domingo, 2 de junho de 2013

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA) - Bruna Alves

Bruna Alves.

Carioca, nascida como muitos outros em 26 de maio de 1995, morou em Niterói a maior parte da vida, e veio parar em Cabo Frio no ano de 2008.

Terminou o ensino médio em escola pública no ano de 2012. Agora continua estudando para passar para cinema na UFF. Estuda teatro e vive dramaturgia, seu sonho é um dia ser humilde mestre como os que a rodeiam.

Escreve desde que é gente, e ama as inutilidades da poesia e do ócio. Leminski é seu “pai” e seu “avô” Manoel de Barros.


                                Era Quase Não Fosse Tanto

Autora: Bruna Alves
Livremente inspirado na obra de Paulo Leminski

Personagens: Isadora (jovem, leitora compulsiva, 21 anos)
                     Davi (jovem, escritor, namorado de Isadora, 23 anos)
Cenário: Um quarto bagunçado, com livros espalhados, copos, pratos (restos de comida), cinzeiros e maços de cigarro. Uma cama mal arrumada, um notebook que toca Jeff Buckley, uma cadeira ao lado da cama.
Figurino: Davi- Apenas de ceroula.
               Isadora- Uma camisa masculina do Pink Floyd.
Gênero: Drama Poético

      
Ato Único

Cena I
Isadora - (sentada numa cadeira ao lado da cama com um caderno na mão, olhava para Davi) - Como pode ser tão doído e aparentar um sorriso tão verdadeiro?

Davi - (a olha, anda pelo quarto apenas de ceroula, dá um gole numa garrafa velha de vinho, uma tragada no cigarro... Senta na cama.)- É que tudo dói de tão belo. Esse antro de lembranças adolescentes e jovens, todo o mundo que não para do lado de fora dessa escuridão em que nos escondemos, o balão que se solta das mãos de uma criança. Cada segundo de beleza machuca.

Isadora - (sorrindo) Poeta sofre antecipadamente, na hora e depois. Já não é o mundo tão comum? Precisamos nos embebedar de vinho de dia e de noite, e continuar sendo clichê, e continuar repetindo sonhos que nunca se realizam.

Davi (pega seu caderno das mãos de Isadora, joga longe, a puxa e a beija com rebeldia. Isadora sai da cadeira e vai para a cama, pega um livro que estava jogado na cama, recosta sobre Davi e ameaça a começar a lê-lo, Davi diz:) Ler é bom, mas carne também é, e sua fraqueza de carne muito mais. Larga as linhas, deixe-me ler você.

Isadora - (com certa relutância se esquiva de Davi e seus braços, abre espaço para falar) Não sou poeta como você, ler é a única forma de me sentir próxima do que não sou e do que queria ser. Talvez poetize na prosa, mas quando tenho que passar para linhas, elas se tornam tortas e imperfeitas.

Davi - (se contêm, pega as mãos de Isadora e fala delicadamente) Não se obrigue a escrever, não se obrigue a vangloriar algo que não é seu. Fazemos o que podemos e o que nos permitimos fazer, tire essa pressão do peito, respire e quando acontecer, aconteceu.

Cena II

(Davi levanta, conduz Isadora pelas mãos, a rodopia, valsam pelo quarto rindo, sorrindo, saltitando... Deitam no chão, se entreolham em meio àquela bagunça, Isadora puxa a garrafa de vinho que estava ao pé da cama, dá um gole. Davi dá outro gole.)

Isadora- Por que escreve?

Davi - (com ar de confusão, se senta e responde) Não há por que. Escrevo e assim como respiro, formo linhas, frases, que poderiam estar alinhadas lado a lado, frente a frente, uma embaixo outra em cima. Não me importa se é uma palavra escrita numa parede qualquer, como acontece com freqüência, e que minha mãe não saiba, mas por toda a casa há palavras escondidas. Não é que escrevo para ser ou para necessariamente ter algo escrito. Escrevo somente. “A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?”, já dizia Leminski. E assim digo agora, que como ele, e como tantos outros que não sabem: escrevemos porque naturalmente precisamos.

Isadora - (admirada e entusiasmada, se levanta completamente do chão. Anda para um lado e para o outro. Davi apenas a observa. Ela o olha como quem entendeu algo ou teve alguma ideia e dispara quase que sem respirar) Essa coisa toda de fazer e ser e mostrar que é, é tão mais necessária do que parece que é. Não que eu ache isso necessariamente uma necessidade, mas é necessário que sejamos quem necessitamos ser para com nós mesmos, necessidade versus querer. Sinceramente? Não sei nem do que estou falando. É que esses sempre serão temas eternos de uma mente inquietante, essa necessidade de contestar e adiar o que é comum, você não quer se tornar comum. Ser você, no caso, não é comum. Pensa se só adia tudo por puro marginalismo ou se de fato deveria contestar essas coisas e lutar pelos seus sonhos...

Davi - (completamente espantado) Nunca mais diga, jamais, que não é uma poeta. É mais do que qualquer um, pois fala antes de escrever e não escreve simplesmente porque não há essa necessidade. Seja você e aja como você, não necessite ser o que não é.

Isadora - (emocionada responde ao conselho) Serei eu, serei você, serei todos ao mesmo tempo, serei quem eu precisar ser. Jamais me forçarei a ser o que não sou e como já dizia também Leminski “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”.

Davi - (segura a mão de Isadora e completa) Se não já nos levou, quem sabe onde estamos e o que nos espera?

Isadora - (sorri, olha para Davi e fala) Tudo parecia ser triste, mas não era, era apenas belo em excesso. O escuro parecia nos engolir, mas não engole. Só nos dá a oportunidade de iluminar algo. Seremos nós, seremos livres, até que a noite nos sorria.

Davi - (feliz e orgulhoso) Até que a noite nos sorria.

Davi e Isadora - (Os dois chegam os rostos perto um do outro, acariciam face a face, se beijam longamente. Separam-se repentinamente, cada um vai para um canto diferente do quarto, cada um pega um caderno e um lápis, começam a escrever como desvairados. Param de escrever ao mesmo tempo, olham para o nada e dizem juntos) Já sorriu.



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