quinta-feira, 17 de julho de 2014

Entrevista exclusiva com Mauro Silveira.

De uns tempos para cá, Cabo Frio tem se dado conta da presença de um grande profissional do teatro brasileiro. O nome dele é Mauro Silveira, nasceu em São Paulo e viveu durante muitos anos no eixo Rio-São Paulo, até assumir o Rio de Janeiro como sua morada. Fez teatro com os grandes nomes do teatro Brasileiro, fez TV, tornou-se administrador e organizador de grupos e companhias de teatro além de ser um grande trabalhador pela união da classe artística. 
Foi um prazer entrevistá-lo, e tem sido uma alegria, encontrá-lo trabalhando firme com seu novo grupo de teatro que vem ensaiando sem parar, o novo espetáculo que está vindo por aí. É com prazer que apresento aos leitores do blog Teatro Possível, esta grande figura do teatro brasileiro. Com vocês: Mauro Silveira...

Teatro Possível - Na tua  percepção, o que o teatro perdeu e ganhou nos últimos 40 anos, aos olhos de um observador atento.
Mauro Silveira -  Em 1970, quando estreei como artista profissional, fazíamos apresentações de terça a domingo, sendo 2 sessões quinta, 2 sábados e duas domingos. Como eu fazia teatro Infantil no Teatro de Arena de SP; eram 3 sessões e pouco depois comecei a fazer teatro juvenil; eram 4 sessões e ainda saíamos para jantar, curtis, namorar (fui bom nisso...)
Com o advento da TV Aberta, das TVs a cabo, do vídeo cassete, dos DVD,s, da Internet, cada vez mais temos dificuldades em tirar os expectadores de casa e colocá-los numa plateia de teatro. 
Na minha juventude, nós, artistas, tínhamos um inimigo poderoso e que nos tomava todo o tempo para que lutássemos contra ele: nos palcos, nos bastidores, nas ruas: A ditadura militar. A censura! Tínhamos a população a nosso favor. Hoje, sem esta motivação, temos que quebrar a cabeça para encontrarmos matéria prima (ideias) para sensibilizar o público a participar das nossas aventuras!

As muitas caras de um artista dedicado.
TP - Cite alguns momentos da sua vida artística que te fizeram manter-se firme no caminho.
MS -  Em 1970, no Teatro Ruth Escobar - SP - a Polícia Federal prendeu um dos atores de nosso espetáculo, o famoso "O Balcão", de Jean Genet, direção de Victor Garcia. Aquele ato de violência contra um colega me fez preocupar-me com a minha (e a dos meus companheiros) foi ali que assumi o compromisso de lutar contra o autoritarismo.
Outro momento foi quando estreei como Produtor Executivo com a peça "As Desgraças de uma Criança", com Marco Nanini, Marieta Severo, Wolf Maya e Camilla Amado... era aqui que eu queria: ser um homem de teatro: ator, produtor, diretor.. e em 1982 quando me formei na Rede Globo, como autor roteirista, na primeira turma, aprendi a criar matéria prima para espetáculos, teatro, cinema, televisão, rádio, show, etc... e por fim, quando me aposentei, olhei para trás, vi meu currículo e tive a certeza de que não poderia ter feito outra coisa: Sou artista com muita honra!

TP - Como você vê a carência de profissionais e serviços ligados ao teatro, em nossa região?
MS - A carência não é de pessoal, mas sim de espaços de trabalho para os profissioinais de artes cênicas, (Artistas e técnicos)... Faltam salas de espetáculos, faltam emissoras de TV cumprindo o "PRECEITO CONSTITUCIONAL DA REGIONALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO CULTURAL E ARTÍSTICA" e faltam políticas públicas que possibilitem a ampliação deste mesmo mercado de trabalho para os profissionais e de expressão artística para os munícipes.

TP - Que conselho você daria aos jovens que querem fazer teatro hoje, dentro da atual conjuntura local e nacional?
MS - Conhecimento... A pessoa que deseja navegar neste barco tem que se propor a buscar o conhecimento para poder expressar-se, transmitir, comunicar-se, sabendo o que, do que e como está fazendo. Não existe um ator se ele não tiver a capacidade de aprender, de apreender, de buscar a cultura e transmiti-la....

Atualmente, aposentado, Mauro é morador da Iguaba, em
Araruama e dedica-se a fazer teatro em Nossa Região.
TP - Como foi conviver com grandes nomes do teatro brasileiro, o que você aprendeu e ensinou para eles?

MS - Na peça que estreei, em 1970, a dona do Teatro e da companhia, protagonista da peça, a atriz Maria Della Costa; estava em seu camarim maquiando-se quando entraram duas garotas com um caderno à mão para entrevistá-la para um trabalho escolar. Ela ia respondendo, muito simpática, enquanto maquiava-se. De repente, veio a pergunta: "Dona Maria, de onde surgiu o teatro????", Maria, nesta altura, colocava os cílios postiços. Parou, olhou para trás, disfarçou e perguntou: - "Como é mesmo a pergunta?"; "Qual a procedência do teatro?"; e ela, soberana, respondeu: "Ora minha filha, teatro é teatro desde que o mundo é mundo!". Foi isto que aprendi. Tecnicamente, aprendi com Flávio Rangel, diretor de quem fui assistente aos 19 anos de idade, tudo o que existe numa caixa cênica. "Andar num palco é como pisar num ninho de ovos, estamos lidando com a sensibilidade daqueles que aqui trabalharam. Um olhar enviesado, pode estragar um espetáculo, fazer o ator perder a personagem. Portanto há que se saber andar pelos caminhos da emoção, da sensibilidade, do ofício de representar: Ser ator!" 

TP - Quais são suas leituras preferidas? E quais as suas maiores influências?
MS -  Além de ator-cantor/diretor/produtor/roteirista, sou pesquisador de História da Música Brasileira (tendo sido verbetista do Dicionário Albin de Música Popular). Minha especialidade são os anos 1900 (quando se instala no Brasil e Indústria de Gravação de Discos - CASA EDISON 1902), portanto, leio muito sobre a História da Música, que é ligada com a História do Teatro, próximo a História do Rádio e também passa pelo cinema e pela literatura. Gosto muito de biografias, também.

TP - Quem é Mauro Silveira por Mauro Silveira?
MS - Um chato que não bebe, não fuma, não usa drogas, não frequenta bares, não vê TV, não gosta de futebol e adora namorar. 
Quando eu era muito criança, minha mãe percebeu em mim algum talento para as artes e foi comigo até a TV EXCELSIOR de São Paulo, à época a emissora de maior sucesso e ensinou-me o caminho, como chegar, qual ônibus, etc... Assim, quando fiz 18 anos, saí de casa e fui buscar realizar meu sonho de ser artista.... e estou buscando realizá-lo até hoje. Um dia, quem sabe, eu consiga ser um bom profissional, um bom colega e que a humildade tome conta da minha vida, para que eu possa preservar minha emoção e o prazer de, sempre que possível, subir num palco e falar cheio de orgulho:
ESTE É O MEU OFÍCIO!!!

Este é um bate papo bem humorado que fiz com 
Mauro Silveira, curta este momento de 2011.


Mauro silveira, atuou na novela Cidade Jardim, em 2011, dirigida por Guilherme Guaral. Foi a primeira novela completa feita numa cidade do interior com produção local. Assista todos os capítulos, na ordem, basta CLICAR AQUI para ver Mauro Silveira e seu eterno brilho.

2 comentários:

  1. NÃO GOSTO DE ELOGIAR, POIS TENHO MEDO DE PERDER...MÁS É MUITO LEGAL TER UM MESTRE POR PERTO....

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    1. sou um ator que tem como opício: INCOMODAR : Fazer o outro pensar e reagir, rindo, chorando, emocionando-se!!!!! Já me dou por feliz em poder atuar!!!

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