sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cenas comentadas do FESPA.

Uma analise levemente crítica dos trabalhos apresentados no 2º FESPA (Festival de esquetes de São Pedro da Aldeia - 2011).
Estou destacando os trabalhos que, entendemos, foram o foco das discussões mais intensas na mesa de jurados do festival, alguns premiados outros não. Nesta primeira leva de comentários vamos tratar dos espetáculos “solo”, que foram destaques deste festival, pois compunham quase 50% das participações.
A tendência das cenas solistas nos festivais vem aumentando a cada ano, uma tendência que vem aumentando por diversas razões que poderemos discutir mais detalhadamente num outro tópico deste blog.


Ainda não Vó
Grupo: Ops
Autor: Manuela de Lellis e Rodrigo Rodrigues
Direção: Manuela de Lellis
Com um cenário praticável muito bem bolado (prêmio de melhor cenografia) a cena acontece de forma contundente, com um tom de comédia rasgada apenas em primeira camada. À medida que o expectador mergulha na dramaturgia descobre um trabalho com forte crítica social; ponto para o texto que surpreendeu e manteve a tensão teatral do começo ao fim.
O desempenho do ator Rodrigo Rodrigues coube bem ao papel. Com suas tiradas irônicas e carregadas de androgenia, pudemos ver em cena um artista com ótima voz e o já esperado tom cômico de sua interpretação. Uma comicidade permeada por muito sarcasmo e com improvisos enxutos que davam moldura ao texto.
A direção de Manuela de Lellis soube explorar os recursos naturais do ator Rodrigo Rodrigues, inclusive, ainda de forma tímida, jogando-o para outros desafios na arte de atuar. Se por um lado o ator é farto na arte da comédia pode experimentar uma dimensão mais técnica através de um “olhar de fora” e isto proporcionou ganhos importantes ao trabalho.
O que talvez incomode um pouco neste trabalho (ou não) é a constante provocação que o artista faz à platéia, jogando o olhar para a quebra da quarta parede. A idéia funciona e talvez jogue a cena para um estilo de teatro de cabaré, não que isso seja ruim, mas pode dar ao ator azas exageradas e fazê-lo usar as famosas “cartas da manga” o que, para um ator como Rodrigo não seria problema mas pode ferir a dramaturgia. Seria interessante, neste caso, “acorrentar” o ator e ver que o limite pode fazê-lo ir além dos limites, descobrindo as filigranas, os detalhes e a sutileza da cena.

Som dos Dias
Grupo Creche na Coxia
Elenco: Diogo Cavalcanti
Autor: William Shakespeare – Adaptação: Diogo Cavalcanti
Direção: Helena Marques e Matheus Lima
Neste esquete, deu para perceber as construções corporais, desenhos viscerais sem forma definida e com um objetivo claro cada vez que se propunha ao jogo de tensão e intenção da personagem. Através de uma movimentação quase abstrata, nada nesta cena veio de graça, tudo tinha uma definição poética que provocava o expectador. O Ator Diogo Cavalcanti (prêmio de melhor ator) conquistou o espaço cênico com sutileza milimétrica sem se intimidar.
Dirigido a quatro mãos por Helena Marques e Matheus Lima  pudemos sentir a harmonia simbiótica entre os diretores ainda que, o trabalho as vezes pareça mais um exercício do que uma cena totalmente acabada. O excesso de abstração na forma corpo-expressão pode dar um tom hermético ao trabalho jogando-o para o campo da incompreensão/sensação do público.
O que talvez possa melhorar neste trabalho é dar a ele um tom mais fechado e definido como esquete propriamente, notou-se que a cena ainda é um embrião de algo maior, um trabalho mais longo, o que pode ser uma armadilha. Definir as fronteiras e clarear a intenção em ser totalmente esquete pode ser um ganho e romper limites.

Mundo Animal
Elenco: Gabriel Sant’Anna
Textos: Contos de Antonio Di Benedetto
A percepção global de Gabriel Sant’Anna ao escolher textos de um autor latino, digo, Argentino e de alto nível literário, foi um ganho. Divulga a literatura latino-americana que, no Brasil, é tratada como se fosse uma literatura marginal. É impressionante ver como os jovens brasileiros e velhos também, estão tão voltados para a Europa e EUA e muitos ignoram completamente a literatura Latino Americana. Tirando alguns autores como Jorge Luís Borges, Mário Vargas Lhosa e Gabriel Garcia Marquez, praticamente não se conhece mais nada, talvez, timidamente, um Eduardo Galeano além dos poetas Pablo Neruda, Gabriella Mistral e Isabel Allende no quesito romance biográfico. Neste sentido podemos dizer que vimos um trabalho inovador, do ponto de vista do texto.
Já na cena, Gabriel propõe dois momentos bem diferentes: Uma cena de palhaçaria e a outra interpretada dentro de um cânone mais fechado do teatro romântico. O contato das duas formas de cena teve pouca ligação, ficaram soltas e divididas na proposta, um trabalho mais meticuloso de direção, dada a complexidade dos contos de Antonio Di Benedetto, seria bem vinda. A carpintaria teatral talvez necessitasse de uma direção mais segura, uma mão guia que desse função ao uso das linguagens possíveis aplicadas à cena.
Ficou evidente, entretanto, a extrema sensibilidade do ator Gabriel Sant’ Anna. Seu talento, sua voz, sua capacidade combativa em cena e as habilidades apresentadas para lidar com a proposta. A platéia manteve-se fria e tímida durante algum tempo e ao final não economizou aplausos, reconhecendo estar diante de um ator com talento e recursos para fazer o teatro acontecer.


Solilóquio – Fernando Lima
Grupo: Companhia de Arte Limapolo
Solilóquio é um solo de Fernando Lima construído a partir da obra de  Williams Shakespeare, mais precisamente, Hamlet. Com direção do próprio ator.
Sua entrada em cena é marcada pela presença de 4 mulheres na platéia segurando velas de forma quase imperceptível. Uma vez localizadas vemos surgir a figura do ator que se apropria do palco mas sem uma luz teatral costumeira. Não há foco direto, nem “pino”, nem “geral”. A cena permanece num semi-escuro com apenas 20 por cento de “foco”.
O desempenho do ator Fernando Lima foi satisfatório, com voz focada e intensa dando ritmo à cena e canalizando o ouvido absoluto da platéia numa interação bastante positiva. O público sentiu a presença e participou de um bom ritual cênico.
A iluminação do espetáculo, ainda que fosse uma proposta de direção, atrapalhou o que poderíamos chamar aqui de “Características expressivas do ator”. Se por um lado sua voz brilhava num ambiente semi-escuro, ficou difícil para o público concentrar-se nas técnicas de interpretação.

Pequena Morte – Texto, direção e atuação: Hugo Barrylari
O Solo teatral Pequena Morte teve um bom desempenho do ator Hugo Barrylari que demonstrou uma “pegada” de ator em cena muito firme.  A princípio havia um ambiente de dispersão no teatro e Hugo soube lidar com o momento trazendo o público para o foco de sua cena.
O esquete “Pequena Morte” teve momentos de comicidade  voltadas para o teatro do absurdo dando à encenação um caráter mais contemporâneo o que ajudou a cena a se inscrever numa forma mais atual de se fazer teatro. Com isto o ator lançou mão de uma boa oportunidade para mostrar sua habilidade e intimidade com o texto.
Teve um bom figurino, desenhos de cena bem interessantes. Odestaque  do trabalho foi o texto, tanto que recebeu premio. O texto ofereceu recursos dramáticos que justificaram atitudes cênicas bem interessantes deu energia para a direção e equilibrou todo o contexto.
Como ator, Hugo foi razoável, teve momentos brilhantes como diretor e destacou-se como dramaturgo. Fica aqui a sugestão para que não pare de escrever bons textos para teatro.

A História das Invenções
Direção e Interpretação - Yuri Vasconcellos
Texto - Monteiro Lobato
Yuri Vasconcellos demonstrou grande desempenho ao levar à cena um trabalho com força poética e uma narrativa de texto bem rica. O trabalho corporal demonstrou potencial com desenhos de cena inesquecíveis, tanto que, no primeiro dia seu trabalho se destacou como a preferência do público.
O trabalho apresentado esteve com excesso de ritmo e pausas ainda pouco exploradas; isto foi o que mais dificultou seu desempenho. Algumas vezes, o entendimento das transições corpo/texto confundiu o público.
O trabalho de direção aponta para um belo caminho. Cenas de frente e fundo muito bem exploradas com tonalidades ricas e abrangentes. Yuri demonstrou segurança e soube lidar de forma inteligente com o espaço cênico.
Esteticamente, Yuri entra numa bela ceara do teatro contemporâneo, o solo narrativo, que tem hoje no Brasil grandes destaques como: Augusto Pessoa, Júlio Adrião e a inconfundível e eterna Denise Stoklos. 
Ao lado da atriz mineira Mariana Jacques, Yuri passa a configurar uma nova geração de artistas que estão começando a olhar com mais carinho para o teatro narrativo.



Laura
Grupo: ARTECORPO Teatro e Cia.
Autor: O Grupo
Direção: Cida Palmerim e Rachel Palmerim

O Trabalho em dupla entre mãe e filha, Cida Palmarim (direção) e Rachel Palmerim (co-diretora e atriz), resultou num belo instante dramático onde converge experiência e arte cênica nos mínimos detalhes. Na cena curta “Laura”, chamou-nos a atenção não só a entrega da atriz à personagem em questão como também o “cuidado cênico” e o detalhamento necessário para avançar ponto por ponto em direção a um resultado que fixasse na percepção do público a marca indelével de uma personagem bem construída.
Com marcas simples, clássicas até, usando o tradicional triângulo e  o velho cuidado de não perder contato frontal com o público, foi exatamente isso, uma dissimulada “falta de ousadia” que fez de “Laura” um trabalho de notórias qualidades. Ao assumir a simplicidade como proposta, o grupo ARTECORPO e Cia. obteve o impulso necessário que rendeu à atriz o prêmio mais importante do teatro. Aquele em que se premia o ator.
Destaque para o bom uso do material de cena, uma cadeira que pode a qualquer momento se transformar em objeto cenográfico deu requinte e equilíbrio ao posicionamento da atriz no palco transformando o corpo da intérprete numa membrana sensitiva pulsante capaz de levar o público ao arrebatamento.
O esquete “Laura” peca apenas num detalhe: a música. O estilo musical selecionado ficou melodramático demais, colocando em risco parte importante do trabalho, pois, jogava uma linguagem visceral para um universo telenovelesco. Longe, no entanto, de comprometer o trabalho. Mas é  bom ficar atento e investigar mais a fundo um universo sonoro que possa acrescentar força dramática à cena ao invés de apenas ilustrá-la.

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