sexta-feira, 28 de novembro de 2014

"Atlantic City" e "O Inspetor Geral", fecham o ciclo de 2014, no OFICENA.

O OFICENA enquanto espaço que gera liberdade.

Pensar o OFICENA, dentro da cadeia produtiva das artes de Cabo Frio, é um exercício que permeia a busca de uma juventude que tenha opções variadas dentro de sua busca por uma prática artística. Como sempre dizemos, ali, o foco não é formar atores, até porque, se é isso que as crianças e jovens desejam, lá estamos par auxiliar. Nosso intuito maior é contribuir para a formação de cidadãos sensíveis que, dentro da prática artístico-teatral, possam suprir suas próprias demandas de afetividade, compreensão e descobertas, num mundo onde o mecanicismo é cada vez mais avassalador.

A união e o esforço de artistas, familiares e gestores, levou ao público de Cabo Frio, a qualidade necessária para um teatro
que se aprende estudando, mas, sobretudo, na prática e no contato.


Atlantic City

Cartaz criado por Gustavo Vieira - 2014
O projeto de encenação do OFICENA cumpre múltiplas funções dentro da cadeia produtiva do teatro local. Define trabalhos que possibilitam ao aluno-ator, tirar o máximo de proveito da linguagem teatral, enquanto trabalha, de forma subliminar: autoestima, autonomia e aquisição de conhecimento. Relaciona as artes teatrais aos avanços de sua própria vida, e faz do dele, o aluno, um ser "de-sejante" e "de-lirante" de estar à frente de seu tempo. 
Em "Atlantic City", de Italo Luiz Moreira, a discussão ambiental passa pelo reconhecimento das minorias (minorias em direitos civis alcançados) através da metáfora do índio "Curupira", a peça vai aos poucos, conscientizando o aluno-ator, do seu papel no mundo.
O processo de pesquisa, exigiu a redescoberta dos povos da floresta para um mergulho no seu canto e dança, além de uma ampla discussão no entorno dos acontecimentos que estão tão perto, tão ao lado e tão dentro de nossa realidade. A especulação imobiliária, o jogo de poder, a farsa montada nos tribunais e a interferência "desterritorializadora" da mídia de massa, leva o aluno infanto-juvenil, a perceber que, apesar de lúdico e divertido, o teatro discute a realidade no seu calcanhar de Aquiles.
Sentimos isso na própria pele, ao colocarmos em cena o aluno cadeirante Henrique de Bragança e o aluno especial João Pedro Pappini. Estes, concentrados, focados e na busca de seus objetivos, propuseram no grupo uma reflexão de suas próprias ações, criando aí, um forte elo que liga arte a um sentido mais profundo de cidadania. Incluir a parte no todo e sentir-se fazendo parte desse todo para a construção de um caminho harmonioso e de assimilação direta da realidade circundante. Neste sentido, os alunos tinham uma tarefa especial, construir uma área de sensibilidade nova para que a humanidade fluísse na mesma dimensão em que a arte foi proposta.

Um elenco plural e criativo, jovens buscando o sentido real de suas vidas, através do TEATRO.


"Atlantic City" propôs este mergulho, no que pese todo seu fomento estético para atingir um resultado formal, que disse algo como "estamos fazendo teatro acima de tudo" e, ainda, pudesse dizer, a cada indivíduo na plateia de quão importante é, fazer desse teatro, uma célula a mais de desenvolvimento do cidadão que, no futuro, pagará seus tributos à polis.


Curta a Centopeia Humana de Atlantic City

Classificação etária - LIVRE.
Texto: Italo Luiz Moreira
Direção: Italo Luiz Moreira e Jiddu Saldanha
Preparação corporal: Marcio Nascimento
Figurinos: OFICENA
Iluminação: Yuri Vasconcellos, Anngley Medeiros e Wagner Cabral.
Design Gráfico : Gustavo Vieira
Foto/Filmagem: AYAMÔ Arte & Cultura, Lara Rothier

ALUNOS ATORES: Elenco Atlantic Cyti (nomes artísticos): Igor Quintanilha, Yuri Quintanilha, Yasmim Quintanilha, Nina Coelho, Lydia Mendonça, Larissa Santos, Douglas Felipe (Sorrizo), Carolina Becker, Nayara Luiza, Daniela Cunha, Cleiton Fernandes, Jullia de Assis, Lucas Cedro, Luiza Cullen, Herold Oliver, Paula Carolina, Danilo Tavares, Daniel Arm, Mayra Rodriguez, Gabriel Rodrigues, Kéren Linno, Yasmim Ferreira, Clarissa Batista, Guilherme Carvalho, Ana Carolina Acha, Jully Braga, Nathalia Mafra, Nathalia Moura, João Pedro Papini, Vitoria Dias, Andreza Ferreira, Henrique Bragança.

O Inspetor Geral.

O processo criativo de "O Inspetor Geral", de Nikolai Gogol, traz para a marca OFICENA, um sentido alargado, de beber na fonte dos grandes clássicos, uma continuidade do projeto de trazer ao conhecimento da juventude cabo-friense, uma proposta de descobrir o manejo de uma linguagem mais universal com técnicas livres onde o aprendizado passa a ser, também, um exercício, como fizemos no projeto de "O Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna.
O desafio de encaixar na vida dos jovens, o teatro como uma possibilidade, passa também pela conscientização e descoberta de "quem é" este jovem que nos procura, qual sua bagagem trazida durante os anos de 2013 e 2014. Qual sua motivação, que desejos os impulsionam, de fato, a estar nas fileiras do OFICENA, defendendo a "bandeira do teatro"? Percebemos tratar-se de um jovem inquieto, perguntador, curioso e investigativo. Na sua busca por um "lugar ao sol", este jovem vem ao curso livre de teatro para recarregar suas baterias e "turbinar" seu lado emocional para, como um Don Quixote, enfrentar os "moinhos de ventos da vida".
O teatro, permite diversas experiências coletivas dentro de uma lógica que respeita as diferença de crenças, posição social, pluralidade psíquica, permitindo o alcance de objetivos afetivos, artísticos e sociais, compartilhados, a posteriori, em casa, na comunidade e em seus grupos sociais. A geração de oportunidade para que esses jovens encontrem seu lugar de troca e alargue seus recursos criativos, é e tem sido a tônica principal deste caminho percorrido até aqui.

Elenco coeso. Não foi pouco o esforço destes jovens atores-alunos para chegar a uma performance plástica de nível.


Nikolai Gogol,  portanto, abre essa janela para um teatro cheio de vitalidade e ajuda a construir, cada vez mais, uma ponte na direção de um teatro com possibilidades imensas em recursos linguísticos, políticos e poéticos. Não foi em à toa que, sua estreia, lotou o teatro, mesmo num dia de chuva, confirmando um dado que já suspeitávamos. O cabo-friense gosta de teatro e, gosta mais ainda se for, bom teatro.

Curta o Bolero de Ravel, no Inspetor Geral


Classificação etária - 12 anos
Texto: Nikolai Gogol
Direção: Italo Luis Moreira e Jiddu Saldanha
Direção Musical: Kéren-Hapuk e Nathally Amariá
Preparação Corporal e coreografia: Marcio Nascimento
Iluminação: Yuri Vasconcellos, Marcinho e Wagner Cabral
Equipe de adereços: Ivan Alves e OFICENA
Figurinos: Yuri Vasconcellos, Jiddu Saldanha e OFICENA
Execução de Figurino: Beatriz Ebecken
Contrarregragem: Clarissa Obregón, Aline Gomes, Lucas Rocha, Danilo Tavares, Claudia Mury e Camille Miranda.
Iluminação: Yuri Vasconcellos, Anngley Medeiros e Wagner Cabral.
Design Gráfico : Gustavo Vieira
Foto/Filmagem: AYAMÔ Arte & Cultura, Lara Rothier


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Espetáculo de Dio Cavalcanti arrebata o público.

Dio Cavalcanti em "Viés de Mim", teatro Municipal de
Cabo Frio - 25 de outubro de 2014.
O espetáculo "Viés de Mim", de Dio Cavalcanti, trouxe para o palco de Cabo Frio, uma convergência de diversas linguagens e no foco principal a música. A palhaçaria, a teatralidade e a dramaturgia fizeram a música autoral ganhar um espaço raro no palco principal da cidade. É indiscutível a qualidade dos músicos de Cabo Frio, entretanto, o mercado local estimula a música muito mais como um objeto de consumo, do que como um farol estético que permita discutir a subjetividade e o inconsciente coletivo da cidade, suprimindo a oportunidade do artista, de levar para o palco a sua própria linguagem, e expor seu material de invenção.
Dio Cavalcanti, seguiu a trilha de Azul Casu, um músico local, que sempre se preocupou em fazer do show musical um ambiente para circular o pensamento artístico e não apenas o virtuose e a execução deste ou daquele instrumento, acompanhado por uma voz afinada. Foi por isso que gostei do espetáculo "Viés de Mim". Mesmo sabendo que Dio Cavalcanti é um compositor experimentado, com formação sólida e experiência com plateias, na verdade, seu espetáculo é também um fortalecimento para aqueles que buscam expressar sua linguagem além de portador de reflexões que vão da ética ao brado em favor da independência criativa e defesa de um ofício artístico.
O espetáculo trouxe, entre outras delícias, uma trupe de palhaços com um tipo de interpretação voltada para o intimismo, afinal, trata-se de palhaços treinados para trabalhar em hospitais, que, diga-se de passagem, era o ambiente onde o espetáculo acontecia. O roteiro, mostrava Dio e seus convidados, como possíveis loucos que viviam presos num hospício e aproveitavam o tempo em que os "médicos palhaços" se ausentavam para interpretar músicas de autoria própria. O resultado, foi o arrebatamento do público, que ficou concentrado em cada detalhe do acontecimento cênico-musical.
Foi dentro deste ambiente lúdico que Dio mostrou a nata de sua produção musical, suas criações poéticas acompanhadas por uma banda bem sensível e musicalmente bem integrada.
A vibração positiva da platéia, ficava evidente a cada interação dos palhaços e em cada música que Dio nos mostrava, sempre acompanhada de sua performance de ator. A presença de músicos importantes da cidade como convidados  - Azul Casu, Ivan Alves e Paulo Mou  - contribuiu para o clima ainda mais profissional. No fim, era olhar no rosto de satisfação do público. Um espetáculo com uma hora e quarenta de duração, teatro praticamente lotado e aplausos emocionados. Dio é mais um pássaro de asas robustas que levantam voo em direção ao sucesso.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Dio Cavalcanti em Cabo Frio.

Conheço Dio Cavalcanti desde 2004, quando vim morar em Cabo Frio, durante os últimos 10 anos, pude acompanhar seu crescimento artístico e hoje, Dio é protagonista de sua carreira. Com uma linguagem atraente para todas as idades, ele conseguiu uma proeza. Seu canto é recheado de cena artística e sua linguagem vai do virtuose à composição além de uma pegada diferenciada na música. Um show que vai juntar visual e arte, palhaçaria e teatro e tudo com uma seleção musical de seu riquíssimo repertório. Agora, estamos todos, esperando com muita fúria, a chegada de seu novo show, com uma estréia retumbante em Cabo Frio.

Dio Cavalcanti em “Viés de Mim”
(Press Release)

“De perto ninguém é normal”, “De gênio e louco todo mundo tem um pouco”, “Louco é quem me diz que não é feliz”. Essas são expressões que relativizam este tão famoso estado de alma. Mas o que é loucura? O que é Utopia? Digamos que tudo que nos foge à realidade, que se esquiva do comum, que escapa do que é ordinário – ordinário no sentido de cotidiano – é considerado uma insanidade e, portanto, extra-cotidiano. “Pra mim a loucura é apenas um estado de ação. Ela pode ser altamente libertadora. ou limitadora. E essa resolução depende de muitos fatores.” No espetáculo “Viés de mim” Dio pretende trabalhar sobre a sutileza, a singeleza e a poesia da loucura, utilizando este lugar extra-cotidiano como mote para uma abertura lírica e poética sobre o tema. Nesta nova empreitada ele utilizará música, teatro e clown para viver e cantar sua visão de mundo. As composições são todas autorais. São criações que ao longo de 12 anos ele acumula. O cenário é de um manicômio estilizado. As cenas terão como alicerce as linguagens que ele pesquisa como ator, principalmente a do clown. 
O show terá a participação de três palhaços do núcleo de pesquisa “Ambulatório de Palhaços” que o próprio Dio coordena. Além da participação de três compositores da cidade. São eles: Azul Casu, Ivan Alves e Paulo Mou. “Os palhaços serão os ‘cuidadores’ desse manicômio estilizado que será montado no palco. O palhaço por si só já é uma figura transgressora que se expõe ao ridículo para flagrar, denunciar ou apenas insinuar suas próprias mazelas e conseqüentemente as mazelas da sociedade.” Dio. A grande cartada do espetáculo é tratar o tema da loucura através da relação desses ‘cuidadores-palhaços’ com o eu lírico do Dio trancado neste ambiente comprimido e ao mesmo tempo avassalador.

sábado, 27 de setembro de 2014

FESQ 2014 Comentário sobre as esquetes.

O Fesq, de 2014, seguiu a linha dos anteriores e já deixou saudades, os trabalhos apresentados por atores de diversas regiões do Brasil, participaram dos debates, uma roda muito divertida e de grande aprendizado pra todos. Segue um comentário breve sobre cada trabalho...

Artistas de todo o Brasil, participando dos debates para discutir suas produções.
 
Terça-feira – 9 DE SETEMBRO:

1º -“OS INVISÍVEIS”
Agromelados Cia de Teatro (Niterói-RJ)

Os invisíveis apresentou um conjunto de artistas jovens e ainda iniciando no ofício de atuação. O trabalho tem momentos empolgantes mas precisará de mais ensaios para encontrar uma unidade coreográfica e uma vocalização mais coesa no seu conjunto.
O figurino, embora não tenha, ainda, uma unidade estética em si, mostra um grande potencial. Já no quesito cenografia, a peça surpreende com as caixas de papelão, trabalhadas manualmente que, no inicio, formam uma espécie de muro, mas que, depois de desmontadas, cada uma traz um trabalho manual e artístico, como se fosse maquete de interiores, sem dúvida uma grande sacada do grupo.

2º- “RAYUELA”
Cia Plúmbea (Rio de Janeiro-RJ)

A cena apresentou um ótimo rendimento corporal, com belas coreografias valorizando a diferença de estatura e volume corporal entre a atriz e o ator. Mostrou um jogo pulsante que manteve o público interessado do começo ao fim. O trabalho coreográfico às vezes parecia frio e ganhava mais vida graças à iluminação criativa e bem executada.
É uma esquete repleta de informações corporais que às vezes parecia competir com o texto, tornando-o, em alguns momentos, pouco audível; leve-se em conta o fato de, os atores, por não conhecerem a "limitação" do teatro, deixaram de investir numa voz mais eficaz para dar conta do espaço cênico.


3º- “COM CERTEZA”
Coletivo Lá Vai Maria (Rio de Janeiro-RJ)

O grupo apresentou uma boa composição de cena e distribuiu bem, pelo palco, a presença de músicos ao vivo. A peça foi apresentada duas vezes e houve uma mudança considerável na iluminação, da primeira para a segunda apresentação, alterando, de alguma forma, o resultado final. Há controvérsia se o espetáculo melhorou um não, pois, com os músicos aparecendo ao fundo, ficava interessante ver a composição dos dois ambientes à meia luz. Já com os músicos mais escondidos, perdeu-se a interação dos mesmos, além do que, a luz da cena do primeiro plano também ficou um pouco mais escura.
O ponto alto da cena "Com Certeza" é a dramaturgia, entrecortada, com diálogos que vão se completando sempre depois de uma intervenção feita por uma som que vinha da plateia, isso dava a entender que os personagens eram manipulados pelo autor a dizer o texto de forma "incompleta"; ideia bem sacada e muito bem defendida pelo elenco.


4º- “A ARCA DE NOÉ”
Cia Os Bipolares (Cabo Frio/ Cordeiro-RJ )

O trabalho foi divertido, a plateia curtiu, fica claro que nem sempre, num festival de teatro competitivo o objetivo é ganhar. A dupla de atores deste trabalho marcaram presença no palco e ganharam experiência com sua hilariante comédia.

5º- “MATSURI”
Teatro MiMO (Rio de Janeiro-RJ)

Um trabalho diferenciado e raro, mostra uma dança "Butoh", de origem oriental, misturada com as técnicas ocidentais de mímica contemporânea. O ator, Tomaz de Aquino, com uma sensibilidade única, concentrou-se em sua ação no palco e arrebatou a atenção de uma plateia pouco acostumada com este tipo de linguagem, no entanto, o público manteve-se concentrado.
Matusuri, apesar de aparentemente hermético, foi além, mostrando uma fina camada de sensibilidade, valorizando signos como a pintura das unhas e mãos do ator/bailarino, além da pintura corporal feita com argila e o uso de talco no cabelo, que, em algum momento, sacudido, deu uma textura, fazendo um belo contraponto com a iluminação.

 
Quarta-feira – 10 DE SETEMBRO:

1º - “CENA REAL...É TUDO VERDADE”
Gene Insanno Cia de Teatro (Rio de Janeiro-RJ)

Trabalho provocador e inventivo, manteve a forma e o estilo sempre polêmico e reflexivo do grupo Gene Insanno, um grupo que registra um dos maiores níveis de frequência no festival de esquetes de Cabo Frio.
A ideia de levar pessoas do público para o palco para torna-los peças de um cenário, foi bem interessante. Destaque também, para o elenco, treinado, executando falas e situações que, embora aparentemente improvisadas, exigia fé cênica e convencimento por parte dos atores, que não decepcionaram.


2º - “SERIAL”
Teatro InVerso (Rio de Janeiro-RJ)

O forte deste trabalho foi a dramaturgia. Um texto bem escrito com uma respiração que lembra os filmes de suspense, que nos remete a um belo filme de Hitchcock. No entanto, a interpretação demasiado contida dos atores fez o trabalho se diluir numa linguagem muito mais cinematográfica do que, propriamente, teatral.
O uso de cadeiras no palco, entremeadas por fios que vão formando uma "teia de aranha" deu um toque sutil à trama embora o trabalho careça de mais carpintaria teatral, aprofundamento na técnica de atuar e uma forma mais ampla de pesquisa do gênero suspense para teatro, especificamente.





3º - “TIC TAC”
Cia 6º Ato (Rio de Janeiro-RJ)

Um solo teatral com que utilizou técnicas de audiovisual, mímica e um cenário que servia de suporte para projeções, ao mesmo tempo que enquadrava os movimentos e as expressões do ator. Tudo muito interessante, com grande potencial, no entanto o uso de material técnico acabou tornando o trabalho um pouco engessado, em função de ajustes que, muitas vezes, não dão tempo de fazer, quando se trata de um festival de teatro competitivo.
Sugiro ao ator Junior Vieira que simplifique sua produção ou treine exaustivamente seus técnicos para criar possibilidades caso haja imprevistos na hora da montagem. Apesar de alguns contratempos, o trabalho tem potencial, se bem ensaiado e profundamente discutido com a equipe responsável por sua realização.

4º - “O POVO, O REI E O BUFÃO DO REI”
Multifoco Cia de Teatro (Rio de Janeiro-RJ)

Trabalho com ótima direção de arte, mostrou crescimento entre a primeira e a segunda apresentação. Entretanto, o uso complexo de equipamentos de iluminação gera sempre algum tipo de situação indesejada que acaba influenciando o desempenho dos atores em cena. Apesar disso, o grupo está seguro e sabe o que quer. É um trabalho com grande potencial.
Os efeitos causados pelo uso de um complexo material de cena, deu ao grupo uma dimensão inventiva e criativa, saltando do uso de papel colorido, explosões e estalos que contribuíram de forma diferenciada à narrativa.

5º - “SE A CRIOGENIA FUNCIONASSE”
Grupo Beagle (Rio de Janeiro-RJ)

Atores bem treinados, com um ritmo cênico alucinante, fizeram um trabalho robusto e detalhista, com boa iluminação e uma grande empatia junto ao público. O que o grupo apresentou de inovador em seu próprio processo, foi uma maior teatralidade do texto. Com isso, a vocalização atingiu o mesmo nível do trabalho corporal.
O trabalho corporal é o ponto forte do grupo "Beagle". Ultizando técnicas que juntam dança contemporânea, expressão corporal e mímica teatral, os atores fazem uma alucinada triangulação que parece tirar o fôlego da plateia. Na minha percepção, o que faltou foi resolver o excesso de finais. A peça acaba tendo três finais. O primeiro ficou bom e até funcionou como "falso final", mas depois, parecia não acabar, talvez, por causa da queda de iluminação em resistência.
 
Quinta-feira – 11 DE SETEMBRO:

1º - “ESQUETE PARA QUATRO JOGADORES, TRÊS MÁQUINAS DE ESCREVER, DOIS ESPECTADORES E UM RINOSSORO”
Cia Sem Mim (Rio de Janeiro-RJ)

Muita ironia, tempo cênico típico de humor nonsense acompanhado de uma boa dose de teatro do absurdo, é um trabalho que lembra, em quase tudo, o livro "O Processo" de Franz Kafka. A cena mostrou uma intrigante e criativa trilha musical, com músicos executando ao vivo "Aquarela do Brasil", de Ari Barroso. Isso deu ao trabalho uma riqueza ímpar costurada com cenas cheias de humor.
Chamou a atenção o elenco bem afinado e mergulhado na proposta, embora, algumas falhas de ritmo tenham ficado claras devido ao fato de o próprio grupo não ter tanta certeza e/ou clareza de sua proposta. Tirando isso, é um trabalho que tem potencial, se for levado às últimas consequências.

2º - “MARIA CLÔ”
6 em Cena (Rio de Janeiro-RJ)

O uso de um rádio em cena deu o mote para uma sonoplastia que alimentou um clima tenso e dramático. A cena tem uma boa luz, e apresenta uma forma contida de interpretação. O que prejudicou as atrizes foi a falta de projeção da voz, isso fez com que o público perdesse uma boa parte do texto. O uso da iluminação, no entanto, criou uma sombra gigante ao fundo que trouxe plasticidade à cena.

3º - “VIDA DE CÃO”
Grupo Barbudos (Rio de Janeiro-RJ)

Belo texto e ótima interpretação do ator Ricardo Dias, que construiu a cena com movimentações a partir da plateia. Com uma vocalização potente, fez o texto chegar até o público com absoluta clareza. Deu para sentir toda a força da obra do poeta Paulo Leminski.
O trabalho apresenta uma complexidade que necessita mais pesquisa do ator, talvez um mergulho mais arrojado na relação entre o personagem central, um mendigo, e sua realidade no palco. Trata-se de um trabalho com forte potencial.

4º - “ELO”
Grupo Gabriel Bellas e Vanessa Garcia (Niterói-RJ)

Teatro coreográfico e altamente contemporâneo, teve uma sacada inteligentíssima da dupla de atores que triangularam no palco de forma criativa e sagaz. Ele, com um potencial vocal/musical impressionante, e ela com uma ótima expressão corporal e coreográfica. O trabalho encantou o  público tanto pela beleza da cena e também pela provocação e criatividade dos artistas envolvidos.

5º - “O COMA”
Grupo Teatral LoucAtores (Rio de Janeiro-RJ)

Direção segura e bem coreografada, mostrou um elenco com movimentação frenética e ótimas evoluções pelo palco. O equilíbrio da caixa cênica, a unidade entre figurino e iluminação, fez o espetáculo parecer "fácil" na mão de um elenco muito bem ensaiado e compenetrado em cada detalhe exigido na peça.
Embora tivesse um clima de comédia, o trabalho evitou lugares comuns e apresentou soluções diferenciadas, incluindo a composição das personagens e a unidade narrativa, formada a partir de um coro quase perfeito.

 
Sexta-feira – 12 DE SETEMBRO:

1º - “JOÃO-DE-BARROS”
Grupo de Teatro Mamãe Tá Na Plateia (Belo Horizonte-MG)

O ator Charles Valadares demonstrou estar bem a vontade com a técnica de mímica contemporânea, divertiu o público com belas gags gestuais além de impor uma voz bem interessante quando falou "gromelô"; sua transição para o personagem do imperador foi impecável, além de demonstrar habilidade no manuseio de materiais de cena.
Faltou adaptar sua cena para o espaço do teatro, de forma a ficar mais robusta e clara para o público, no entanto, seu trabalho pode crescer muito ainda.


2º - “FRENESI”
Grupo Café (Maringá-PR)

Uma das peças mais comentadas do Fesq, a esquete "Frenesi" chamou a atenção pelo seu experimentalismo. O elenco apresentou uma construção fluida através do silêncio, evitando cair na mímica. Conseguiu imprimir um ritmo de teatro experimental e absurdo, com pouquíssimo texto e muita ação dramática e física. Destaque para a direção que soube distribuir bem as atrizes pelo palco e fazer um jogo que permitiu diversas leituras por parte do público.
A sugestão é que o grupo seja mais cuidados em relação à finalização da cena. As atrizes estão concentradas mas o final abrupto provoca uma sensação de que o espetáculo termina na hora errada. É bom o elenco ficar atento a isso e aumentar mais um pouco o tempo da queda de luz em resistência, esperar a recomposição do elenco para saudar o público ao final.

3º - “SESSÃO MATINÊ”
Grupo Matinê (Rio de Janeiro-RJ)

Texto divertido e muito criativo, não há dúvida que a dramaturgia é um dos pontos mais fortes deste trabalho. Os atores, tiveram um bom desempenho e souberam fazer um jogo gostoso que resultou numa comédia elegante e com bom ritmo.
Faltou projetar mais a voz, para que o público pudesse sentir melhor a energia dos atores em cena.

4º - “ENQUANTO ESPERAMOS (E ELES NÃO SAEM DO LUGAR)”
Concreta Cia de Teatro (Belo Horizonte-MG)

Dois atores habilidosos e com grande potencial. Precisam melhorar o desempenho vocal e tirar o excesso de movimentação, entender o tempo dramático da obra de Samuel Beckett, para concatenar o imenso repertório de técnicas que possuem.

5º - “SOLO ALMODÓVAR”
Saltoalto Investigações Cênicas (Salvador-BA)

A Atriz Simone Brault deu um show de profissionalismo, demonstrou um alto nível de relação com o ofício de atuar. Soube exprimir várias técnicas durante sua performance:.  Voz bem colocada, ótima caracterização, figurino e maquiagem impecáveis, além de desenvoltura e firmeza na movimentação pelo palco.
Foi aplaudida em pé e agradou tanto o público como o júri. Seu trabalho cresceu da primeira para a segunda apresentação. Destaque para o momento em que ela canta. A finalização da cena é precisa e sua esquete finaliza no momento certo.


  

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O Fesq que nos fez sonhar mais uma vez!

Rodrigo Rodrigues apresenta o Fesq para uma platéia lotada.
Cabo Frio acaba de abraçar mais um grande momento de sua vida teatral. O Décimo Segundo Fesq, isso mesmo, já são 12 edições do evento que conseguiu entrar no calendário nacional como um dos mais expressivos acontecimentos envolvendo teatro, do país. Os números do Fesq impressionam, ainda que o teatro (Inah de Azevedo Mureb), seja relativamente pequeno, a equipe deu um jeito de criar um evento que transforma não só a casa de espetáculos em si, mas todo o seu entorno, lotado de gente interessada, como se fosse uma grande bolha de entretenimento artístico. Não faltam opções entre os artista e público. Oficinas gratuitas, Performances,debates, shows e até mesmo um sarau na entrada do teatro (arena Fesq), além de circulação pelos bairros.

A atriz bahiana Simone Brault arrebatou a platéia com uma performance
impecável.
Dentro da casa de espetáculos, tivemos a oportunidade de conhecer esquetes de qualidade impagável, artistas requintados como a poderosa e premiada atriz Simone Brault, o diferenciado artista Tomaz de Aquino, além do retorno de de grupos que estão se destacando no cenário carioca como a Multi Foco Cia. de Teatro e o surpreendente grupo Beagle, que se consagrou este ano com ótimas e merecidas premiações. O apresentador, Rodrigo Rodrigues, chegou ao seu auge, mostrando seus personagens de costume e surpreendendo com uma excelente dicção jornalística ao apresentar o Jornal do Fesq.
Nos bairros de Cabo Frio, performances de palhaçaria e pintura
nas praças.
A equipe de voluntários, prestativa, deu um show de autonomia, agindo de acordo como a circunstância pedia, sem nenhum tipo de centralização por parte dos organizadores, isso fez do fesq um evento ágil na forma de resolver seus problemas internos, que sempre aparecem, em momentos inesperados. Distribuídos pelo entorno e interior do teatro, a equipe central e os voluntários fizeram de tudo para garantir a festa, seus esforços e dedicação foram notórios e o resultado se confirmou. Mais um ano de sucesso para um evento que engrandece o calendário cultural de Cabo Frio. Destaque, também, para o incrível trabalho do videomaker Ricardo Amorim, que não só domina a comunicação audiovisual como faz tudo parecer fácil e acessível, consegue se comunicar com a platéia em tempo real, criando um glamour todo especial nos intervalos e na cerimônia de premiação.
Enfim, quando se fala de Fesq, é preciso tirar o chapéu para seus realizadores, que, por conhecerem tão bem a alma cabofriense, conseguem criar um evento não só de teatro, mas também de inclusão de todas as possibilidades artísticas da cidade. Este ano, a novidade foi a inserção do OFICENA - Curso Livre de Teatro, na ecologia artística do evento e o apoio à formação do TCC - Teatro Cabofriense de Comédia, um novo grupo surgido a partir do núcleo de dramaturgia, conhecido como NUDRA.

Com uma equipe histórica e a presença de novos voluntários, esta foto revela
o segredo do porque o Fesq dá tão certo.
No quesito linguagem, o Fesq continua sendo fiel a seus princípios, colocando na plataforma de disputa todas as linguagens possíveis, gerando um festival de diversidade artística e o que se vê no palco são peças experimentais e tradicionais, abraçando temas polêmicos e se desdobrando em estilos de performances diferenciadas. Este ano, destacamos o ator Tomaz de Aquino, que trouxe para o Fesq uma dança Butoh, algo raro, que exigiu do  público uma respiração diferenciada. O grupo de Maringá - PR,  Café, apresentou a peça "Frenesi", com uma respiração radical na proposta, levando o público a um estágio de concentração que vai além do espetáculo em si, é preciso um público crítico, pulsante e aberto e isto, foi um grande ganho do Fesq nos ultimos 12 anos. A formação de uma platéia trinada para ver espetáculos de todas as linguagens.

Com meia tonelada de alimentos arrecadados para as instituições de Cabo Frio,
Fesq dá sua contrapartida social em tempo real.
Falando em público, sem dúvida que a grande conquista do Fesq é sua relação com o público cabofriense, sua oferta de boas cenas está transformando a cidade num lugar especial para quem curte teatro de qualidade, ampliando o turismo cultural na região e até mesmo nas grandes cidades, certamente, a secretaria de turismo, poderia fazer um  balanço do impacto do Fesq como uma oferta de cultura para uma cidade conhecida nacionalmente pelo seu turismo balneário. Talvez, a vocação da cidade esteja, também, voltada para um turismo diferenciado, que vai além das praias e do meio ambiente, fiquemos atentos e valorizemos nossa ecologia cultural. Um teatro ampliado com mais lugares e uma nova casa de espetáculos já é uma necessidade confirmada.
Dentro de tudo o que foi dito aqui, é preciso destacar que o evento arrecadou meia tonelada de alimento não perecível, para doar às instituições de Cabo Frio. O evento, portanto, que proporciona vida cultural ativa na cidade, durante uma semana, é também um evento de grande inserção social.


domingo, 31 de agosto de 2014

De quando viramos manteiga derretida.

A trupe teatral FABRICARTE, agradou o público adulto e infantil ontem, dia 31 de agosto de 2014, no Teatro Municipal de Cabo Frio, Inah de Azevedo Mureb. Foi um show de encantamento com a cumplicidade de um público eclético. A peça teve uma "pegada" cênica que transformou até o expectador mais duro, "numa manteiga derretida"! Isso mesmo, não foram poucas as gargalhadas arrancadas das vísceras dos marmanjos que, junto com seus filhos, se esbaldaram de tanto rir, com direito a momentos de emoção. Sorrisos que não paravam de brotar, vindos de todas as direções.
Um pouco antes de entrarmos no teatro, um painel com fotos do grupo, mostrou que, durante os últimos 10 anos eles não pararam de trabalhar, e quem prestou atenção naquelas fotos, percebeu uma mesma formação de atores, com variações pra mais, em alguns espetáculos e sempre com um núcleo que se repetiu de um espetáculo para outro, sob a batuta de um mesmo diretor, Cesar Valentin. e que deu aos trabalhos, cada vez mais, a segurança de uma assinatura cênica com qualidade que só é possível conquistar, quando se respeita a qualidade e se defende uma marca.
As mudanças de textura e cor do cenário, ora por intervenção da iluminação, ora pela própria interatividade dos atores, deu grande vigor ao espetáculo.
Já o espetáculo da vez, "No Quintal da Imaginação", nos faz ver um elenco que entra em cena de forma simples. Ricardo Amorim, Manuela de Lellis e Rafaela Solano, se entregaram ás personagens e deixaram-se levar pelo contexto e o enredo da peça, assim, com seus corpos adultos na pele de crianças, fizeram suas performances focadas muito mais na ética do que na estética - explico  -  não era um exercício mirabolante de "linguagem contemporânea de teatro experimental chato"; foi apenas teatro e nada mais. Isso mesmo, aquela coisa milenar, onde, três atores simplesmente, decidem brincar e expor sua veia artística interpretando a forma mais traiçoeira de personagem: crianças, e, consequência de verdade cênica atenta, acabam arrastando o público para uma viagem incrível superando qualquer tipo de estereótipo com seus talentos certeiros.
Nada pode ser mais delicioso do que um cenário todo branco, que vai, aos poucos, sendo "pintado" de cabo a rabo pelas personagens. A peça começa completamente em branco e preto, com nuances de teatro de sombras e, de repente, uma guerra de tinta, pincéis e pós coloridos, dão cores ao espetáculo, causando frenesi no público que mal continha a vontade de invadir o palco; foram impedidos pela mão segura e atenta do diretor, Cesinha (Cezar Valentim) manteve tudo na quarta parede fazendo com que, a fluidez de cada cena acontecesse com um encadeamento e ritmo impressionantes. Destacou-se também, a profusão de adereços que foram surgindo de figurinos não menos surpreendentes. A harmonia entre cor e movimento, fez o espetáculo surgir aos nossos olhos como uma pintura modernista.

Manuela de Lellis, Ricardo Amorim e Rafaela Solano, saúdam uma platéia cheia. A família cabofriense compareceu e, pelo visto, gostou! Os aplausos foram conquistados, definitivamente.
Vale destacar a dramaturgia, um texto infantil que não pode, em hipótese alguma, ser confundido com "infantiloide". A caneta de Cesar Valentim é profunda e ao mesmo tempo alegre, deixou um rastro lúdico em cada respiração das cenas tão bem construídas. Foi bonito ouvir os estudantes-escritores do NUDRA (Núcleo de Dramaturgia do Oficena), comentarem sobre o excelente material disposto para a reflexão da platéia, como o fato de, a  peça tratar de um tema tão pesado como a censura e ao mesmo tempo questionar comportamentos políticos como a ditadura dos "marchas soldados", na verdade, as pequenas ditaduras existentes no seio da família brasileira, aquela que decide quando e como os filhos devem brincar, quando não os proíbem. Embora sejam "pancadinhas de amor", a ludicidade não mascarou a força do texto e a mensagem foi direto ao coração dos pais, que pareciam olhar para as crianças; dando razão às personagens da peça.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Creche na Coxia, mostra linguagem requintada no palco.

Valeu a pena esperar 6 meses até a estréia, ontem, dia 25 de Julho de 2014, do espetáculo "Ilíada",
adaptado por Silvana Lima, dramaturga renomada, que demonstrou ser ótima adaptadora. Na verdade, ela recriou Homero, dentro de sua própria linguagem, trazendo a fúria grega, para o quintal de Cabo Frio. Uma proeza artística que a muito tempo não víamos. Na saída do teatro, deu para ver as pessoas desnorteadas; um misto de deslumbramento e orgulho. Não foram poucos os expectadores que pronunciaram a frase: "Eles são minhoca da terra!", ou seja, artistas e artífices cabofrienses, mostrando seu trabalho in loco.
Não bastasse a riquíssima montagem com um ótimo retorno de público, o grupo deu um show de produção, ao mostrar um espetáculo com nível profissional que transcende nossas "fronteiras" e no final, a platéia ficou encantada, ao ouvir, nos bastidores, a vibração do elenco. Os gritos de felicidade, depois de uma gloriosa função. Sentiu-se claramente o quanto o grupo é unido e como a mensagem do teatro como um fato coletivo, estava ali, estampado na energia que emanou dos bastidores, pós espetáculo. Foi por isso e muito mais, que o público saudou o Creche na Coxia, aplaudindo-o de pé.
O espetáculo "Ilíada" é completo. Mostra um elenco afinado em todos os sentidos, um cenário multifuncional que permite uma gama de visualizações que culmina na figura lendária do Cavalo de Tróia. O uso de um andaime obriga o ator a sair da zona de conforto. É preciso ter disposição física, equilíbrio na respiração para dosar bem a emissão da voz, já que o espetáculo exige preparo físico, acima de tudo. Pendurado no andaime, um imenso tecido branco, ajudou na construção de imagens dinâmicas que trouxeram grande eficiência para a cena. 
Não foram poucos os momentos em que o corpo foi tão importante quanto a palavra, diga-se de passagem, o grupo agora, defende a tese do teatro físico, colocando em cena o ator numa perspectiva mais narrativa, menos clássico. Isso permite uma versatilidade de linguagem e uma utilização mais arrojada de todo o repertório de cada um. A expansão desse repertório, ficou claro, no desempenho do ator Rodrigo Rodrigues, que foi muito bem explorado em sua potencialidade,pela diretora, Silvana Lima. Rodrigo manteve seu histrionismo de cabaré, quando necessário, e saltou para áreas desconhecidas de sua forma de atuar. Demonstrou domínio do canto na composição do personagem Príamo, pai de Heitor, de forma totalmente convincente.

Teatro lotado numa noite nublada. Só uma coisa motivou o cabofriense a sair de casa; o orgulho de ter um grupo
de teatro bem profissional. O grupo Creche na Coxia...
Outra coisa que chamou muito a atenção, foi o revesamento do violão na mão de diversos atores do elenco, mostrando que o grupo construiu em toda a extensão, sua própria substância criativa. Aproveitou o talento de cada artista e utilizou-o bem, para cumprir todas as etapas do espetáculo. Ivan Alves, por exemplo, além de atuar, fez a construção das máscaras e adereços. Cada uma das peças, se encaixaram bem no contexto proposto pela concepção de cada cena. O figurino, o famoso "básico" adereçado ricamente, explorou formas diversas, além de ajustar-se bem a cada adereço.  Isso fez o espetáculo ganhar uma cara versátil que contribuiu para um visual artístico confortável aos olhos do público.
A Atriz Débora Diniz encontrou sua veia cômica e no momento necessário, arrancou emoção da paltéia, Marcelas Rimes, cresceu muito e seu desempenho e versatilidade encantou. Pedro Brandof, com seu talento circense, trouxe vigor às cenas físicas e Ravi Arrabal, esbanjou versatilidade. A atriz Julia Lima encantou com sua entrada em cena, batendo o tambor e puxando o canto de entrada, ela parece estar em completo transe, mergulhada profundamente na sua técnica de atuar. A atriz Vivi Medina, estava muito a vontade e soube tirar partido de sua presença em cena. Seu detalhismo e perfeccionismo na costura de cada personagem, mostrou sua rica performance, do começo ao fim do espetáculo. 
No conjunto, a musicalidade levou o grupo a um patamar elevado; vozes bem afinadas, tanto no solo como em coro. Isso tornou o espetáculo agradável, cheio de deleite para o público, que aplaudiu várias vezes em cena aberta. Não posso deixar de destacar aqui a cena das máscaras, impressionante o desfile pelo palco, exibindo um teatro com gestos minimalistas, bem desenhados, quase pantomimos, destacando uma pincelada a mais, no conjunto de elementos usados pela concepção e direção. Ilíada já marca como um grande momento da retomada do teatro em Cabo Frio.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Entrevista exclusiva com Mauro Silveira.

De uns tempos para cá, Cabo Frio tem se dado conta da presença de um grande profissional do teatro brasileiro. O nome dele é Mauro Silveira, nasceu em São Paulo e viveu durante muitos anos no eixo Rio-São Paulo, até assumir o Rio de Janeiro como sua morada. Fez teatro com os grandes nomes do teatro Brasileiro, fez TV, tornou-se administrador e organizador de grupos e companhias de teatro além de ser um grande trabalhador pela união da classe artística. 
Foi um prazer entrevistá-lo, e tem sido uma alegria, encontrá-lo trabalhando firme com seu novo grupo de teatro que vem ensaiando sem parar, o novo espetáculo que está vindo por aí. É com prazer que apresento aos leitores do blog Teatro Possível, esta grande figura do teatro brasileiro. Com vocês: Mauro Silveira...

Teatro Possível - Na tua  percepção, o que o teatro perdeu e ganhou nos últimos 40 anos, aos olhos de um observador atento.
Mauro Silveira -  Em 1970, quando estreei como artista profissional, fazíamos apresentações de terça a domingo, sendo 2 sessões quinta, 2 sábados e duas domingos. Como eu fazia teatro Infantil no Teatro de Arena de SP; eram 3 sessões e pouco depois comecei a fazer teatro juvenil; eram 4 sessões e ainda saíamos para jantar, curtis, namorar (fui bom nisso...)
Com o advento da TV Aberta, das TVs a cabo, do vídeo cassete, dos DVD,s, da Internet, cada vez mais temos dificuldades em tirar os expectadores de casa e colocá-los numa plateia de teatro. 
Na minha juventude, nós, artistas, tínhamos um inimigo poderoso e que nos tomava todo o tempo para que lutássemos contra ele: nos palcos, nos bastidores, nas ruas: A ditadura militar. A censura! Tínhamos a população a nosso favor. Hoje, sem esta motivação, temos que quebrar a cabeça para encontrarmos matéria prima (ideias) para sensibilizar o público a participar das nossas aventuras!

As muitas caras de um artista dedicado.
TP - Cite alguns momentos da sua vida artística que te fizeram manter-se firme no caminho.
MS -  Em 1970, no Teatro Ruth Escobar - SP - a Polícia Federal prendeu um dos atores de nosso espetáculo, o famoso "O Balcão", de Jean Genet, direção de Victor Garcia. Aquele ato de violência contra um colega me fez preocupar-me com a minha (e a dos meus companheiros) foi ali que assumi o compromisso de lutar contra o autoritarismo.
Outro momento foi quando estreei como Produtor Executivo com a peça "As Desgraças de uma Criança", com Marco Nanini, Marieta Severo, Wolf Maya e Camilla Amado... era aqui que eu queria: ser um homem de teatro: ator, produtor, diretor.. e em 1982 quando me formei na Rede Globo, como autor roteirista, na primeira turma, aprendi a criar matéria prima para espetáculos, teatro, cinema, televisão, rádio, show, etc... e por fim, quando me aposentei, olhei para trás, vi meu currículo e tive a certeza de que não poderia ter feito outra coisa: Sou artista com muita honra!

TP - Como você vê a carência de profissionais e serviços ligados ao teatro, em nossa região?
MS - A carência não é de pessoal, mas sim de espaços de trabalho para os profissioinais de artes cênicas, (Artistas e técnicos)... Faltam salas de espetáculos, faltam emissoras de TV cumprindo o "PRECEITO CONSTITUCIONAL DA REGIONALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO CULTURAL E ARTÍSTICA" e faltam políticas públicas que possibilitem a ampliação deste mesmo mercado de trabalho para os profissionais e de expressão artística para os munícipes.

TP - Que conselho você daria aos jovens que querem fazer teatro hoje, dentro da atual conjuntura local e nacional?
MS - Conhecimento... A pessoa que deseja navegar neste barco tem que se propor a buscar o conhecimento para poder expressar-se, transmitir, comunicar-se, sabendo o que, do que e como está fazendo. Não existe um ator se ele não tiver a capacidade de aprender, de apreender, de buscar a cultura e transmiti-la....

Atualmente, aposentado, Mauro é morador da Iguaba, em
Araruama e dedica-se a fazer teatro em Nossa Região.
TP - Como foi conviver com grandes nomes do teatro brasileiro, o que você aprendeu e ensinou para eles?

MS - Na peça que estreei, em 1970, a dona do Teatro e da companhia, protagonista da peça, a atriz Maria Della Costa; estava em seu camarim maquiando-se quando entraram duas garotas com um caderno à mão para entrevistá-la para um trabalho escolar. Ela ia respondendo, muito simpática, enquanto maquiava-se. De repente, veio a pergunta: "Dona Maria, de onde surgiu o teatro????", Maria, nesta altura, colocava os cílios postiços. Parou, olhou para trás, disfarçou e perguntou: - "Como é mesmo a pergunta?"; "Qual a procedência do teatro?"; e ela, soberana, respondeu: "Ora minha filha, teatro é teatro desde que o mundo é mundo!". Foi isto que aprendi. Tecnicamente, aprendi com Flávio Rangel, diretor de quem fui assistente aos 19 anos de idade, tudo o que existe numa caixa cênica. "Andar num palco é como pisar num ninho de ovos, estamos lidando com a sensibilidade daqueles que aqui trabalharam. Um olhar enviesado, pode estragar um espetáculo, fazer o ator perder a personagem. Portanto há que se saber andar pelos caminhos da emoção, da sensibilidade, do ofício de representar: Ser ator!" 

TP - Quais são suas leituras preferidas? E quais as suas maiores influências?
MS -  Além de ator-cantor/diretor/produtor/roteirista, sou pesquisador de História da Música Brasileira (tendo sido verbetista do Dicionário Albin de Música Popular). Minha especialidade são os anos 1900 (quando se instala no Brasil e Indústria de Gravação de Discos - CASA EDISON 1902), portanto, leio muito sobre a História da Música, que é ligada com a História do Teatro, próximo a História do Rádio e também passa pelo cinema e pela literatura. Gosto muito de biografias, também.

TP - Quem é Mauro Silveira por Mauro Silveira?
MS - Um chato que não bebe, não fuma, não usa drogas, não frequenta bares, não vê TV, não gosta de futebol e adora namorar. 
Quando eu era muito criança, minha mãe percebeu em mim algum talento para as artes e foi comigo até a TV EXCELSIOR de São Paulo, à época a emissora de maior sucesso e ensinou-me o caminho, como chegar, qual ônibus, etc... Assim, quando fiz 18 anos, saí de casa e fui buscar realizar meu sonho de ser artista.... e estou buscando realizá-lo até hoje. Um dia, quem sabe, eu consiga ser um bom profissional, um bom colega e que a humildade tome conta da minha vida, para que eu possa preservar minha emoção e o prazer de, sempre que possível, subir num palco e falar cheio de orgulho:
ESTE É O MEU OFÍCIO!!!

Este é um bate papo bem humorado que fiz com 
Mauro Silveira, curta este momento de 2011.


Mauro silveira, atuou na novela Cidade Jardim, em 2011, dirigida por Guilherme Guaral. Foi a primeira novela completa feita numa cidade do interior com produção local. Assista todos os capítulos, na ordem, basta CLICAR AQUI para ver Mauro Silveira e seu eterno brilho.