sexta-feira, 21 de março de 2014

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA)


Kéren-Happuk 
estudou magistério no colégio Professora Ismar Gomes de Azevedo, atualmente faz faculdade de letras na UNOPAR. Frequenta o OFICENA (Curso Livre de Teatro de Cabo Frio) desde março de 2013 e faz parte do NUDRA (Núcleo de Dramaturgia do Oficena). É poeta e haicaísta, além de atriz, autora.

É membro fundadora do grupo de teatro "Entre Palcos" onde atua na peça "Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna, direção de Ítalo Luiz Moreira e Jiddu Saldanha. Como aprendiz de dramaturgia já escreveu mais de 7 cenas curtas.

"OS VAMPIROS ESTÃO COM FOME"
De Kéren-Hapuk

PERSONAGENS: # FAMÍLIA REMPSON, FAMÍLIA DE VAMPIROS, CONSTITUÍDA POR:
-ROMANO(PAI) – NEURÓTICO, OLHO ARREGALADO. TEM A FALA NERVOSA, METÓDICA, MANÍACA E PAUSADA. O CORPO OSCILA ENTRE CURVADO E ERETO.
-MARGÔ (MÃE) - DESPROVIDA DE RACIOCÍNIO LÓGICO/INTELIGÊNCIA
-ALBEC (FILHO) - ADOLESCENTE, SÉRIO, APÁTICO, INDIFERENTE.
-DIANA (FILHA) - ADOLESCENTE, DEVASSA, IRÔNICA , DEBOCHADA, FALA EM ESPANHOL PARA SER SEXY.
-BECCA (FILHA) - CRIANÇA. TRÊS A SEIS ANOS. CHORONA, VIVE COM SUA BONECA NO COLO.TODA VEZ QUE ELA CHORA ESCANDALOSAMENTE, EM POUCOS SEGUNDOS SE ACALMA.
-JENOR (PAI DE ROMANO) -VELHO RABUGENTO, MAL HUMORADO.
# ENTREGADOR DE PIZZA – UM HOMEM GORDO, ALTO E FORTE.
CENÁRIO: CASTELO - Residência da família Rempson, sala de estar. Decoração clássica. 


CENA I

Castelo. Sala. Jenor está sentado em uma poltrona.
Margô, Albec, Diana e Becca, sentados no sofá. Romano em pé.


Albec – Por que uma reunião de família, papai? Nós nunca fizemos uma reunião de família.

Diana – Si, papi. Por que una (irônica) reunion de família?

Romano - Acalmem-se crianças. Uma reunião de família é extremamente importante. Especialmente esta.

Becca – Paipaipai, a Lili faz parte da família também, não é?

(Romano fita a boneca) – Sim, Becca, minha filha querida.

(Jenor se levanta nervoso) – Não faz, não! Uma família deve ser alimentada, e não podemos alimentar uma boneca. Aliás, mal podemos nos alimentar.
Becca chora escandalosamente.


Romano – Exatamente isso, papai. Não podemos nos alimentar. Por isso convoquei essa reunião.

Jenor – Pois devia de ter convocado um jantar, um jantar não, um banquete. Pescoços suculentos para todos os lados. (todos lambem os lábios) Olhe. Veja bem, como estou amarelado, seco igual os pescocinhos das vítimas que você me traz, com aqueles sangues aguados. O que essas garotas comem?

Albec – O que elas não comem, vovô. Papai não sabe escolher as vítimas.

Diana – (provocando, rindo ) Papi, papi, papi, só traz tica magrita, anorexita. Papi, podem ser as mais bonitas, mas não alimentam.

Jenor – Você é um cabeça oca, não sabe escolher vítima, como vai alimentar sua família? Até a minha geração nós fazíamos jus ao nome Rempson. Você é uma decepção, derrotou o nosso nome.

Margô – Na verdade, seu Jenor, essa família já estava derrotada. Foi quando o senhor começou a vender sangue alcoólico para os vampiros.

Jenor – (cortante) Mulher burra, caluniadora. Aqueles vampiros morreram porque eram alcoólatras e não sabiam beber. Bebiam e bebiam até cair e morrer.

Romano – (nervoso) Chega! Não quero saber desse veneno, não quero saber de boneca, não quero saber do nome da nossa família. (ansioso) Acontece que nós não podemos caçar na cidade, pois na cidade tem detector de vampiros, que por sinal tem um som de alarme gritante, horripilante, devastador. E depois que a humanidade descobriu os vampiros, as pessoas não andam mais em lugares desertos. Não passa uma alma sequer por aqui...

Albec – Vampiros não são demônios que se alimentam de alma. Precisamos de pessoas vivas, com sangue pulsando na veia.
(todos lambem os lábios)

Margô - Por que não caçamos uns animais? Aqueles que vêm da mata e passam por aqui?
(todos horrorizados, nauseados, exceto margô) AARGH

Jenor – Mas o que é isso! Que mulher burra. Não sabe que sangue de animal não dá pra se beber?!

Romano – Sangue de animal é pior que o sangue alcoólico do papai.

Margô – Então por que não pedimos uma pizza ?
(Romano fita o ar, rindo, iluminado por uma ideia)

Jenor – (grita) Pelo amor dos deuses das presas, pare de falar! Só sai besteira dessa boca.
Becca chora escandalosamente.

Margô a pega no colo, acalmando-a.

Romano – Margô. Meu amor. meu amorzinho. Que ideia maravilhosa. Você é genial. Excepcional. Albec, ligue para a pizzaria, peça uma pizza, e peça que mandem o entregador mais forte que eles tiverem.

Jenor – Você está louco? Por acaso vai pedir uma pizza de sangue?

Diana – (zombando, irônica e rindo, faz sinal de telefone com a mão.) Olá, eu quero pedir uma pizza carregada de sangue. De preferência tirado do pescoço da vítima agorinha.

Romano – (à Diana, cortante) Pare de implicar, petulante.

Margô – (à Albec) Meu filho, peça umas quatro pizzas, uma só não será suficiente. Seu avô tomou tanto sangue alcoólico que queimou o estômago. para ele se sentir satisfeito, precisa de uma só para ele. Coitado...

Jenor – Está zombando de mim mulher ? Me respeite.

Romano – (irritado) Silêncio! Como vocês são...são... (mudando de humor) Nós não vamos comer a pizza... Vamos comer... O entregador.

BLACKOUT


CENA II
Castelo. Sala. Jenor, Diana e Albec.

Jenor – Que demora. Ligamos há um século e essa pizza ainda não chegou.

Diana – Mi abuelo, mi querido abuelo, um século es la idade que tienes o señor. (gargalha)

Jenor – Acontece que tenho três séculos e sessenta décadas,(irônico) querida netinha.

Albec – (à Diana) Vá rever seus conceitos de graça.
[Sai Diana]

Jenor – Como você aguenta sua irmã? Ela é maluca, e fica falando em espanhol...

Albec – Ela não sabe falar em espanhol, é maluquice dela. Aliás, todos nessa casa são malucos. Para começo de conversa, nós somos vampiros, e como se esse fato não bastasse...(olhar distante) O único lugar onde a sanidade habita, nesta casa, é em minha vampiresca pessoa.
[Sai Albec]

Jenor – Garoto estranho. Realmente essa é uma família de loucos.
A campainha toca.

Jenor – (arregala os olhos, ansioso) Chegou, chegou. Demorou mas chegou.
Entra Romano correndo.
Romano – Ouvi a campainha tocar. Ouvi, não ouvi? Ouvi, não ouvi ?
Romano abre a porta.
Romano – Ora, ora, ora. Boa noite. Seja muito bem vindo.
Entregador – Boa noite, senhor.
Romano – (pegando a pizza, coloca sobre uma mesa) Sim! Foi daqui que pediram a pizza. Você não quer entrar?
Entregador – Não, senhor. Obrigado. Eu só entrego a pizza, recebo o dinheiro e entrego mais pizza.
Romano – (puxa-o para dentro, fecha a porta) Ora, vejam só. Pare com sua timidez, homem.
Jenor – Sim. Fique tranquilo, nós não mordemos. (a Romano) Ele não é muito magrinho? Meio anêmico ?
Entregador – Sou o que? Eu só estou fazendo meu trabalho. Tentando fazer o meu trabalho. Os senhores por favor, acertem a conta e me liberem porque eu ainda tenho muita entrega para fazer.
Entra Diana com Becca no colo. Becca segurando com uma boneca sem cabeça.
Diana – Papi, a Becca está comendo as cabeças das bonecas novamente. Está achando que são bebês de verdadade. Coitada...
Vendo o entregador, deixa Becca com rapidez e desleixo
no colo do avô e se exibe para o entregador.
Diana – (indo até o entregador, esfregando o corpo nele) Hola, tico, como estás?
O entregador reage com indiferença, impaciente.
Romano - (puxa Diana) Ora, criatura desavergonhada. Se dê o respeito. Respeite a presença de seu pai, de seu avô. Respeite (ênfase) o nome da nossa família.
Diana da uma risada. Tira a boneca da boca de Becca. Implica com seu avô fazendo
carinho na cabeça dele. O avô briga com ela, retirando a mão dela de sua cabeça.
Becca vai comer a pizza.
Diana senta no sofá e fica mexendo no cabelo seduzindo o entregador.

E você, seu entregadorzinho de pizza, respeite minha família. Não olhe assim para minha filha. Tenha modos em minha casa.
O entregador ia responder, interrompendo entra,
Margô bêbada com uma garrafa com sangue alcoólico na mão.


Margô – Huuul! (cambaleando até Romano) Romano ano, meu amor, minha vida, minha crosta de sangue doce, meu amor... (Avista o entregador muda a entonação.) Mmmmm...(Cochicha com nervosismo no ouvindo de Romano. Porém em alto e audível voz. Todos escutam) Romano, (aponta para a porta com movimentos repetidos) olha na porta... Nosso jantar... Que lindo. Ele parece suculento. (cambaleando até o entregador, examina seu rosto) Mmm... Sangue saldável, muita proteína, vitamina A, B, C, D e fartura de gordura hidrogenada...

Jenor – (arrancando a garrafa da mão de Margô) Onde você achou isso, mulher?
Jenor aprecia a garrafa, se afasta, se aliena e saboreia a bebida,
Margô abre a boca para falar, interrompendo entra Albec.
pouco bêbado com uma garrafa de sangue alcoólico na mão.

Albec – Vovô, como pode esconder isso por tanto tempo? Com que coragem o fez? Isso é esplendoroso, é divino, é lírico. Eu nunca bebi algo tão...tão...
Diana grita

Diana - Becca?! Mami, olha, a Becca comeu la pizza toda e morreu. Becca, Becca.
Margô desmaia nos braços do entregador, ele a mantém em seus braços.

Romano - (pega Becca no colo) Oh deuses das presas! Nãããão.

Albec – A Becca não está morta. (pausa) Uma pizza não vai mata-la, vai apenas deixa-la com mais fome. Ela faz isso para chamar a atenção. Vocês que nunca perceberam. (à Becca) Becca, chega, (coloca a garrafa no nariz dela) sabemos que você não sofreu uma síncope.
Becca chora escandalosamente.

Albec – (avista o entregador e vai até ele)Olá! Então você é o famoso entregador?! Sim, está famoso por aqui. Estamos todos famintos e você é a nossa salvação. (oferece a bebida para ele, ele aceita)
O entregador se apaixona por Albec.

Romano – Albec, pare de ser estranho. (ao entregador) Não dê muita atenção, ele é um pouco alheio.(tira Margô dos braços do entregador) E solte minha esposa. (coloca a esposa no sofá)

Albec – Papai. Diana. Senhor Jenor. Senhor Jenor. (Se reúnem) Primeiro, não se preocupem com a mamãe, ela faz isso para chamar atenção. Em breve ela acordará e saberá que Becca está bem. Pois bem , já sei como vamos matar nossa fome. Vejamos! (dissimulando) O que Becca? Quer água ? Oh queridinha, claro. (ao entregador) Como é mesmo o seu nome ?

Entregador – (sorrindo) Osvaldo.

Albec – Mmm... Osvaldo?! Belo nome. Então, Osvaldo, minha irmãzinha Becca, precisa de água. Você poderia fazer a gentileza de acompanha-la até a cozinha e servi-la? Eu o acompanho logo em seguida.

Diana – (brincando pega a garrafa da mão do avô e levando até a menina) Temos água aqui. Toma Becca.
Jenor – (pega a garrafa da mão de Diana) Dê-me isso, menina irresponsável, deixa de maluquice.

Albec – (à Diana) Nós estamos famintos, famintos, muito famintos. (todos lambem os lábios) Essa é nossa chance de ouro, não a estrague com suas brincadeiras sem graça. ( Ao entregador) Osvaldo, você pode
fazer essa gentileza?

Sai Osvaldo com Becca.


CENA III
Romano – Mas meu filho, não entendi sua estratégia.

Albec – Eu explico! Percebi a bandeira que ele deu. Então usei isso ao nosso favor. Tem esse estereótipo firme, sério e grosseiro, porém, não passa de uma Maricota. Eu conheço esse tipinho. Escandaloso. Eu não sei se vocês sabem, mas os Julians também estão famintos, aqueles vampiros escassos de inteligência, e por isso, invadiram a cidade, matando um número considerável de humanos. E por isso, A polícia e os caçadores de vampiros estão fazendo ronda até Vila Rainha, ou seja perto do nosso castelo. Concluindo, quando atacarmos o entregador, na certa ela fará um escândalo que será ouvido de Vila Rainha e os policiais e caçadores viram nos matar.

Romano – Meu filho, que orgulho. Você é um gênio. Esqueci que na cozinha temos o sistema de isolamento de som.

Diana – Claro, papi, aquelas vítimas que o señor nos trazia. Aquelas garotita magrita, anorexita.

Jenor – É meu filho, não sabe mesmo escolher as vítimas. Eu por exemplo, para fazer o sangue alcoólico só uso sangue de...

Romano – Está bem, papai, está bem . Vamos logo para a cozinha. Vamos acabar logo com isso.
Margô grita escandalosamente, os outros se assustam e olham. Becca está andando suja de sangue, com a cabeça do entregador na mão, chupando o pescoço.


FIM

KÉREN-HAPUK

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