segunda-feira, 5 de maio de 2014

Pequenos Mistérios e um Grande Encontro.

As atrizes: Viviane Miranda, Anna Fernanda e o diretor e escritor
Bruno Peixoto.
"O Livro dos Pequenos Mistérios", de Bruno Peixoto surpreendeu, pela limpeza e precisão narrativa e um sofisticado estilo frontalmente latino; o realismo fantástico, forma literária consagrada a partir dos anos 40 e que tem como baluartes nomes como o argentino Bioy Casares e o colombiano Gabriel García Márquez. Não bastasse a rica tradição hispano-americana, Bruno ainda cometeu o "crime" de ter nascido na cidade de Campos dos Goytacazes, terra de rica tradição cultural onde nasceram o escritor José Cândido de Carvalho, autor de "O Coronel e o Lobisomem" e o poeta Artur Gomes, autor de "Brasilírica Pereira - A Traição das Metáforas".
Vindo morar em Cabo Frio, Bruno mergulhou num mundo mesclado de paixão pelos coletivos e também pela sua "solidão quase melancólica". Passava horas revezando entre os momentos com os amigos e as longas caminhadas margeando praias, matas e o sal da cidade. Aprofundou-se na prática do teatro e tornou-se, também, um técnico esmerado, concentrado no "foco" de sua pesquisa como iluminador, mas sempre escrevendo, escrevendo e escrevendo! Assim, ele foi galgando de forma sutil e progressiva o mundo da arte. Tornou-se escritor, ator, iluminador e agora, como já era de se esperar, também diretor de teatro.
Anna Fernanda e Viviane Miranda, harmonia
e equilíbrio em cena.
Recentemente, Bruno adaptou seu "O Livro dos Pequenos Mistérios" e criou o espetáculo "Pequenos Mistérios". Convidou as atrizes Anna Fernanda e Viviane Miranda. Ensaio, estudo, concentração e um primeiro resultado apresentado na "Semana Teixeira e Souza" evento anual sobre literatura, que acontece na cidade de Cabo Frio. O resultado? Podemos dizer que foi bom, que fluiu bem e comoveu. Saiu da zona de conforto e desafiou o público a viajar numa linguagem bem definida. Vimos, naquela noite, a possibilidade de um possível grande trabalho. Atrizes corretas, bem ensaiadas, vozes trabalhadas, ritmo consistente e um belo conjunto que deu um corpo dramático à linguagem do livro.
No desenvolvimento da cena; as atrizes foram felizes, justamente por serem completamente diferentes uma da outra. Anna Fernanda é passional, agressiva e explosiva, nela, tudo é emoção, sua víscera é formada de uma entrega única, recheada de uma melancolia profunda que vai rasgando a alma da plateia até atingir as camadas mais densas de uma sensibilidade cavada quase que a punhaladas no coração do público e, já que estamos falando de literatura e realismo fantástico, Anna lembra "Amaranta", personagem de Garcia Márquez, em "Cem Anos de Solidão", que passa grande parte da vida tecendo um manto para carregar além da morte.
A atriz Viviane Miranda tem uma leveza, flutua no palco como uma bailarina, seu deslocamento é ágil e parece ser composto de ar, talvez, água. A voz e o corpo parecem suprimidos pela técnica, jogando com uma densidade mais formal, dando ao público, uma leitura distanciada mas não menos poética, de cada cena. Sua víscera, lembra a personagem "Remedios", aquela jovem virgem arrebatada por lençóis e conduzida ao céu, no mais famoso romance fantástico de García Márquez.
O impacto do espetáculo está, no fato dessas duas atrizes tão singulares, triangularem pelo palco durante quase 60 minutos e o público, extasiado, sequer conseguir ver o tempo passar. Foi um trabalho bem composto e tecnicamente bem realizado. Trilha sonora definida, pesquisa corporal contemporânea e um ritmo bem encaixado, dando asas à imaginação.
Bruno, demonstrou ter talento para dirigir teatro, sabe o que quer e já marca seu estilo, pois, embora o texto seja de realismo fantástico, nota-se um tom melancólico nas cenas que são peculiares á personalidade deste artista ousado e concentrado. Acreditamos que, muito breve, "Pequenos Mistérios" estará ganhando os palcos das grandes feiras literárias do país. Um trabalho que consegue unir tão bem, literatura e teatro, é um honra para as duas formas de arte, engrandece uma enquanto expande a outra e, portanto, aguardamos seu sucesso definitivo.



* Jiddu Saldanha é mímico, diretor de teatro e pesquisador.

Um comentário:

  1. Parabéns ao Bruno Peixoto pelo magnífico livro Pequenos Mistérios, e ao Jiddu Saldanha por esta preciosidade de texto.

    ResponderExcluir