sábado, 27 de setembro de 2014

FESQ 2014 Comentário sobre as esquetes.

O Fesq, de 2014, seguiu a linha dos anteriores e já deixou saudades, os trabalhos apresentados por atores de diversas regiões do Brasil, participaram dos debates, uma roda muito divertida e de grande aprendizado pra todos. Segue um comentário breve sobre cada trabalho...

Artistas de todo o Brasil, participando dos debates para discutir suas produções.
 
Terça-feira – 9 DE SETEMBRO:

1º -“OS INVISÍVEIS”
Agromelados Cia de Teatro (Niterói-RJ)

Os invisíveis apresentou um conjunto de artistas jovens e ainda iniciando no ofício de atuação. O trabalho tem momentos empolgantes mas precisará de mais ensaios para encontrar uma unidade coreográfica e uma vocalização mais coesa no seu conjunto.
O figurino, embora não tenha, ainda, uma unidade estética em si, mostra um grande potencial. Já no quesito cenografia, a peça surpreende com as caixas de papelão, trabalhadas manualmente que, no inicio, formam uma espécie de muro, mas que, depois de desmontadas, cada uma traz um trabalho manual e artístico, como se fosse maquete de interiores, sem dúvida uma grande sacada do grupo.

2º- “RAYUELA”
Cia Plúmbea (Rio de Janeiro-RJ)

A cena apresentou um ótimo rendimento corporal, com belas coreografias valorizando a diferença de estatura e volume corporal entre a atriz e o ator. Mostrou um jogo pulsante que manteve o público interessado do começo ao fim. O trabalho coreográfico às vezes parecia frio e ganhava mais vida graças à iluminação criativa e bem executada.
É uma esquete repleta de informações corporais que às vezes parecia competir com o texto, tornando-o, em alguns momentos, pouco audível; leve-se em conta o fato de, os atores, por não conhecerem a "limitação" do teatro, deixaram de investir numa voz mais eficaz para dar conta do espaço cênico.


3º- “COM CERTEZA”
Coletivo Lá Vai Maria (Rio de Janeiro-RJ)

O grupo apresentou uma boa composição de cena e distribuiu bem, pelo palco, a presença de músicos ao vivo. A peça foi apresentada duas vezes e houve uma mudança considerável na iluminação, da primeira para a segunda apresentação, alterando, de alguma forma, o resultado final. Há controvérsia se o espetáculo melhorou um não, pois, com os músicos aparecendo ao fundo, ficava interessante ver a composição dos dois ambientes à meia luz. Já com os músicos mais escondidos, perdeu-se a interação dos mesmos, além do que, a luz da cena do primeiro plano também ficou um pouco mais escura.
O ponto alto da cena "Com Certeza" é a dramaturgia, entrecortada, com diálogos que vão se completando sempre depois de uma intervenção feita por uma som que vinha da plateia, isso dava a entender que os personagens eram manipulados pelo autor a dizer o texto de forma "incompleta"; ideia bem sacada e muito bem defendida pelo elenco.


4º- “A ARCA DE NOÉ”
Cia Os Bipolares (Cabo Frio/ Cordeiro-RJ )

O trabalho foi divertido, a plateia curtiu, fica claro que nem sempre, num festival de teatro competitivo o objetivo é ganhar. A dupla de atores deste trabalho marcaram presença no palco e ganharam experiência com sua hilariante comédia.

5º- “MATSURI”
Teatro MiMO (Rio de Janeiro-RJ)

Um trabalho diferenciado e raro, mostra uma dança "Butoh", de origem oriental, misturada com as técnicas ocidentais de mímica contemporânea. O ator, Tomaz de Aquino, com uma sensibilidade única, concentrou-se em sua ação no palco e arrebatou a atenção de uma plateia pouco acostumada com este tipo de linguagem, no entanto, o público manteve-se concentrado.
Matusuri, apesar de aparentemente hermético, foi além, mostrando uma fina camada de sensibilidade, valorizando signos como a pintura das unhas e mãos do ator/bailarino, além da pintura corporal feita com argila e o uso de talco no cabelo, que, em algum momento, sacudido, deu uma textura, fazendo um belo contraponto com a iluminação.

 
Quarta-feira – 10 DE SETEMBRO:

1º - “CENA REAL...É TUDO VERDADE”
Gene Insanno Cia de Teatro (Rio de Janeiro-RJ)

Trabalho provocador e inventivo, manteve a forma e o estilo sempre polêmico e reflexivo do grupo Gene Insanno, um grupo que registra um dos maiores níveis de frequência no festival de esquetes de Cabo Frio.
A ideia de levar pessoas do público para o palco para torna-los peças de um cenário, foi bem interessante. Destaque também, para o elenco, treinado, executando falas e situações que, embora aparentemente improvisadas, exigia fé cênica e convencimento por parte dos atores, que não decepcionaram.


2º - “SERIAL”
Teatro InVerso (Rio de Janeiro-RJ)

O forte deste trabalho foi a dramaturgia. Um texto bem escrito com uma respiração que lembra os filmes de suspense, que nos remete a um belo filme de Hitchcock. No entanto, a interpretação demasiado contida dos atores fez o trabalho se diluir numa linguagem muito mais cinematográfica do que, propriamente, teatral.
O uso de cadeiras no palco, entremeadas por fios que vão formando uma "teia de aranha" deu um toque sutil à trama embora o trabalho careça de mais carpintaria teatral, aprofundamento na técnica de atuar e uma forma mais ampla de pesquisa do gênero suspense para teatro, especificamente.





3º - “TIC TAC”
Cia 6º Ato (Rio de Janeiro-RJ)

Um solo teatral com que utilizou técnicas de audiovisual, mímica e um cenário que servia de suporte para projeções, ao mesmo tempo que enquadrava os movimentos e as expressões do ator. Tudo muito interessante, com grande potencial, no entanto o uso de material técnico acabou tornando o trabalho um pouco engessado, em função de ajustes que, muitas vezes, não dão tempo de fazer, quando se trata de um festival de teatro competitivo.
Sugiro ao ator Junior Vieira que simplifique sua produção ou treine exaustivamente seus técnicos para criar possibilidades caso haja imprevistos na hora da montagem. Apesar de alguns contratempos, o trabalho tem potencial, se bem ensaiado e profundamente discutido com a equipe responsável por sua realização.

4º - “O POVO, O REI E O BUFÃO DO REI”
Multifoco Cia de Teatro (Rio de Janeiro-RJ)

Trabalho com ótima direção de arte, mostrou crescimento entre a primeira e a segunda apresentação. Entretanto, o uso complexo de equipamentos de iluminação gera sempre algum tipo de situação indesejada que acaba influenciando o desempenho dos atores em cena. Apesar disso, o grupo está seguro e sabe o que quer. É um trabalho com grande potencial.
Os efeitos causados pelo uso de um complexo material de cena, deu ao grupo uma dimensão inventiva e criativa, saltando do uso de papel colorido, explosões e estalos que contribuíram de forma diferenciada à narrativa.

5º - “SE A CRIOGENIA FUNCIONASSE”
Grupo Beagle (Rio de Janeiro-RJ)

Atores bem treinados, com um ritmo cênico alucinante, fizeram um trabalho robusto e detalhista, com boa iluminação e uma grande empatia junto ao público. O que o grupo apresentou de inovador em seu próprio processo, foi uma maior teatralidade do texto. Com isso, a vocalização atingiu o mesmo nível do trabalho corporal.
O trabalho corporal é o ponto forte do grupo "Beagle". Ultizando técnicas que juntam dança contemporânea, expressão corporal e mímica teatral, os atores fazem uma alucinada triangulação que parece tirar o fôlego da plateia. Na minha percepção, o que faltou foi resolver o excesso de finais. A peça acaba tendo três finais. O primeiro ficou bom e até funcionou como "falso final", mas depois, parecia não acabar, talvez, por causa da queda de iluminação em resistência.
 
Quinta-feira – 11 DE SETEMBRO:

1º - “ESQUETE PARA QUATRO JOGADORES, TRÊS MÁQUINAS DE ESCREVER, DOIS ESPECTADORES E UM RINOSSORO”
Cia Sem Mim (Rio de Janeiro-RJ)

Muita ironia, tempo cênico típico de humor nonsense acompanhado de uma boa dose de teatro do absurdo, é um trabalho que lembra, em quase tudo, o livro "O Processo" de Franz Kafka. A cena mostrou uma intrigante e criativa trilha musical, com músicos executando ao vivo "Aquarela do Brasil", de Ari Barroso. Isso deu ao trabalho uma riqueza ímpar costurada com cenas cheias de humor.
Chamou a atenção o elenco bem afinado e mergulhado na proposta, embora, algumas falhas de ritmo tenham ficado claras devido ao fato de o próprio grupo não ter tanta certeza e/ou clareza de sua proposta. Tirando isso, é um trabalho que tem potencial, se for levado às últimas consequências.

2º - “MARIA CLÔ”
6 em Cena (Rio de Janeiro-RJ)

O uso de um rádio em cena deu o mote para uma sonoplastia que alimentou um clima tenso e dramático. A cena tem uma boa luz, e apresenta uma forma contida de interpretação. O que prejudicou as atrizes foi a falta de projeção da voz, isso fez com que o público perdesse uma boa parte do texto. O uso da iluminação, no entanto, criou uma sombra gigante ao fundo que trouxe plasticidade à cena.

3º - “VIDA DE CÃO”
Grupo Barbudos (Rio de Janeiro-RJ)

Belo texto e ótima interpretação do ator Ricardo Dias, que construiu a cena com movimentações a partir da plateia. Com uma vocalização potente, fez o texto chegar até o público com absoluta clareza. Deu para sentir toda a força da obra do poeta Paulo Leminski.
O trabalho apresenta uma complexidade que necessita mais pesquisa do ator, talvez um mergulho mais arrojado na relação entre o personagem central, um mendigo, e sua realidade no palco. Trata-se de um trabalho com forte potencial.

4º - “ELO”
Grupo Gabriel Bellas e Vanessa Garcia (Niterói-RJ)

Teatro coreográfico e altamente contemporâneo, teve uma sacada inteligentíssima da dupla de atores que triangularam no palco de forma criativa e sagaz. Ele, com um potencial vocal/musical impressionante, e ela com uma ótima expressão corporal e coreográfica. O trabalho encantou o  público tanto pela beleza da cena e também pela provocação e criatividade dos artistas envolvidos.

5º - “O COMA”
Grupo Teatral LoucAtores (Rio de Janeiro-RJ)

Direção segura e bem coreografada, mostrou um elenco com movimentação frenética e ótimas evoluções pelo palco. O equilíbrio da caixa cênica, a unidade entre figurino e iluminação, fez o espetáculo parecer "fácil" na mão de um elenco muito bem ensaiado e compenetrado em cada detalhe exigido na peça.
Embora tivesse um clima de comédia, o trabalho evitou lugares comuns e apresentou soluções diferenciadas, incluindo a composição das personagens e a unidade narrativa, formada a partir de um coro quase perfeito.

 
Sexta-feira – 12 DE SETEMBRO:

1º - “JOÃO-DE-BARROS”
Grupo de Teatro Mamãe Tá Na Plateia (Belo Horizonte-MG)

O ator Charles Valadares demonstrou estar bem a vontade com a técnica de mímica contemporânea, divertiu o público com belas gags gestuais além de impor uma voz bem interessante quando falou "gromelô"; sua transição para o personagem do imperador foi impecável, além de demonstrar habilidade no manuseio de materiais de cena.
Faltou adaptar sua cena para o espaço do teatro, de forma a ficar mais robusta e clara para o público, no entanto, seu trabalho pode crescer muito ainda.


2º - “FRENESI”
Grupo Café (Maringá-PR)

Uma das peças mais comentadas do Fesq, a esquete "Frenesi" chamou a atenção pelo seu experimentalismo. O elenco apresentou uma construção fluida através do silêncio, evitando cair na mímica. Conseguiu imprimir um ritmo de teatro experimental e absurdo, com pouquíssimo texto e muita ação dramática e física. Destaque para a direção que soube distribuir bem as atrizes pelo palco e fazer um jogo que permitiu diversas leituras por parte do público.
A sugestão é que o grupo seja mais cuidados em relação à finalização da cena. As atrizes estão concentradas mas o final abrupto provoca uma sensação de que o espetáculo termina na hora errada. É bom o elenco ficar atento a isso e aumentar mais um pouco o tempo da queda de luz em resistência, esperar a recomposição do elenco para saudar o público ao final.

3º - “SESSÃO MATINÊ”
Grupo Matinê (Rio de Janeiro-RJ)

Texto divertido e muito criativo, não há dúvida que a dramaturgia é um dos pontos mais fortes deste trabalho. Os atores, tiveram um bom desempenho e souberam fazer um jogo gostoso que resultou numa comédia elegante e com bom ritmo.
Faltou projetar mais a voz, para que o público pudesse sentir melhor a energia dos atores em cena.

4º - “ENQUANTO ESPERAMOS (E ELES NÃO SAEM DO LUGAR)”
Concreta Cia de Teatro (Belo Horizonte-MG)

Dois atores habilidosos e com grande potencial. Precisam melhorar o desempenho vocal e tirar o excesso de movimentação, entender o tempo dramático da obra de Samuel Beckett, para concatenar o imenso repertório de técnicas que possuem.

5º - “SOLO ALMODÓVAR”
Saltoalto Investigações Cênicas (Salvador-BA)

A Atriz Simone Brault deu um show de profissionalismo, demonstrou um alto nível de relação com o ofício de atuar. Soube exprimir várias técnicas durante sua performance:.  Voz bem colocada, ótima caracterização, figurino e maquiagem impecáveis, além de desenvoltura e firmeza na movimentação pelo palco.
Foi aplaudida em pé e agradou tanto o público como o júri. Seu trabalho cresceu da primeira para a segunda apresentação. Destaque para o momento em que ela canta. A finalização da cena é precisa e sua esquete finaliza no momento certo.


  

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