Vez ou outra encontro Marcelo Tosta pela estrada da vida. O artista mergulhado no mais profundo da arte, sempre me impressiona. A princípio você o encontra na simplicidade da vida. Ele troca algumas idéias, fala de coisas profundas, conta o que está fazendo o que está lendo, o novo quadro que pintou, mas nunca é arrogante, nunca se diz dono da verdade e não se sente melhor do que ninguém.
É que Marcelo é desses caras que não consegue ser superficial, sentar ao lado dele sempre vai ser uma viagem para um desconhecido qualquer. Ele não vive apenas uma vida de quem é comum, ele vive a vida do ouvido pra dentro, num submerso de si mesmo, num delírio "artaudiano" e "vangoguiano". Este é o motivo desta entrevista, eu quero mostrar aqui, um recorte de sua pessoa, sua figura, seus ideais, mas visto por suas palavras, narradas pelo seu coração.
Com vocês, MARCELO TOSTA!
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Artaudiano e Vangoguiano, Marcelo Tosta é cidadão do mundo. O mundo é seu quintal... |
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"Eu nunca estive fora
do movimento
Teatral da cena de
Cabo Frio, nunca! "
Jiddu Saldanha - Como é mergulhar no mar de nossa região, pelo viés do teatro? Marcelo Tosta é esse mergulhador abissal da arte?
Marcelo Tosta - Quando penso em mim, buscando reconhecer no organismo os
primeiros raios e registros da arte, penso imediatamente em uma criança sentada
no meio da sala, desenhando e escrevendo nas antigas sacolas pardas de mercado
para tentar minorar a sua ansiedade. Talvez um traço já constante de que eu
precisasse comunicar e tivesse alguma espécie de canal aberto, creio neste
canal em todos nós, para poder dizer daquilo que estivesse entre os mundos e
entre os entres de nossas esferas, psico esferas.
Lembro também de mim, trancado
no fusca amarelo do meu pai, ouvindo a rádio MEC, mesmo não tendo sido
apresentado pela minha família. É da parte da descoberta, do risco e dos frios
quatro dedos abaixo do umbigo equidistantes do sexo. É do marejar tendo ainda
que como registro, a mãe zelosa demais, gritando para que eu não nadasse para o
fundo, para não me afogar no meio das águas da vida. A arte e o meu trabalho com as possibilidades
da arte, não começou exatamente quando numa igreja abandonada na época,
emprestava como palco, o altar para que
eu pudesse reconhecer Vivaldi e ler “Sonhos de uma noite e Verão”, me
fascinando com Píramo e Tisbe, com Puck, Com Anaïis Nin citada por Artaud e eu
nem podia imaginar que pouco tempo depois eu estaria nos palcos dando voz a
este homem que trespassado em correrias e gritarias de existência, assim como
eu, também gritava. Com 15 anos, comecei
a dividir o que eu tinha necessidade de expandir e investigar com um grupo de
almas que variavam a mesma idade ou mais que a minha naquela época. E comecei a
dirigir a cia de pesquisas teatrais Religare, que até hoje cumpre e compra a
briga de existir e insistir, sem financiamento e nem apoios.
Nadávamos contra a
corrente, dos preconceitos, das torpezas e indignações diante da sensibilidade
possível e que sempre era motivo de repúdio para que permanecidos na ignorância,
fôssemos incluídos nas rodinhas da vida. Eu sempre fui marginal, das figuras
que estavam à margem e que aprenderam que era exatamente do lado da borda de
fora, que ficava o maior do mundo. Eu poderia falar intensamente sobre meus
primeiros registros na arte, já que sempre me sinto renascido todos os dias
quando me vejo diante de sensações e de possibilidades de registros, que me são
orgânicas e inevitáveis. Eu não evito a sensibilidade e nem excluo de mim o
estudo aprofundado da minha existência, das existências, insistências e
vontades reverberadas no Nosso mundo. Ainda que me dissessem “NÃO”, eu, do lado
de fora, estava dentro do quintal do maior do universo e para isso, Nunca! Um
único verso, palavras infinitas.
"Eu não evito a
sensibilidade e
nem excluo
de mim o estudo
aprofundado da
minha existência"
JS - Quais os momentos vividos no RJ que vale a pena lembrar?
MT - O Risco do percurso saindo da roça para a cidade de pedras,
a vontade celebrada no peito, para poder estudar, sendo pessoa vista como
impossibilitada e sem recursos, para investigar o teatro fora da cidade
pequena. (suspiro e conto até dez!) A Martins Penna, meus amigos que guardo até
hoje no coração, professora magnífica da Romênia, Mona Lazar! Miojo, miojo,
miojo! Vontade de voltar para casa para ver TV nas tardes de sábado com a minha
mãe. Descobertas de que o riso não era propriedade das pessoas “engraçadinhas”
que me julgavam depressivo. Um grande reconhecimento por minha capacidade de
fazer comédia, mesmo sendo um ator conhecido por imersões dramáticas e
profundas, fazer rir é ter entendimento sem medo do mergulho na dor. Eu não me
lembro somente do Rio, me lembro do mundo! O Rio que corre lá, não corre menos
aqui, dentro do meu peito e dentro do magnífico movimento que nós, atores,
jovens, velhos de alma e ávidos de desejo, fazíamos ser e existir e não apenas
pesar sobre a Terra em Cabo Frio. Do Rio ainda tenho muito a colher. Mas muito
mais quero plantar pelo mundo. Eu sou do mundo! Eu sou do mundo! Do mundo!
Num clique de Alexandra Arakawa - 2008 |
JS - De volta no movimento teatral de Cabo Frio com a cena
"O Último Delírio de Van Gogh", quais são suas expectativas?
MT - Eu nunca estive fora do movimento Teatral da cena de Cabo
Frio, nunca! Talvez Cabo Frio tenha expelido ou fechado por um tempo de nova
semeadura, segregação, reforma, os outros artistas que estavam sempre ali, mas
não eram vistos. Não estou falando com arrogância, estou falando com verdade
que precisa ser revelada de dentro de mim, diante da pergunta que me foi feita.
Vanisse, foi um trabalho que até pouco tempo estava sendo mostrado e vivido com
a mesma intensidade de todos os campos e cidades e pastos e estradas. Em São Pedro, não para nenhuma
instituição política, vivemos o incrível “Quilombo de Cal”, no Rio e também aqui. Muitas coisas
aconteciam e eram notificadas pelas redes sociais. Eu não fui a Europa, ainda,
mas ela estava conosco aqui, em Cabo Frio e qualquer lugar, estava o Brasil
inteiro. O mundo estava aqui, está em mim, eu estava aqui perto com a Cia
Religare, bastava que fizessem menos barulho para também nos ouvir. Tenho aprendido com o tempo, cada
vez mais, que é inútil pensar em "contracenação" se não estivermos dispostos a
fazer silêncio.
O Silêncio é sagrado, nele há uma ruidosa e encantadora música
e fala milenar do universo, nos dizendo sobre o que o Tempo, pode fazer por
nós, agora. Agora quero fazer Van Gogh! E quero fazê-lo com a dignidade que ele
merece por sua grandeza, mas antes de tudo, pela sua sensibilidade que só foi
reconhecida depois de ter sido esmagada pela falta de olhos que o percebessem e
o retirassem desse enquadramento absurdo e violentamente cruel do que chamam de
loucura! Então, tudo que espero é ter
competência e humildade para fazê-lo, mesmo que sabendo que ele não precisa de
mim para viver, porque permanece vivo e grita suas cores e orelha pelo mundo muitas vezes, completamente surdo.
Ensaio poético visual por Alexandra Arakawa
homenagem a Marcelo Tosta...
JS - O teatro tem jeito, tem como revigorar esta arte nesta Cabo Frio, neste Brasil?
MT - O Teatro precisa de coragem! Não se faz teatro sem coragem,
sem riscos, sem mar, sem vida, sem fogo nas ventas, nas “partes”, no corisco.
Na verdade eu penso que o país precisa do Teatro e que o Teatro precisa ser
entendido de uma vez por todas como profissão, como legado, como tarefa
absolutamente imprescindível para que aconteça alguma espécie de deslocamento
de nossas zonas de conforto nada confortáveis. O teatro precisa de gente
abusada, de gente puta, de puta, Salve as putas! De Santos mártires que gozem
por Deus! E que entendam que Deus e o diabo, sempre tomam chá, juntos no final
da tarde. Não existe esta coisa chata de se trabalhar sem ter ganhos, sejam
eles físicos ou secundários. Todo ator merece respeito pelo seu TRABALHO e o
teatro não pode deixar de ser considerado como uma grande alavanca possível e
próxima de todos nós, para que possamos despertar o mundo do sono da
ignorância. O país precisa de nós e não de elitização. O teatro é tão
fundamental e urgente quanto a fome. Salve Antonin Artaud! Laroiê!
JS - Quem é Marcelo Tosta por Marcelo Tosta
"E que entendam
que Deus e o diabo,
sempre tomam chá, juntos
no final da tarde."
MT - Um homem nu diante do espelho, que não tem a menor pressa em
colocar a roupa.