terça-feira, 4 de junho de 2013

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA)

Daniela Barbosa

Aos 08 dias de junho de 1974 surgiu, em Cabo Frio, Daniela da Silva Lopes. Nasceu e cresceu na terra da família materna, herdou veia artística e sangue baiano paternos. Formou família, anexou Barbosa ao nome e duas filhas à sua existência. Estudou, formou-se Assistente Social. Pelos anos afora desenhou, cantou, escreveu, pintou, mas não era prendada para bordar. Queria mesmo era atuar. Hoje vai navegando entre as palavras e as formas, experimentando a dor e a delícia do mundo do teatro.


IMAGEM E SEMELHANÇA
DRAMA

AUTORIA DE: Daniela Barbosa

CENÁRIO

Quarto de Rosa. À meia luz. Rosa de bruços, em diagonal, na cama revirada. Ao seu redor, notas de dinheiro espalhadas. Uma mesinha de cabeceira com um abajur, um despertador e um livro: O NOME DA ROSA. Aos pés da cama, uma penteadeira com: pente, escova, maquiagem, uma garrafa com resto de uísque e um pequeno pote de vidro. Em frente, um banco caído de lado. Espalhados pelo chão: um vestido, espartilho, cinta-liga, meias ¾ e um par de sapatos femininos.

PERSONAGENS

ROSA: Prostituta (20 a 35 anos). Foi estuprada pelo pai, que tirou sua virgindade. Olhos grandes, tristes, com olheiras. Usa uma camisola longa, com uma faixa e aberta na frente com decote mostrando parte dos seios. Cabelos desgrenhados e maquiagem borrada.

MEDEIA: Mulher com terno preto, vestida e caracterizada de homem.

CENA 1

(O despertador toca. Rosa levanta o braço, sonolenta, desligando-o. Pausa. Espreguiça-se, desliga o abajur e se levanta. Ajeita o cabelo e fecha a camisola. Levanta o banco e senta-se à penteadeira).

ROSA: (em frente ao espelho, limpando a maquiagem) Maldita luz do dia! Dói-me a cabeça, o corpo, a consciência. Por que hei de sempre acordar com cheiro de culpa e gosto de arrependimento? (olhar perdido) Mas o último, o de ontem... Tão protetor... (e, levantando-se de súbito) Que a consciência apodreça nos infernos! (bebe o resto de uísque e pega o pequeno pote).

(Medeia surge de trás das cortinas, aplaudindo pausadamente. Sorriso sarcástico. Pega o livro na cabeceira, vira-se para a plateia).

MEDEIA: Vejamos... página setenta e oito: “Se há uma coisa que excita mais os animais que o prazer é a dor. Vives, sob tortura, como sob o poder de ervas que provocam visões”... (fecha o livro e o devolve à mesinha)

(Rosa esconde o pote entre os seios e se afasta apavorada, indo de costas para a frente do palco).

ROSA: (virando-se para a plateia) Não és real! És uma alucinação!
MEDEIA: (balançando negativamente a cabeça) Mal agradecida. Vês como sou benevolente para contigo! Mesmo sendo tão maltratada por ti, venho oferecer-te uma chance de te salvares.

ROSA: (gargalhada sonora) Salvação? (expressão de medo, esfregando as mãos) Vejo como és benevolente, cara consciência! Estiveste escondida naquela garrafa, ou no pó que me queima as narinas, ou ainda no homem que roubou-me mais uma noite de vida! E me assombras como num castigo divino! Volta para minha mente e desapareces logo! (fecha os olhos com força)

MEDEIA: (andando e parando atrás de Rosa) O que fizeste de ti? Que criatura desprezível tu te tornaste...

ROSA: O que fiz de mim?! TU me fizeste? O que OS HOMENS fizeram de mim? O que o MUNDO me fez? (olhar irônico) Sou somente imagem e semelhança! (andando em volta de Medeia, recita):

“O amor fez-me puta,
a vida tornou-me mulher,
a morte, enfim, me seduz.
Aqui jaz um romance moribundo,
fruto do amor expurgado,
à luz do dia, silenciado
em sua lápide, esculpido em cruz.
(parando em frente à plateia)
Da paixão incestuosa
jorrou meu sangue imundo
por veias abertas a foice,
à espera do julgo final.
Dos subterrâneos do Éden
ao purgatório dos meus dias
escarro o pecado original
que me dilacera as entranhas,
enquanto liberta-me a alma fria.
Sou mais uma Eva, vadia,
comida num jardim qualquer.
Alimento divino do homem
sua filha, sua mulher”.

MEDEIA: (com ódio) Herege.

ROSA: Humana.

MEDEIA: Profana! Nem a morte te livrará dos teus pecados. Guarda esse arsênico, querida. Teu estômago é sensível, vais acabar vomitando. Tu és tão fraca que não consegues nem morrer sozinha. Toma. Uma arma. Atira. (aponta a mão em forma de revólver para Rosa) Despede-te de tua vida impura. Lava, com teu sangue, tuas mãos pecadoras. 

ROSA: (rosto entre as mãos, gritando) Que queres de mim?

MEDEIA: Sentir o gosto de fel na tua boca (aproxima-se do seu rosto, simulando um carinho) Quero teu sangue, pois a alma, a mim já pertence...
Rosa vira o rosto de súbito. Tira a faixa da camisola e amarra no pescoço, ameaçando enforcar-se. Começa a dançar e entra num transe.

MEDEIA: Vai! Cumpre tua sentença, se pensas que mereces tal alívio para essa alma enferma. (virando-se de costas) O inferno está em tuas mãos, em tua boca, em teu corpo. Aquele que te possuiu, mesmo morto, ainda está em ti... Levarás para onde fores. Morta ou viva, vês a lembrança daquela noite como uma espada transpassando teu peito frágil e pálido. Nem a morfina de tuas veias te alivia a alma. (voltando-se) Tu me provocas náuseas...

ROSA: Tu não existes. És fruto de minhas viagens alucinógenas...
MEDEIA: Sou fruto das tuas escolhas. (falando ao seu ouvido) Nasci de tuas entranhas. Cresci dos teus cortes, de tuas dores. Alimento-me de teus medos. Padeço em tua vaidade, em tuas ilusões. Viverás para sempre em mim e eu em você. Morrerei com tua morte. (aperta violentamente a faixa).
Rosa se solta e cai, apavorada. Medeia caminha à sua volta, ajoelhando à sua frente.

ROSA: (ofegante) Agora entendo... és real porque eu vivo. Sem mim, não és nada. Vives do meu pecado.

MEDEIA: (mãos postas em oração) Agradeço aos céus este momento sublime... Confessa teus pecados, pequena meretriz! Escolheste viver na noite, traçaste teu destino. Pede perdão! (gargalhada)
ROSA: A Deus?

MEDEIA: Não, imprestável! (irônica) A esta que vos fala. Por travares batalhas diárias contra mim. Logo eu, que sempre estive contigo. (olhando para a penteadeira) Quantas noites tu me deixaste esquecida em tua gaveta em meio a doses de absinto, seringas e culpa. (virando-se de costas para Rosa) Minha dor nunca foi suficiente para evitar as dores físicas nas quais mergulhas para fugir da vida.

ROSA: Pois em breve irás livrar-te de mim.

MEDEIA: Tua natureza é covarde, minha ninfa... Tu és uma névoa, um sopro, uma bruma que encobre a verdadeira natureza humana. Não passas de um ser delicado como nuvem que se desfaz quando o sol se abre. E qualquer vento mais forte dissipa tua valentia.

ROSA: Eis essência de nossa existência: do pó ao pó.
(Tira do peito o pote e o esvazia em sua boca. Senta-se à escrivaninha e dedilha um piano invisível, cantarolando uma melodia. Medeia vira-se e acompanha seus gestos com o olhar).

MEDEIA: (com desdém) Pareces realmente feita de pó...

ROSA: (olhar fixo) Do pó ao pó.

MEDEIA: Hum... poética. Ou devo dizer... patética? Tens certeza de que não tomaste o arsênico? Pareces delirar...
Rosa pega uma adaga na gaveta e a acaricia, serena. Abaixa a cabeça, abraçando o objeto.

MEDEIA: (balançando a cabeça negativamente) Achas que me assustas? A morte não acabará com teu martírio. Aliás... nunca fostes mártir. De Antígona, só tens a tragédia que é tua vida. Não és digna, sequer, de encenar esse papel.
(Rosa levanta e desequilibra. Limpa o suor da testa com o braço. Para em frente a Medeia e, com as duas mãos, aponta a adaga para o próprio peito).

ROSA: Tu és o demônio. Devo matá-la em mim!
(Luzes se apagam. Grito de dor. Silêncio).

ROSA: Era cianureto, e não arsênico.
(Luzes se acendem. Rosa de pé em frente ao corpo de Medeia no chão. Braços estendidos e adaga balançando nas pontas dos dedos. Virando-se para o público, solta a adaga. Fecha os olhos com força e novamente desequilibra, caindo de joelhos).

ROSA:

“Maldita carne que aprisiona
e veda-me os olhos da alma faminta
por romper com os grilhões da matéria
em decomposição.
Bendito torpor que a tudo torna tênue,
tal qual fio do líquido rascante.
Vinho rubro derramado sobre o corpo
Consagrado em sua imperfeição.
Amaldiçoado poema de minha vida,
obra inacabada de uma tragédia anunciada.
Concebida pelo pecado e
pelo perdão, esquecida”.

(Abaixa a cabeça novamente. Deita-se em posição fetal. Deixa cair o vidro vazio que rola pelo chão).

FIM

Daniela Barbosa

Um comentário:

  1. NEM TENHO PALAVRAS...AMEI ESTE TEXTO!!!
    FICO HONRADA EM CONHECER PESSOAS COM O TALENTO TÃO GRANDE. DANIELA SUA SENSIBILIDADE É INCONTESTÁVEL.
    OBRIGADA POR NOS PRESENTEAR COM SUA ARTE DE NOS FAZER PENSAR. BJSSS

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