terça-feira, 15 de novembro de 2016

Teatro Poesia: Um caminho aberto para quem faz teatro!

Uma forma de fazer teatral onde a
dramaturgia é construída
a partir da voz do poeta.
Um flerte com a literatura.
..



Bruno Peixoto - Prêmio de melhor ator no Festival Carioca Camarim das Artes IV, 
em 2010.
Em 2008 dirigi o ator Bruno Peixoto, na cena "O Cão sem Plumas" um poema de João Cabral de Melo Neto, que conta um pouco a vida ao longo da paisagem do Rio Capibaribe. Anterior a Morte e Vida Severina, o "O Cão sem Plumas" é um poema épico e de profunda inspiração. Ver a evolução do ator Bruno Peixoto, construindo seu personagem narrativo, durante a emissão da fala poética do texto, foi uma viagem extremamente prazerosa. A peça foi recebida muito bem em Cabo Frio, tivemos público razoável, mas o público saía com uma pergunta no ar: "Isso é Teatro"?
Em 2009 criamos o espetáculo "Jornada de Paz, Tempo de Guerra", com as atrizes Louise Marrie, Bárbara Morais e o ator Bruno Peixoto. Dessa vez, fizemos uma conjunto de poemas que incluía "Cidade à Contraluz", poema de minha autoria e de Herbert Emanuel, "O Homem as Viagens", de Carlos Drummond de Andrade; "Canto ao Homem do Povo - Charles Chaplin", também de Drummond, finalizando com o poema "Vem por Aqui" do poeta português José Régio, além de "Os Lusíadas", de Camões, feito em forma de rap, com direção musical de Ivan Tavares. Foi uma experiência incrível fazer Teatro Poesia com o primeiro grupo de teatro que fiz parte, de fato, em Cabo Frio.

Grupo "Operários do Teatro Brasileiro" - transformaram o poema
"Estatutos do Homem" de Thiago de Mello, numa cena de teatro poesia
que arrancou fortes aplausos do público.
Mas lembro que no final da temporada as atrizes do grupo me questionaram, perguntando quando, o grupo faria "teatro de verdade". A frase caiu como uma paulada na minha cabeça, percebi que a tradição do teatro poesia estava quebrada ou, talvez, nunca tivesse existido em Cabo Frio.
Em 2016, resolvi retomar a reflexão sobre o Teatro Poesia mas, para isso, foi necessário criar um evento inteiro voltado só para o gênero. Aproveitando uma brecha na agenda do teatro; eu e Nathally Amariá, arregaçamos as mangas para criar um evento totalmente voltado para o diálogo com a literatura e que tivesse como ponto de partida, o Teatro. Com isso, conseguimos trazer para o bojo do acontecimento, alguns artistas remanescentes do Fest Solos, além de estudantes de teatro. Lançamos um edital e conseguimos algumas inscrições. 


Henrique Selani, escreveu e co-dirigiu a cena
"O Poeta e Suas Máscaras", pelo grupo de arteterapia
"Casulo Artes".
Sabendo que seria um sucesso, fizemos convites para outros artistas, lançando-lhes o desafio de montar algo teatral que tivesse como fundo um poema de algum poeta consagrado, ou não. A ideia pegou e as pessoas começaram a preparar suas cenas e tivemos a alegria de vê-las concretizadas no POESIA DE CENA - 2016. Tão logo o evento encerrou, percebemos pudemos rever algumas dessas cenas no FESQUIFF IV, um festival estudantil organizado pelo IFF - Instituto Federal Fluminense, de Campos, com edição extensa a todas as unidades em todo o IFF'S do Rio de Janeiro, com edição em Cabo Frio, assim, pudemos rever as cenas "Vidas em Pétalas" parceria entre os grupos "OTB" e "Sem Foco". Também pudemos contemplar a repetição da cena "O Poeta e Suas Máscaras" do grupo arte terapêutica "Casulo Teatral".


Recebida com entusiasmo, no FESQUIF IV, "Ádeus Mundo" contou com um 
time de primeira, formado por Celso Guimarães, Sarah Fortes, Kalil Zarif, 
fotografados por Manuela Ellon e dirigidos por Kéren-Hapuk.
Recentemente, no OFICENA - Curso Livre de Teatro, algumas cenas criadas pelos alunos para nosso festival de cenas curtas, foram compostas de textos poéticos, dois que se destacaram foram "Vida em Pétalas" de Gabriela Caetano e "Ádeus Mundo" de Chrystian Gatti. O primeiro já teve diversas apresentações em espaços variados e eventos diferentes, o último, uma belíssima cena de Teatro Poesia, dirigida por Kéren-Hapuk, atriz e diretora da nova geração, que traz sua melancolia irreverente como marca registrada de sua estética.
No IFF-Instituto Federal Fluminense, de Cabo Frio, o primeiro experimento estético teatral do grupo IFFCENA, da própria instituição, é a cena de Teatro Poesia "Estação Poesia", que junta poemas de diversos poetas brasileiros, antigos e contemporâneos.


"Estação Poesia" - Momento de força e energia criativa envolvendo 
adolescentes que descobrem, na poesia, um pouco de resposta para suas 
próprias perguntas.
O resultado foi promover a leitura perante os adolescentes que fazem parte do grupo, ampliando seu contato com a poesia de qualidade gerada na terra-brasílis. Conhecimento nunca é demais, e a poesia, quando vira tema ou assunto de algo, faz surgir mais poesia. A divulgação da escrita vem a reboque da construção de cenas com poesia e isso faz gerar uma demanda de novos leitores, além de promover um recondicionamento crítico para se pensar melhor as fazes da própria vida.


*** 
Desde as incursões do grupo "Bicho de Porco", em 2008 até agora, 2016, já se passaram 8 anos e novas sementes de Teatro Poesia foram lançados na cidade de Cabo Frio, agora, a cidade conta com um evento específico para tratar deste assunto de forma a potencializar e ampliar para a pesquisa teatral essa forma de expressão tão bela e profunda. Com isso, uma espécie de retomada de uma linguagem que estimula o ator novo a ler mais e conhecer profundamente sua própria literatura, promovendo o texto poético, amplia-se a participação do conhecimento e da metáfora como prática criativa, além do exercício constante com a palavra. O teatro poesia é uma forma profunda de levar a arte teatral a patamares onde só a imaginação definirá o limite.                                                                   

Jiddu Saldanha - Professor de teatro e Blogueiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário