sexta-feira, 12 de abril de 2013

Perdoa-me por me traíres - Um espetáculo correto com pitadas de ousadia.


Grupo Casa dos Azulejos – São Pedro da Aldeia

Dia 11 de Abril de 2013, o grupo Casa dos Azulejos, de São Pedro da aldeia, nos presenteou com um momento especial para a cena teatral em nossa região. Em que pese a eterna resistência do nosso, ainda, combalido teatro, mas que, como nos filmes de zumbi estadunidenses, parece levantar  da tumba para caminhar a passos  largos em direção ao óbvio, mostrar a potente energia criativa e a capacidade ímpar que o artista local tem, para, com sua eterna teimosia, encarar os desafios, vencer as forças da escuridão, e nos iluminar com sua frágil, porém, determinada criação.
Capitaneado por Bruno Peixoto e Anna Fernanda, o grupo Casa dos Azulejos emplacou seu novo espetáculo, com uma direção segura e bem resolvida.

Foi assim que vi, entusiasmado e cheio de esperanças, e espetáculo “Perdoa-me por me Traíres”, do dramaturgo, eterno e inesquecível, Nelson Rodrigues. O trabalho trouxe uma ótima marca para o teatro de Cabo Frio como um dos grandes momentos de 2013. No palco vimos uma mescla de atores principiantes com outros já maduros e tivemos ainda a grata e boa surpresa de ver alguns momentos de conexão e até arrebatamento, mostrando que o teatro, quando feito com seriedade, tem algo pra dizer, provoca a platéia e impulsiona a arte do ator.
Nas cenas iniciais o espetáculo se revelou um pouco arrastado, com uma coreografia muito bem desenhada pelo diretor do espetáculo, Nelson Yabeta, mas inda executada de forma dispare pelos atores, mostrando claramente que alguns estavam mais bem preparados fisicamente do que outros. Também notei um certo descompasso no conjunto vocal, com falas ainda na garganta, sem aquele tradicional trabalho de diafragma que ajuda no controle da respiração e impulsiona a interpretação contribuindo para a cadência da cena. O início, apesar da falta de ritmo, não comprometeu o espetáculo, que foi crescendo aos poucos e arrebatou o público.
Marcante desempenho da atriz Anna
Fernanda, nesta cena um verdadeiro jogo
com o ator e iluminador Bruno Peixoto.
O Elenco, capitaneado por Bruno Peixoto e Anna Fernanda, foi digno e emplacou, trazendo para a cena recursos dramáticos à altura das exigências do maior dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues, e em alguns momentos, tivemos o impacto de encontrar situações inesquecíveis, como aquele em que atriz Anna Fernanda, no papel de Judite, triangula magistralmente com Bruno Peixoto, no papel de Tio Raul, momentos antes de sua morte, quando ele, Tio Raul, depois de um excelente exercício do que há de melhor na arte do ator, oferece a ela o veneno.  A cena da morte de Judite traz vivacidade para um belo momento desta atriz sensível, de São Pedro da Aldeia. Fica aqui, também, um destaque para os atores Walter Ramos, com uma bela composição do personagem  “Deputado Jubileu de Almeida” e o bom desempenho do ator Johnny Vieira  no papel de “Gilberto", o marido supostamente traído”. Johnny encostou bem no personagem, dominava o texto e projetava bem a voz enquanto Walter nos deu um belo momento de humor sarcástico.
Com relação ao cenário, gostei dos objetos pendurados, sugestão de pontos de luzes que revelem os objetos (discretamente) para que eles não fiquem sem brilho, parecendo apenas decoração. O figurino estava fluido, combinando com o conjunto, dialogando bem com a luz, a maquiagem e o ritmo conquistado ao longo do espetáculo.
Quanto à proposta do diretor, Nelson Yabeta,  podemos perceber que ele reuniu três forças determinantes no seu processo criativo; A direção das cenas, o Cenário e a Trilha Sonora, esta última, marcante, durante o espetáculo. É uma direção marcada por referências estéticas  e visuais do cinema de Almodóvar, a dança expressionista de Pina Bauch, e com uma energia extra da brasilidade escancarada e pulsante na execução dos objetivos propostos, por um elenco que aceitou ser desafiado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário