terça-feira, 25 de junho de 2013

"OPS". Um espetáculo que encontrou o público.

Rodrigo Rodrigues no espetáculo "OPS" fotografado
por Mariana Ricci
Rodrigo Rodrigues é um ator querido do público de Cabo Frio e desde que lançou seu espetáculo “OPS” pode dar-se ao luxo de estar entre os raros artistas locais que consegue lotar um teatro. Tem sido assim em todas as temporadas, desde a estréia, em 2011. Cada vez que seu espetáculo retorna em cartaz, sempre se fortalece e traz novidades.
“OPS” surpreende pela forma inteligente de como as cenas são interligadas. Com uso perspicaz do audiovisual, criado por Ricardo Amorim e Marcelo Pegado, vai nos oferecendo uma costura de cenas que preenchem os espaços de exigência de um expectador mais detalhista. É um daqueles espetáculos onde, um único ator em cena é suficiente para levar o público a um passeio pelo universo da comédia, fazendo teatro e não Stand Up.
Com uma formação teatral, grande parte, vinda diretamente do contato com a platéia, através de seus shows transformistas, Rodrigo nos remete àquele tipo de criador cênico dos cabarés cinematográficos do início do século XX, como mantenedor de uma linguagem de glamour, ele conseguiu, ao longo de sua carreira identificar seu próprio público, o que não é pouco, já que vivemos numa época em que o trabalho do ator é despersonalizado por falta de incentivo e de políticas que direcionem mais os expectadores com suas referências.  
Ao assistir o espetáculo “OPS” era de se esperar que Rodrigo usasse seu arsenal de gags e sua rica capacidade de improvisar para manter o contato, mas vimos que ele foi além. Demonstrou não se intimidar diante das técnicas de teatro, tão bem articuladas nos ensaios com Manuela de Lellis, diretora do espetáculo. Rodrigo triangulou bem com o público e criou um jogo de contato a dose certa improvisação.
Em um determinado momento do espetáculo, Rodrigo improvisou um canto gregoriano e surpreendeu a platéia com a qualidade de sua voz. Poderia ter ido além e fica aqui a sugestão para que sua verve musical, à capela, seja mais explorada na cena. Ele demonstrou ter boa dicção usando de forma habilidosa e com experiência, o microfone ret-set. Sua voz fluiu limpa, sem sopros e sua respiração não ficou ofegante, embora o espetáculo exija algumas movimentações atléticas.
No final, o público ficou contente, o espetáculo gerencia bem a energia da platéia e cresce em sua técnica a cada novo espetáculo encenado. Com uma dramaturgia rica e iconoclasta, para deleite da platéia pensante, deparamos com um belo figurino, uma harmonia entre cenografia, arte e o acabamento que torna o simples, luxuoso, e dá uma cara bem profissional para o teatro local.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA)

Daniela Barbosa

Aos 08 dias de junho de 1974 surgiu, em Cabo Frio, Daniela da Silva Lopes. Nasceu e cresceu na terra da família materna, herdou veia artística e sangue baiano paternos. Formou família, anexou Barbosa ao nome e duas filhas à sua existência. Estudou, formou-se Assistente Social. Pelos anos afora desenhou, cantou, escreveu, pintou, mas não era prendada para bordar. Queria mesmo era atuar. Hoje vai navegando entre as palavras e as formas, experimentando a dor e a delícia do mundo do teatro.


IMAGEM E SEMELHANÇA
DRAMA

AUTORIA DE: Daniela Barbosa

CENÁRIO

Quarto de Rosa. À meia luz. Rosa de bruços, em diagonal, na cama revirada. Ao seu redor, notas de dinheiro espalhadas. Uma mesinha de cabeceira com um abajur, um despertador e um livro: O NOME DA ROSA. Aos pés da cama, uma penteadeira com: pente, escova, maquiagem, uma garrafa com resto de uísque e um pequeno pote de vidro. Em frente, um banco caído de lado. Espalhados pelo chão: um vestido, espartilho, cinta-liga, meias ¾ e um par de sapatos femininos.

PERSONAGENS

ROSA: Prostituta (20 a 35 anos). Foi estuprada pelo pai, que tirou sua virgindade. Olhos grandes, tristes, com olheiras. Usa uma camisola longa, com uma faixa e aberta na frente com decote mostrando parte dos seios. Cabelos desgrenhados e maquiagem borrada.

MEDEIA: Mulher com terno preto, vestida e caracterizada de homem.

CENA 1

(O despertador toca. Rosa levanta o braço, sonolenta, desligando-o. Pausa. Espreguiça-se, desliga o abajur e se levanta. Ajeita o cabelo e fecha a camisola. Levanta o banco e senta-se à penteadeira).

ROSA: (em frente ao espelho, limpando a maquiagem) Maldita luz do dia! Dói-me a cabeça, o corpo, a consciência. Por que hei de sempre acordar com cheiro de culpa e gosto de arrependimento? (olhar perdido) Mas o último, o de ontem... Tão protetor... (e, levantando-se de súbito) Que a consciência apodreça nos infernos! (bebe o resto de uísque e pega o pequeno pote).

(Medeia surge de trás das cortinas, aplaudindo pausadamente. Sorriso sarcástico. Pega o livro na cabeceira, vira-se para a plateia).

MEDEIA: Vejamos... página setenta e oito: “Se há uma coisa que excita mais os animais que o prazer é a dor. Vives, sob tortura, como sob o poder de ervas que provocam visões”... (fecha o livro e o devolve à mesinha)

(Rosa esconde o pote entre os seios e se afasta apavorada, indo de costas para a frente do palco).

ROSA: (virando-se para a plateia) Não és real! És uma alucinação!
MEDEIA: (balançando negativamente a cabeça) Mal agradecida. Vês como sou benevolente para contigo! Mesmo sendo tão maltratada por ti, venho oferecer-te uma chance de te salvares.

ROSA: (gargalhada sonora) Salvação? (expressão de medo, esfregando as mãos) Vejo como és benevolente, cara consciência! Estiveste escondida naquela garrafa, ou no pó que me queima as narinas, ou ainda no homem que roubou-me mais uma noite de vida! E me assombras como num castigo divino! Volta para minha mente e desapareces logo! (fecha os olhos com força)

MEDEIA: (andando e parando atrás de Rosa) O que fizeste de ti? Que criatura desprezível tu te tornaste...

ROSA: O que fiz de mim?! TU me fizeste? O que OS HOMENS fizeram de mim? O que o MUNDO me fez? (olhar irônico) Sou somente imagem e semelhança! (andando em volta de Medeia, recita):

“O amor fez-me puta,
a vida tornou-me mulher,
a morte, enfim, me seduz.
Aqui jaz um romance moribundo,
fruto do amor expurgado,
à luz do dia, silenciado
em sua lápide, esculpido em cruz.
(parando em frente à plateia)
Da paixão incestuosa
jorrou meu sangue imundo
por veias abertas a foice,
à espera do julgo final.
Dos subterrâneos do Éden
ao purgatório dos meus dias
escarro o pecado original
que me dilacera as entranhas,
enquanto liberta-me a alma fria.
Sou mais uma Eva, vadia,
comida num jardim qualquer.
Alimento divino do homem
sua filha, sua mulher”.

MEDEIA: (com ódio) Herege.

ROSA: Humana.

MEDEIA: Profana! Nem a morte te livrará dos teus pecados. Guarda esse arsênico, querida. Teu estômago é sensível, vais acabar vomitando. Tu és tão fraca que não consegues nem morrer sozinha. Toma. Uma arma. Atira. (aponta a mão em forma de revólver para Rosa) Despede-te de tua vida impura. Lava, com teu sangue, tuas mãos pecadoras. 

ROSA: (rosto entre as mãos, gritando) Que queres de mim?

MEDEIA: Sentir o gosto de fel na tua boca (aproxima-se do seu rosto, simulando um carinho) Quero teu sangue, pois a alma, a mim já pertence...
Rosa vira o rosto de súbito. Tira a faixa da camisola e amarra no pescoço, ameaçando enforcar-se. Começa a dançar e entra num transe.

MEDEIA: Vai! Cumpre tua sentença, se pensas que mereces tal alívio para essa alma enferma. (virando-se de costas) O inferno está em tuas mãos, em tua boca, em teu corpo. Aquele que te possuiu, mesmo morto, ainda está em ti... Levarás para onde fores. Morta ou viva, vês a lembrança daquela noite como uma espada transpassando teu peito frágil e pálido. Nem a morfina de tuas veias te alivia a alma. (voltando-se) Tu me provocas náuseas...

ROSA: Tu não existes. És fruto de minhas viagens alucinógenas...
MEDEIA: Sou fruto das tuas escolhas. (falando ao seu ouvido) Nasci de tuas entranhas. Cresci dos teus cortes, de tuas dores. Alimento-me de teus medos. Padeço em tua vaidade, em tuas ilusões. Viverás para sempre em mim e eu em você. Morrerei com tua morte. (aperta violentamente a faixa).
Rosa se solta e cai, apavorada. Medeia caminha à sua volta, ajoelhando à sua frente.

ROSA: (ofegante) Agora entendo... és real porque eu vivo. Sem mim, não és nada. Vives do meu pecado.

MEDEIA: (mãos postas em oração) Agradeço aos céus este momento sublime... Confessa teus pecados, pequena meretriz! Escolheste viver na noite, traçaste teu destino. Pede perdão! (gargalhada)
ROSA: A Deus?

MEDEIA: Não, imprestável! (irônica) A esta que vos fala. Por travares batalhas diárias contra mim. Logo eu, que sempre estive contigo. (olhando para a penteadeira) Quantas noites tu me deixaste esquecida em tua gaveta em meio a doses de absinto, seringas e culpa. (virando-se de costas para Rosa) Minha dor nunca foi suficiente para evitar as dores físicas nas quais mergulhas para fugir da vida.

ROSA: Pois em breve irás livrar-te de mim.

MEDEIA: Tua natureza é covarde, minha ninfa... Tu és uma névoa, um sopro, uma bruma que encobre a verdadeira natureza humana. Não passas de um ser delicado como nuvem que se desfaz quando o sol se abre. E qualquer vento mais forte dissipa tua valentia.

ROSA: Eis essência de nossa existência: do pó ao pó.
(Tira do peito o pote e o esvazia em sua boca. Senta-se à escrivaninha e dedilha um piano invisível, cantarolando uma melodia. Medeia vira-se e acompanha seus gestos com o olhar).

MEDEIA: (com desdém) Pareces realmente feita de pó...

ROSA: (olhar fixo) Do pó ao pó.

MEDEIA: Hum... poética. Ou devo dizer... patética? Tens certeza de que não tomaste o arsênico? Pareces delirar...
Rosa pega uma adaga na gaveta e a acaricia, serena. Abaixa a cabeça, abraçando o objeto.

MEDEIA: (balançando a cabeça negativamente) Achas que me assustas? A morte não acabará com teu martírio. Aliás... nunca fostes mártir. De Antígona, só tens a tragédia que é tua vida. Não és digna, sequer, de encenar esse papel.
(Rosa levanta e desequilibra. Limpa o suor da testa com o braço. Para em frente a Medeia e, com as duas mãos, aponta a adaga para o próprio peito).

ROSA: Tu és o demônio. Devo matá-la em mim!
(Luzes se apagam. Grito de dor. Silêncio).

ROSA: Era cianureto, e não arsênico.
(Luzes se acendem. Rosa de pé em frente ao corpo de Medeia no chão. Braços estendidos e adaga balançando nas pontas dos dedos. Virando-se para o público, solta a adaga. Fecha os olhos com força e novamente desequilibra, caindo de joelhos).

ROSA:

“Maldita carne que aprisiona
e veda-me os olhos da alma faminta
por romper com os grilhões da matéria
em decomposição.
Bendito torpor que a tudo torna tênue,
tal qual fio do líquido rascante.
Vinho rubro derramado sobre o corpo
Consagrado em sua imperfeição.
Amaldiçoado poema de minha vida,
obra inacabada de uma tragédia anunciada.
Concebida pelo pecado e
pelo perdão, esquecida”.

(Abaixa a cabeça novamente. Deita-se em posição fetal. Deixa cair o vidro vazio que rola pelo chão).

FIM

Daniela Barbosa

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA)

Priscila Mayer

É carioca, viveu em Duque de Caxias até seus 16 anos e desde os 10 estuda teatro. Veio para Cabo Frio e deixou seus sonhos numa gaveta. Cursou até o 4º período do curso de Sistemas de Informações. Hoje, aos 27 anos, divide seu tempo entre seus textos, e suas artes: Teatro e Artesanato.



Desejos   
(Por Priscila Mayer)

Drama em um ato - duas cenas

Descrição dos Personagens:

Ana: Jovem órfã, trabalha no Castelo Real como arrumadeira. Inocente, delicada, ar angelical.
Laurence: Filho mais novo do Rei Antony. Apaixonado por Ana, aguarda a maioridade da jovem para pedi-la em casamento. Doce, gentil, amado por todos.
George: Filho mais velho, herdeiro do trono. Arrogante, ambicioso e viril.
Erlan: Criado e puxa saco de George.

Cenário: O quarto de George.

Cena 1

(A cena se passa dentro do quarto de George. É noite e como de costume os irmãos estão conversando antes de dormir).

George: Mas mudando de assunto, quando pretendes levar Ana para sua recamara.

Laurence: Sabes muito bem o que penso sobre isso irmão. Ana ainda é uma menina, é tão doce e imaculada. Só será possuída por um homem após o casamento.

George: Bobagem! Não sabes o que dizes galego. Todas as mulheres são meretrizes de nascença e Ana não tem a quem dar honra. Leve-a aos seus aposentos, e se gostares dela, então se casa.

Laurence: Não sou como você irmão! Não sei me aproveitar de moças inocentes usando o nome da nossa família.

George: Faça como quiser só não reclames se outro o fizer.

Laurence: Essa conversa já deu tudo o que tinha que dar. Vou me recolher. Boa noite irmão.
                                   (Laurence sai. George anda de um lado para outro. De repente uma gargalhada).
George: Erlan! Erlan!   *Diz agitado e impaciente

Errlan: Pois não senhor!

George: Vá até Ana e dizes a ela que estou enfermo e que a chamo sem demora. (Diz se jogando na poltrona).

Erlan: Mas o que tens mestre? (Diz se sentando na poltrona ao lado).

George: Não tenho nada, só preciso ficar a sós com Ana alguns instantes e provar para o tonto do meu irmão o quanto ele está errado.

Erlan: O senhor é magnífico!

George: O que está esperando?Ande e fazes como lhe ordenei!
                        (Erlan sai. A iluminação cai e George se esconde atrás da poltrona. Ana entra esbaforida).
Ana: Senhor, o que aconteceu? Erlan disse que estás enfermo?
                        (George Aparece por trás de Ana e a agarra por trás).
George: Estou enfermo de desejos por ti Ana!
                        (George começa a alisar e beijar Ana, que o empurra).
Ana: Componha-se senhor! Estás bêbado?

George: Prepara-te Ana! Hoje serás minha! E você sabe muito bem o que acontece com quem não cumpre minhas ordens. Não quero ouvir nem um resmungo para não perder a vontade.
                        (George se aproveita de Ana toda a noite. Os movimentos seguintes são mostrados por sombra. A luz abaixa até a escuridão total).

Cena 2

                        (Iluminação simulando o amanhecer. George acorda, se veste, olha Ana na beira da cama e eis a constatação):
George: E não é que a galega era mesmo moça? (risada)
                        (Cutucando Ana)
George: Ande, acorde e limpe toda essa sujeira. E nunca mais ouse entrar nos meus aposentos.
                        (George sai do quarto. Ana se levanta chorando, sentindo nojo de si mesma, olhando tudo em volta com medo e repulsa. Laurence entra entusiasmado, mas sua expressão muda ao ver Ana sentada na beira da cama com trajes íntimos. Ela ao ver Laurence, busca se cobrir com um lençol).

Laurence: Ana o que fazes aqui e com esses trajes? Meu irmão tinha razão. Não acredito! Logo hoje que estava decidido a me declarar.
                        (Ana corre e segura o braço de Laurence o impedindo de sair).

Ana: Laurence eu te amo e sempre te amarei. Por favor me escute. Passei sim a noite com seu irmão, mas não foi por querer, acredite em mim.

Laurence: O que estás dizendo Ana?

Ana: Seu irmão me chamou ontem a noite me dizendo estar doente e quando entrei para ver como ele estava, ele me agarrou. (Diz aos prantos).

Laurence: Canalha, como ele pôde?
                        (é tomado pela raiva, abraça Ana fortemente)
Laurence: Se vista Ana.
                        (Enquanto Ana se veste, George entra no quarto e ironicamente)

George: Já a usou também Laurence?

Laurence: Eu tenho nojo de você. Como pôde? Como você teve coragem de fazer isso?

George: Fiz e não me arrependo. Está com peninha? Casa com ela então. Aproveita que está pouco usada.

Laurence: Eu vou te matar! Uma pessoa como você não merece ser o herdeiro do trono.
                        (George com deboche)
George: Eis o filhinho da mamãe mostrando sua verdadeira face! Vamos! Bota para fora esse monstro principezinho da mamãe!
                        (Laurence parte pra cima de George, mas Ana se joga na frente e o impede).
Ana: Por favor, Laurence não vale a pena. O futuro rei não pode ser um assassino.

Laurence: Você tem razão Ana, ele não vale mesmo a pena.
                        (Laurence se vira tentando se acalmar).
George: O romantismo de vocês me dá náuseas. (senta). Saiam já do meu quarto. E a propósito, eu serei o novo rei. (começa a folhear um livro).
                        (Ana abraça Laurence por trás, e num movimento rápido e certeiro, pega a adaga na cintura de Laurence e corta o pescoço de George).

Ana: O futuro rei não poderia ser um assassino, mas a futura rainha pode defender a sua honra.
                        (Laurence sorri aliviado e beija Ana calorosamente. As luzes se apagam).

FIM
                        (Por Priscila Mayer)



domingo, 2 de junho de 2013

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA) - Bruna Alves

Bruna Alves.

Carioca, nascida como muitos outros em 26 de maio de 1995, morou em Niterói a maior parte da vida, e veio parar em Cabo Frio no ano de 2008.

Terminou o ensino médio em escola pública no ano de 2012. Agora continua estudando para passar para cinema na UFF. Estuda teatro e vive dramaturgia, seu sonho é um dia ser humilde mestre como os que a rodeiam.

Escreve desde que é gente, e ama as inutilidades da poesia e do ócio. Leminski é seu “pai” e seu “avô” Manoel de Barros.


                                Era Quase Não Fosse Tanto

Autora: Bruna Alves
Livremente inspirado na obra de Paulo Leminski

Personagens: Isadora (jovem, leitora compulsiva, 21 anos)
                     Davi (jovem, escritor, namorado de Isadora, 23 anos)
Cenário: Um quarto bagunçado, com livros espalhados, copos, pratos (restos de comida), cinzeiros e maços de cigarro. Uma cama mal arrumada, um notebook que toca Jeff Buckley, uma cadeira ao lado da cama.
Figurino: Davi- Apenas de ceroula.
               Isadora- Uma camisa masculina do Pink Floyd.
Gênero: Drama Poético

      
Ato Único

Cena I
Isadora - (sentada numa cadeira ao lado da cama com um caderno na mão, olhava para Davi) - Como pode ser tão doído e aparentar um sorriso tão verdadeiro?

Davi - (a olha, anda pelo quarto apenas de ceroula, dá um gole numa garrafa velha de vinho, uma tragada no cigarro... Senta na cama.)- É que tudo dói de tão belo. Esse antro de lembranças adolescentes e jovens, todo o mundo que não para do lado de fora dessa escuridão em que nos escondemos, o balão que se solta das mãos de uma criança. Cada segundo de beleza machuca.

Isadora - (sorrindo) Poeta sofre antecipadamente, na hora e depois. Já não é o mundo tão comum? Precisamos nos embebedar de vinho de dia e de noite, e continuar sendo clichê, e continuar repetindo sonhos que nunca se realizam.

Davi (pega seu caderno das mãos de Isadora, joga longe, a puxa e a beija com rebeldia. Isadora sai da cadeira e vai para a cama, pega um livro que estava jogado na cama, recosta sobre Davi e ameaça a começar a lê-lo, Davi diz:) Ler é bom, mas carne também é, e sua fraqueza de carne muito mais. Larga as linhas, deixe-me ler você.

Isadora - (com certa relutância se esquiva de Davi e seus braços, abre espaço para falar) Não sou poeta como você, ler é a única forma de me sentir próxima do que não sou e do que queria ser. Talvez poetize na prosa, mas quando tenho que passar para linhas, elas se tornam tortas e imperfeitas.

Davi - (se contêm, pega as mãos de Isadora e fala delicadamente) Não se obrigue a escrever, não se obrigue a vangloriar algo que não é seu. Fazemos o que podemos e o que nos permitimos fazer, tire essa pressão do peito, respire e quando acontecer, aconteceu.

Cena II

(Davi levanta, conduz Isadora pelas mãos, a rodopia, valsam pelo quarto rindo, sorrindo, saltitando... Deitam no chão, se entreolham em meio àquela bagunça, Isadora puxa a garrafa de vinho que estava ao pé da cama, dá um gole. Davi dá outro gole.)

Isadora- Por que escreve?

Davi - (com ar de confusão, se senta e responde) Não há por que. Escrevo e assim como respiro, formo linhas, frases, que poderiam estar alinhadas lado a lado, frente a frente, uma embaixo outra em cima. Não me importa se é uma palavra escrita numa parede qualquer, como acontece com freqüência, e que minha mãe não saiba, mas por toda a casa há palavras escondidas. Não é que escrevo para ser ou para necessariamente ter algo escrito. Escrevo somente. “A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?”, já dizia Leminski. E assim digo agora, que como ele, e como tantos outros que não sabem: escrevemos porque naturalmente precisamos.

Isadora - (admirada e entusiasmada, se levanta completamente do chão. Anda para um lado e para o outro. Davi apenas a observa. Ela o olha como quem entendeu algo ou teve alguma ideia e dispara quase que sem respirar) Essa coisa toda de fazer e ser e mostrar que é, é tão mais necessária do que parece que é. Não que eu ache isso necessariamente uma necessidade, mas é necessário que sejamos quem necessitamos ser para com nós mesmos, necessidade versus querer. Sinceramente? Não sei nem do que estou falando. É que esses sempre serão temas eternos de uma mente inquietante, essa necessidade de contestar e adiar o que é comum, você não quer se tornar comum. Ser você, no caso, não é comum. Pensa se só adia tudo por puro marginalismo ou se de fato deveria contestar essas coisas e lutar pelos seus sonhos...

Davi - (completamente espantado) Nunca mais diga, jamais, que não é uma poeta. É mais do que qualquer um, pois fala antes de escrever e não escreve simplesmente porque não há essa necessidade. Seja você e aja como você, não necessite ser o que não é.

Isadora - (emocionada responde ao conselho) Serei eu, serei você, serei todos ao mesmo tempo, serei quem eu precisar ser. Jamais me forçarei a ser o que não sou e como já dizia também Leminski “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”.

Davi - (segura a mão de Isadora e completa) Se não já nos levou, quem sabe onde estamos e o que nos espera?

Isadora - (sorri, olha para Davi e fala) Tudo parecia ser triste, mas não era, era apenas belo em excesso. O escuro parecia nos engolir, mas não engole. Só nos dá a oportunidade de iluminar algo. Seremos nós, seremos livres, até que a noite nos sorria.

Davi - (feliz e orgulhoso) Até que a noite nos sorria.

Davi e Isadora - (Os dois chegam os rostos perto um do outro, acariciam face a face, se beijam longamente. Separam-se repentinamente, cada um vai para um canto diferente do quarto, cada um pega um caderno e um lápis, começam a escrever como desvairados. Param de escrever ao mesmo tempo, olham para o nada e dizem juntos) Já sorriu.



Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA) - Nathally

Nathally Amariá A. B. De Andrade.

brasileira, nascida no dia 15 de dezembro de 1994, em Cabo Frio, uma cidade no interior do Rio de Janeiro. 

Foi criada na mesma cidade em que nasceu por sua família, que por serem musicos, sempre a incentivou a arte.

Nathally Amariá foi uma criança que amava ler e começou a escrever poemas aos 11 anos.

Em 2012 terminou o ensino médio e se formou em professora no Instituto de Educação Professora Ismar Gomes de Azevedo, onde fez o curso normal.

Atualmente, Nathally Amariá mora em Cabo frio, estuda teatro e dramaturgia no Teatro Municipal de Cabo Frio; escreve textos, poesias e peças. Atualmente é professora e leciona em escola pública.


DO OUTRO LADO DA RUA

(texto de Nathally Amariá inspirado no conto “Homem que bebe sozinho” de Eduardo Galeano)

Personagens:

Edgar: Homem de uns 30 anos, sozinho, deprimido, estranho e observador.

Garçonete: Mulher de uns 20 anos, e que também é stripper. E vive mastigando chiclete.

Barman.

5 homens assassinos.

5 Dançarinas/Strippers.

A mulher dos peitos.

Figurantes.

Cenário 1 - Lanchonete: Um lugar claro, um balcão de frente pra porta de entrada, 3 mesas do lado direito e 3 do lado esquerdo, sobre as mesas uma toalha de mesa quadriculada.

Cenário 2 - Casa de Stripper: Um lugar com poucas luzes avermelhadas e outras azuis. Do lado direito da porta de entrada há um balcão onde o barman fica, e de frente para o balcão há um palco onde as sitrppers/dançarinas se apresentam. Há mesas redondas e cadeiras pela casa.

Cena 1

Edgar volta do trabalho e entra em uma lanchonete. Assim que se senta, uma garçonete vem anotar seu pedido.

Garçonete: Boa noite, qual é seu pedido?

Edgar: Quero um copo de leite.

Garçonete: Ok. Mais o que?

Edgar: Só isso.

(Garçonete sai em direção ao balcão, e antes que ela chegue Edgar a chama).

Edgar: Ei garçonete, por favor. Você sabe me dizer que lugar é esse aí na frente?

Garçonete: É uma casa de stripper. Por que? O senhor está interessado? (se insinua pra ele) Eu trabalho lá nos fins de semana. Toma meu cartão. (Ela tira um cartão de dentro do decote)

(Garçonete volta para o balcão, e Edgar fica desconcertado).

(Garçonete volta com o leite dele e sorri para ele).

(Edgar começa a tomar seu leite e observa tudo em sua volta. As outras pessoas na lanchonete, a garçonete quem também é stripper fazendo bola com o chiclete e do outro lado da rua a casa de stripper que chama muito sua atenção).

Cena 2

(Na casa de stripper há 5 mulheres no palco fazendo uma apresentação de burlesque, ficando seminuas e recebendo dinheiro de homens abjetos).

(Edgar entra na casa de stripper e senta no canto, perto do bar. Acende um charuto e fala com o barman).

Edgar: Por favor, eu quero um copo de leite.

Barman: (debochando) Você tem quantos anos? (risos) Leite? Você está brincando comigo né?

(Nesse momento entram na casa 5 homens com capuz atirando para todos os lados). (Gritos)

Blackout

Epílogo

(Edgar continua sentado em seu lugar e vê tudo quebrado, pessoas mortas e muito sangue).
(Edgar levanta, dá a volta no balcão e começa a falar).

Edgar: Mas que porra! Você não pode nem mais tomar um copo de leite nessa cidade sem antes tomar a porra de um tiro?

(Edgar pega a caixa de leite e vira em sua boca tomando-o desesperadamente, começa a andar pelo salão e sente uma fisgada no coração. Ele coloca a mão e a olha, sua mão está pintada com sangue).

Edgar: (rindo) Puta que pariu, puta que pariu, estou morto. (gargalhando)Sou um homem de sorte mesmo, morri tomando leite, fumando meu charuto e vendo peitos.

(Edgar cai sobre os peitos de uma mulher e enfim morre).

Fim