da NUDRA que algumas pessoas passaram a produzir textos regularmente para serem montados, como "Ditadura" de Nathally Amariá, que acabou virando peça de repertório do TCC - Teatro Cabofriense de Comédia.

Uma lista de 21 textos serão lidos no Terceiro Ciclo de Leitura Dramatizada, é possível que, um dia, tenhamos pessoas
produzindo muito mais para alimentar a cadeia produtiva do Teatro de Cabo Frio e, quem sabe até, nacional e internacional.
Durante o ano de 2013, os alunos frequentadores do NUDRA passaram a fazer leituras de seus próprios textos para os estudantes atores do OFICENA, o que resultou no primeiro festival interna CENAS DO OFICENA, foram 17 trabalhos, quase todos escritos pelos alunos participantes do NUDRA. Em agosto de 2014, a produção do NUDRA ganhou um evento aberto no teatro. Fez o primeiro ciclo de leitura dramatizada, com total sucesso e em maio de 2015, ouve um novo encontro, dessa vez, com platéia lotada e curiosa para conhecer os novos dramaturgos e suas férteis imaginações artísticas. 
A partir de 2016, o NUDRA tornou-se um núcleo livre e desvinculado do OFICENA, passando a receber estudantes também de fora, mas a ideia não tinha dado certo, vimos que os participantes que vinham de fora, o fazia muito mais por causa de sua produção de contos e poemas, muitos, por não conhecer o teatro, resistiam em produzir especificamente para teatro. O núcleo de dramaturgia entrou em declínio e a proposta de escrever textos teatrais, abriu-se para quem quisesse escrever, de forma totalmente livre. Percebemos que a produção, embora viva e pulsante, não seguia qualquer regra minima, os jovens escreviam seus textos apenas com a intenção de vê-los no palco, de preferência por amigos, gente com quem tivesse afinidade, jogando um balde de água fria na ideia de construir um caminho real para a dramaturgia em Cabo Frio.

Uma Luz no Fim do Túnel.

A falta de produção de textos começou a deixar os novos escritores da cidade, sem contato com os atores, para discutir sua produção. Eventos de leitura dramatizada aconteceram de forma aleatória, apenas para mostrar o texto de autores consagrados. O sonho de criar um time de dramaturgos locais pareceu estar morto. Foi numa reunião às pressas com a equipe do OFICENA, decidimos reabrir o NUDRA. Com total apoio de todos iniciamos um plano emergencial para reagrupar os alunos que tinham latente, dentro de si, o desejo de escrever pra teatro.
A Leitura de autores consagrados como Federico García Lorca e seu tão
famoso texto "Bodas de Sangue" são valorizados nos eventos de dramaturgia,
nesta foto, o trabalho de direção de Italo Luiz Moreira, deu grande força e
prendeu o público até o último minuto.
Uma oficina livre de dramaturgia, realizada nos dias 11 e 12 de junho, ajudaram a criar a energia que impulsionou, novamente, a produção de textos. Os que não puderam comparecer, enviaram foram lidos por aqueles que estiveram presentes, assim, o primeiro encontro livre de 2016, do NUDRA, contou com a leitura e discussão de quase 11 textos teatrais. Com o replanejamento da agenda do OFICENA conseguimos colocar o quarto encontro "Cenas do Oficena", vinculado ao terceiro encontro de "Leitura Dramatizada", que irá acontecer no dia 02 de julho.
Para o momento, podemos dizer que conseguimos resguardar o espaço para novos dramaturgos, mas ainda é algo incipiente. O hábito de montar peças de forma intuitiva, sem escrever textos ou trabalhar apenas com um rascunho na mão, faz parte de uma "destradição", que se contrapõe ao mergulho formal na arte de escrever para teatro, talvez, por falta de abordagem proativa da própria mídia e por não termos um sistema de educação que realmente valorize o teatro. Os jovens tem idéias mas quase sempre pensam e realiza-la de forma cinematográfica ou televisiva, que são formas de dramaturgia mais popularizadas hoje. Em Cabo Frio, no entanto, parece surgir uma luz no fim do túnel, há uma geração mais velha do teatro local, que sempre valorizou a dramaturgia. Silvana Lima, José Facury, Marcelo Tosta, Cesar Valentin, Anderson Macleyves e Italo Luiz Moreira estão no olho desse furacão, acompanhados de Rodrigo Sena e Manuela de Lelis, esses últimos, da mesma geração do Eduardo Magalhães, o Eduardinho, como era conhecido de todos e que fora um forte despertar não só como diretor mas, também, como criador de textos para ser encenados.

por Jiddu Saldanha - Blogueiro