TEATRO PARA DANÇAR

segunda-feira, 8 de julho de 2013

PORTO - Um Espetáculo do circo Crescer e Viver.

Nina Rodrigues, catalizou o calor e a simpatia da platéia.
O Espetáculo “Porto”, do circo Crescer e Viver é uma das grandes surpresas da temporada artística carioca do mês de Junho. A garotada não pode perder a chance de ver um trabalho magnífico que tem um elenco apaixonado, formado por alunos dos diversos segmentos do projeto de circo social disponível naquele espaço mágico, situado na Praça Onze, bem ao lado de metrô.
Com direção de Boris Vecchio e Vinícius Daumas, o espetáculo impressiona, na medida que mostra como é possível fazer do aprendizado diário e da exaustiva  luta para dominar os parâmetros circenses e ainda ver como tudo isso pode se tornar potência. É um espetáculo com um time de artistas-estudantes concentrados, aplicados e completamente disponíveis como ferramenta viva nas mãos de uma dupla de diretores sensíveis, que souberam  promover o encontro entre Circo, Teatro e Cinema.

Estudantes das artes circenses formam o elenco coeso do espetáculo "Porto", sensação das temporada artística carioca durante o mês de Julho.
O trabalho de direção e composição musical, de Daniel Gonzada, é de primeira, mostrando uma musicalidade vigorosa e cênica, capaz de chegar ao universo lúdico do circo, acrescentando-lhe a densidade dramática do teatro. Já na direção de arte, Rui Cortez, premia o espetáculo, com um visual completamente cinematográfico, provocando no expectador a sensação de estar dentro de um filme, fazendo parte dele, num clima completado de forma magistral pela iluminação de João Franco. O trabalho da figurinista Olivia Cortez, alcançou o tom grandioso do espetáculo, vestindo os artista com roupas que lhes permitiam uma interação corporal e, ao mesmo tempo, rompendo e dialogando com a tradição do vestir circense.

Com belos números acrobáticos, o espetáculo "Porto"explorou bem a fusão de diversas linguagens artísticas num momento inesquecível.
Um espetáculo complexo, cheio de detalhes e numerosos participantes precisa de profissionais muito bem afinados, não só com a linguagem em si, mas com a busca clara de um objetivo, que ficou razoavelmente resolvido na diversa teia estrutural do espetáculo. Dizer algo, num contexto em que o elenco é formado por estudantes das artes circenses, parece bem instigante e foi isso que o espetáculo “Porto” fez a platéia sentir; um sabor de desafio e descoberta, com uma tremenda revelação de potenciais.
No elenco, uma infinidade de talentos. Artistas que estão ficando afiados e aprendendo a dominar suas habilidades específicas e que souberam transformar erros em acertos, uma confortável maneira de se desenvolver e descobrir que, hoje em dia, nada é mais saudável do que as formas artísticas se contaminarem entre si. O circo por dentro do teatro que está por dentro da dança que está por dentro da música e que está por dentro de tudo.
Esta bela mensagem do circo Crescer e Viver, é o seu maior legado para o público extasiado que se fizer presente.


quinta-feira, 4 de julho de 2013

Jorge Vale e Caio Fernando Abreu - DAMA DA NOITE.

Jorge Vale nos brindou com seu espetáculo no dia 30 de junho. O teatro municipal de Cabo Frio recebeu seu público numa coincidência com o jogo do Brasil na copa das confederações. Sabemos que dias assim, o país todo se encontra hipnotizado, apesar disso, o teatro não cerrou suas portas, notícia boa para uma cidade que tem apenas uma casa pública de espetáculo.

Jorge Vale, ator com recursos técnicos primorosos, no espetáculo "Dama da Noite" adaptado da obra de Caio Fernando Abreu.
 A peça, a partir de um texto de Caio Fernando Abreu com o mesmo nome “Dama da Noite” foi adaptada pelo próprio ator que também se auto dirigiu; experiência pouco comum nas décadas de 80/90 mas que virou marca dos atores das novas gerações e hoje, a figura do diretor “de fora” já não é tão essencial assim  “Dama da Noite”, que é  um trabalho criado em 1989, ganhou, a partir de então, diversos prêmios incluindo a premiação da FETAERJ.
Embora reduzido, o público presente pode apreciar um trabalho primoroso, no que tange à técnica de atuar, foram 60 minutos de puro enlevo, de arte de ator no sentido verdadeiro. Uma peça com composição simples, cenário sóbrio, maquiagem e figurinos equilibrados. Em  cena, momentos que narram uma prostituta conversando com um garoto de 20 anos, num bar qualquer. A interpretação sutil, dramática, beirava o poético e sem nenhum tipo de apelação, foi conquistando o público aos poucos até chegar a um final catártico.
O que o público viu, naquela noite, foi a presença de um ator experiente, daqueles que entendem o teatro por dentro e conduz sua energia num jogo que faz a platéia se sentir contemplativa e pulsante o tempo todo. Paulo fez de sua cena, um jogo dramático e poético, demonstrando a humildade dos bons atores. O tempo todo nos pareceu seguro, com movimentos claros, além de boa dicção e boa projeção de voz. Sabia dar pausas no tempo certo e em alguns momentos, trabalhava seu tempo cênico com músicas de Elis Regina, especialmente Fascinação, aliás, uma das músicas preferidas de Caio Fernando Abreu.
Ao final do espetáculo, Jorge Vale foi gentil com o público e se colocou à disposição para um bate papo. A conversa foi boa, ele foi generoso conosco. Falou de seu processo criativo, das dificuldades que sentiu como ator, e também de seus planos para continuar levando adiante este belo trabalho.  Para aqueles que não quiseram ficar em casa vendo o jogo do Brasil, o teatro foi uma ótima opção e todo o público daquela noite, voltou para casa, feliz depois de ter assistido ao espetáculo  “Dama da Noite”.






quarta-feira, 3 de julho de 2013

Nucleo de Dramaturgia do OFICENA - NUDRA.

Camille Miranda


Nasci em Cabo Frio, em 04 de Abril de 1998. Quando eu era pequena não gostava muito ler, fui começar a amar a leitura quando tinha mais ou menos 10 anos, faz pouco tempo. O livro que me encantou foi As Crônicas de Nárnia. Sempre gostei muito de estudar, ou seja, aprender na escola ou sozinha, e sendo assim comecei a escrever respostas muito longas nos exercícios. Com as minhas respostas, vieram os textos e a vontade de escrever.

Confesso que as vezes tenho preguiça, afinal quem não tem? Meus amigos costumam dizer que “viajo demais”. Eu amo desenhar, escrever, cantar, dançar (mesmo não sabendo), criar, atuar...

Em relação a minha família, meus pais tiveram vários obstáculos na vida, e sempre me incentivaram, me dando apoio e conselhos. Minha família não é artista, são mais para o lado de ciências, porém cada um tem o seu talento em artes, como meu pai que é tipo um inventor. Eu os amo muito, e não sei o que seria de mim sem eles e sem Deus.

________________________________________________________________________

Ainda estou vivo?

Texto teatral inspirado nas músicas Even Flow e Alive da banda Pearl Jam, albúm Ten de 1991.
Autora: Camille Miranda.

Ato único em 3 Cenas

Personagens

Gabriella: Apelidada de Gabbe. Mulher muito bonita porém desleixada. Não fala muito, e mostra ser uma pessoa correta, até que chega a noite e ela vai trabalhar em um bordel. Mãe solteira.
Ethan: Jovem quieto, filho de Gabbe. Ele tem problemas psicológicos, já foi internado. Muito sensível a situações extremas. Tem mania de balançar as pernas quando está nervoso, costuma passar as mãos no rosto, usa luvas sempre, não consegue ficar quieto e não demonstra sentimentos.
Outros:
Homem jovem do bordel.
Dois médicos de uma clínica psiquiatra.


CENA 1

Cenário
Uma sala pequena, aberta para a cozinha.

(Está bem tarde, Gabbe entra em casa caindo de bêbada. Ethan está sentado no sofá vendo um filme, estava esperando sua mãe). 


Ethan: Mãe? Você está bem? 

Gabbe: (Gabbe esbarra numa planta que quase cai. Ela ri.)
 Sim, mais do que bem...

Ethan: 
(Se levanta, vai ao encontro dela.)
Mãe, você está bêbada?

Gabbe:  (Quase cai.) Olha, eu sou sua mãe, não te devo satisfações.

Ethan: (Passa as mãos no rosto.) A partir do momento que você chega nesse estado, deve sim.

Gabbe: (Empurra Ethan e senta esparramada no sofá.) Ah menino, eu só saí um pouquinho e bebi com uns amigos, nada demais.

Ethan: (Fala um pouco mais alto.) Você tem feito isso todas as noites!

Gabbe: (Grita, geme e coloca a mão na cabeça com dor.) Qual o problema! Vai me regular agora?

Ethan:  (Segura um dos braços.) Você não era assim quando meu pai estava aqui.

Gabbe: Você não sabe nada. (Fecha os olhos por um tempo.)

Ethan: Sei que isso não é o comportamento de uma mãe.

Gabbe: E se eu dissesse que não queria ser mãe? (Olhar desafiador.)

Ethan: (Passa as mãos no rosto rápido.) Você me teve, então agora não é questão de querer ou não querer.

Gabbe: Bom, senhor responsável... Acho que você já está bem grandinho para eu lhe contar um pequena história. Vem senta aqui... (Dá suaves palmadinhas no lugar ao lado no sofá.) (Ele sentou no braço do sofá.)

Gabbe: 
O cara que você pensava ser seu pai, era apenas um traste... Ele não valia nada tá bom? Até me bateu uma vez, só que eu mostrei para ele que tenho minhas defesas... (Ela riu alto.)

Ethan: (Confusão.) O que?

Gabbe: É, acho que você deveria estar feliz por ele não ser seu pai. Ele se fazia de bonzinho para você, adora crianças aquele lá (ela ri de novo). Ele não voltou mais pra casa porque deve ter sido preso por ai. Bom, achei você deveria saber disso...

Ethan: (Perplexo) Por que você não me contou antes? 

Gabbe: (Levanta uma mão e a abaixa rápido.) Ah, não tinha importância. (Ela levanta e passa a mão no cabelo dele e vai para a cozinha.)

Ethan: (Balança as pernas, passa as mãos no rosto.) Cadê meu pai... meu pai de verdade?

Gabbe: Ele morreu quando você tinha 12 anos. Lembro bem, você estava sozinho em casa e eu estava fazendo sei lá o que (pausa, ela ri), ai me ligaram e me disseram que ele estava morrendo.

Ethan:  (Sem emoção.) Porque você me fez acreditar que aquele cara era o meu pai, se ele era tão ruim assim?

Gabbe: Melhor um, do que nenhum não é criança?

Ethan: (Começa a falar alto) Eu tinha o direito de...

Gabbe: Eu sei, me desculpe você não ter visto ele, mas estou feliz que conversamos querido. Espero que você esteja bem, não quero te internar de novo. Boa noite...
(Ela volta e lhe dá um beijo, ela quase cai, retoma o equilíbrio e vai dormir.)

Ethan: (Balança as pernas por um tempo, olha para os lados, passa as mãos no rosto. Olha para cima.) Bom, acho que ainda estou vivo.

(Blackout)

CENA 2

Cenário:
Casa Noturna com algumas pessoas juntas, lugar pequeno e sujo. Um quarto luxuoso com uma cama de casal forrada com tecidos vermelhos.

(Ethan decide seguir sua mãe para ver onde ela estava indo todas essas noites. Ele se depara em frente à casa noturna, sua mãe entra pela porta de trás. Ele a segue até que ela entra por outra porta, ele mantém distância e observa pela brecha).

Gabbe: Estou pronta.

(Um homem jovem aparece e tira a blusa).

Homem: Que bom, também estou.

(Gabbe se deita na cama e o examina, vendo cada parte de seu corpo. Ela dá um sorriso malicioso, pega uma bebida e começa a tomar).

(Ethan fica paralisado atrás da porta. Não consegue acreditar.)

Homem: Você é tão bonita.
Gabbe: Não precisa me elogiar agora...

(Eles estão prestes a se beijar quando a porta se abre e aparece Ethan, com olhos arregalados, boca entreaberta, segurando os braços.  O homem jovem olha sem entender).

Gabbe: (Assustada) Ethan! O que você está fazendo aqui?! (Se levanta cambaleando, deixa a bebida cair.)

Ethan: Mamãe? (Passa as mãos nos rosto.)

Gabbe: Eu posso explicar meu filho, vem aqui.

Ethan:  Mamãe... (balança as pernas.)

(Ethan se vira e começa a andar pelo lugar esbarrando nas pessoas, olhar distante. Gabbe vai atrás dele).

Gabbe: Ethan, não é o que você está pensando! 

(Ethan Para. Gabbe desacelera o passo e espera ele se virar. Ethan se vira devagar).

Ethan: (Sem emoção.) Não é o que eu estou pensando da mesma forma que não era quando eu estava sozinho em casa e você chegou com uma faca ensanguentada? Não é o que eu estou pensando do mesmo jeito que eu perguntei naquele dia o que você estava fazendo, você limpou o objeto na blusa, deixando uma mancha vermelha e dizendo: “Estava apenas acertando contas?”... Não é o que eu estou pensando do mesmo jeito de que sempre me fizeram acreditar? Agora eu me lembro, e sei o que você realmente fez naquele dia Gabriella. 

Gabbe: (Perplexa.) Me disseram que você nunca mais lembraria disso.

Ethan: Eu sei... Mas me diga uma coisa, por que você matou meu pai verdadeiro?

Gabbe: Eu o matei porque ele iria se casar, e nunca mais me veria de novo.

Ethan: Sua mente é engraçada, aposto que chama isso de ato de amor.

Gabbe: O amor não é uma loucura?

Ethan: Diria que é loucura para quem não sabe como fazê-lo. 

(Ethan se vira e sai correndo.)

(Blackout)


CENA 3

Cenário: Quarto sujo, algumas coisas espalhadas. Ele não está na sua casa.

Ethan: (Ethan deita na cama). Esse travesseiro está tão duro... Deve ser por isso que eu não durmo a dias? Não, eu me lembro de algo mais, um olhar, lembro da cor vermelha... Por que eu não consigo tirar esses pensamentos da minha cabeça? (levanta). Talvez, com o passar dos dias eu fique melhor...  (Pega uma foto que estava em cima de suas coisas, parece uma família feliz). 
Quem são esses? Pensei que soubesse, mas já não tenho certeza... (olha para o espelho e tenta sorrir como na foto, porém o resultado é um sorriso triste). Não, isso não parece certo. (Estremece. Esfrega as mãos nos braços.) Desde quando aqui é tão frio? (Senta na cama). Esses pensamentos não param de chegar, por quê? Por quê? Não entendo! Pensamentos como borboletas voando em um sentido caótico, bem aqui na minha cabeça... Não fazem sentido algum. Por que eu sinto essas mãos puxando gentilmente minha alma? Elas querem me levar para algum lugar, chegam sorrateiras, silenciosas. Mas eu não entendo... Eu ainda estou vivo? Tenho que expulsar essas coisas da minha cabeça (coloca as mãos na cabeça e balança.) Sinto que devo começar minha vida de novo...  Algum dia. 

(Gabbe entra pela porta de súbito).

Gabbe: Ethan! Você está aqui! Eu te procurei por dias! Por que você sumiu?

Ethan: Não me lembro nada do dia em que fugi, só me lembro de um olhar, do vermelho mãe.

Gabbe: (Gabbe engole em seco.) Meu filho, eu fiquei desesperada! Pensei que tivesse acontecido alguma coisa ruim!

Ethan: Parece que aconteceu algo ruim mas eu ainda estou vivo, tem alguma coisa errada?

Gabbe: Não! 

Ethan: Eu mereço estar vivo?

Gabbe: Claro que sim meu filho! (Chega perto dele e o abraça.)

Ethan: (Balança as pernas.) Então eu vou começar de novo... Algum dia.

Gabbe:  (Sorri.) Que tal hoje? 

(Ethan olha para ela sem entender).

Gabbe: Esses homens bondosos vão te levar para um lugar onde você pode recomeçar.

(Dois homens de branco entram. Ethan olha confuso).

Ethan: (Passa as mãos no rosto, balança as pernas.) Eles vão me guiar para o lugar das mãos silenciosas? O lugar que me dizem na minha cabeça?

Gabbe: Você vai ficar bem. Ela lhe dá um beijo na testa.

(Ethan olha para um lado e para o outro, passa as mãos no rosto enquanto balança as pernas, ele se levanta e sai pela porta. Gabbe fica um tempo, olha as coisas do quarto totalmente séria, e lentamente sai fechando a porta atrás de si).


FIM

Autora: Camille Miranda

terça-feira, 2 de julho de 2013

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA)

Stephany Torres, 


Nasci em Cabo Frio/RJ, no dia 24 de outubro de 1996. Estou no segundo ano do ensino médio. Queria me formar em psiquiatria, porém sou muito preguiçosa pra passar em medicina, na verdade sou muito preguiçosa pra muitas coisas! Gosto de pintar com aquarela, ler um milhão de livros ao mesmo tempo, escrever em cadernos escondidos pela casa e vestidos floridos. Quero casar com Bukowski, Courtney Love e Klimt.

INTENSO

(inspirado num poema homônimo de autor desconhecido)

Texto em 1 ato – Cena única.

Autora: Stephany Torres
Gênero: Drama psicológico

PERSONAGENS
Luana: tem cerca de 20 anos, muito intensa, fala rápido, quer fazer tudo ao mesmo tempo sem se importar com o que isso pode acarretar.
João: garoto inseguro, racional, mas com medo de errar.
Cenário: uma praia deserta, com um barquinho de pescador ancorado na beira
Ato único

CENA ÚNICA

(Luana está se afogando, João está sentado na areia ouvindo música e a vê, então se levanta e a olha confuso e com medo por alguns segundos. Pega um barquinho de pescador e desajeitadamente chega ate Luana).

João: ei, segure nessa corda menina!

Luana: não

João: Segure! Você está maluca? Segure esta corda! (Luana segura a corda e sobe no barco. Fazem o caminho de volta para a praia, calados, sentam-se na areia).

João: você estava tentando se matar? É isso?

Luana: Não! Eu só queria sentir, mas você me tirou daquilo! Você estragou tudo...

João: Sentir? Mas sentir o que?

Luana: queria sentir como é não ter controle sobre si mesmo, queria sentir que nada dependia mais de mim.

João: você pelo visto não tem o mínimo de controle sobre si mesmo. O que você faria se lá, no mar, perdesse completamente o controle sobre si mesmo? Você tem consciência do que poderia acontecer?

Luana: era isso que eu queria sentir, eu não me importaria de perder o controle. Eu pularia daquele (Aponte na direção de uma montanha) penhasco mesmo que você me dissesse que eu poderia morrer no final. Eu pularia só para saber como é.

João: eu acho que você não sabe o que está fazendo, eu acho... A vida deve ser tão fácil pra você que você procura algo pra se preocupar, algo que possa chamar a atenção dos outros, é tudo tão fácil que você acaba tentando fazer diferente. Pare com isso, você é tão humana quanto todos nós.

Luana: (com sua vaidade ferida levanta-se e começa a falar alto) eu tenho tanto controle sobre mim que procuro perde-lo dessa forma! Você diz que eu sou tão humana quanto você! Se pelo menos você fosse humano! Se pelo menos vocês todos fossem humanos! Você que claramente não tem controle sobre si mesmo. (chega perto de João, o sacode pelos ombros). Você nem deve estar nessa praia por livre vontade! Você deve estar aqui porque viu em algum filme e acha que isso é a vida. (Pega a mochila de João e joga todas as coisas no chão. Caem livros de Direito, cai um sanduiche natural embrulhado num filme plástico). Direito! Porque você não tenta fazer algo que você gosta! E essa merda de sanduiche natural! Pra que comer isso? Pra que tentar viver mais se você não faz nada pra preencher essa vida?

João: (olha pra baixo assustado) eu só quero.. Eu só quero que tudo dê certo, eu só não quero errar... E você me assusta.

Luana: Não! Pare de fazer essas merdas só porque disseram que é assim que tem que ser feito. Para de tentar ser certo, isso me dá vontade de explodir sua cabeça! Pare de se manter calmo.

João: mas você não entende que a gente tem que fazer alguma coisa que dê resultado. Isso de tentar buscar um significado... de tentar “viver de verdade”... Isso é tudo ilusório. Não deixe os poetas te enganarem. Não adianta tentar se afogar ou pular de penhascos, você não vai achar significado nenhum aqui.

Luana: Não! Você que não entende isso aqui! Vai muito alem de achar um significado. O que importa é preencher a vida! É ser intenso! Tem que dar um tapa que faça sangrar se você estiver puto. Tem que trepar 5 vezes na mesma tarde e não sentir mais as pernas. Correr por quilômetros e não conseguir respirar. Tem que fazer o coração pular com o efeito de duas cafeteiras cheias! Tem que ser tudo isso ou então não ser nada!


Fim

terça-feira, 25 de junho de 2013

"OPS". Um espetáculo que encontrou o público.

Rodrigo Rodrigues no espetáculo "OPS" fotografado
por Mariana Ricci
Rodrigo Rodrigues é um ator querido do público de Cabo Frio e desde que lançou seu espetáculo “OPS” pode dar-se ao luxo de estar entre os raros artistas locais que consegue lotar um teatro. Tem sido assim em todas as temporadas, desde a estréia, em 2011. Cada vez que seu espetáculo retorna em cartaz, sempre se fortalece e traz novidades.
“OPS” surpreende pela forma inteligente de como as cenas são interligadas. Com uso perspicaz do audiovisual, criado por Ricardo Amorim e Marcelo Pegado, vai nos oferecendo uma costura de cenas que preenchem os espaços de exigência de um expectador mais detalhista. É um daqueles espetáculos onde, um único ator em cena é suficiente para levar o público a um passeio pelo universo da comédia, fazendo teatro e não Stand Up.
Com uma formação teatral, grande parte, vinda diretamente do contato com a platéia, através de seus shows transformistas, Rodrigo nos remete àquele tipo de criador cênico dos cabarés cinematográficos do início do século XX, como mantenedor de uma linguagem de glamour, ele conseguiu, ao longo de sua carreira identificar seu próprio público, o que não é pouco, já que vivemos numa época em que o trabalho do ator é despersonalizado por falta de incentivo e de políticas que direcionem mais os expectadores com suas referências.  
Ao assistir o espetáculo “OPS” era de se esperar que Rodrigo usasse seu arsenal de gags e sua rica capacidade de improvisar para manter o contato, mas vimos que ele foi além. Demonstrou não se intimidar diante das técnicas de teatro, tão bem articuladas nos ensaios com Manuela de Lellis, diretora do espetáculo. Rodrigo triangulou bem com o público e criou um jogo de contato a dose certa improvisação.
Em um determinado momento do espetáculo, Rodrigo improvisou um canto gregoriano e surpreendeu a platéia com a qualidade de sua voz. Poderia ter ido além e fica aqui a sugestão para que sua verve musical, à capela, seja mais explorada na cena. Ele demonstrou ter boa dicção usando de forma habilidosa e com experiência, o microfone ret-set. Sua voz fluiu limpa, sem sopros e sua respiração não ficou ofegante, embora o espetáculo exija algumas movimentações atléticas.
No final, o público ficou contente, o espetáculo gerencia bem a energia da platéia e cresce em sua técnica a cada novo espetáculo encenado. Com uma dramaturgia rica e iconoclasta, para deleite da platéia pensante, deparamos com um belo figurino, uma harmonia entre cenografia, arte e o acabamento que torna o simples, luxuoso, e dá uma cara bem profissional para o teatro local.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Núcleo de Dramaturgia do Oficena (NUDRA)

Daniela Barbosa

Aos 08 dias de junho de 1974 surgiu, em Cabo Frio, Daniela da Silva Lopes. Nasceu e cresceu na terra da família materna, herdou veia artística e sangue baiano paternos. Formou família, anexou Barbosa ao nome e duas filhas à sua existência. Estudou, formou-se Assistente Social. Pelos anos afora desenhou, cantou, escreveu, pintou, mas não era prendada para bordar. Queria mesmo era atuar. Hoje vai navegando entre as palavras e as formas, experimentando a dor e a delícia do mundo do teatro.


IMAGEM E SEMELHANÇA
DRAMA

AUTORIA DE: Daniela Barbosa

CENÁRIO

Quarto de Rosa. À meia luz. Rosa de bruços, em diagonal, na cama revirada. Ao seu redor, notas de dinheiro espalhadas. Uma mesinha de cabeceira com um abajur, um despertador e um livro: O NOME DA ROSA. Aos pés da cama, uma penteadeira com: pente, escova, maquiagem, uma garrafa com resto de uísque e um pequeno pote de vidro. Em frente, um banco caído de lado. Espalhados pelo chão: um vestido, espartilho, cinta-liga, meias ¾ e um par de sapatos femininos.

PERSONAGENS

ROSA: Prostituta (20 a 35 anos). Foi estuprada pelo pai, que tirou sua virgindade. Olhos grandes, tristes, com olheiras. Usa uma camisola longa, com uma faixa e aberta na frente com decote mostrando parte dos seios. Cabelos desgrenhados e maquiagem borrada.

MEDEIA: Mulher com terno preto, vestida e caracterizada de homem.

CENA 1

(O despertador toca. Rosa levanta o braço, sonolenta, desligando-o. Pausa. Espreguiça-se, desliga o abajur e se levanta. Ajeita o cabelo e fecha a camisola. Levanta o banco e senta-se à penteadeira).

ROSA: (em frente ao espelho, limpando a maquiagem) Maldita luz do dia! Dói-me a cabeça, o corpo, a consciência. Por que hei de sempre acordar com cheiro de culpa e gosto de arrependimento? (olhar perdido) Mas o último, o de ontem... Tão protetor... (e, levantando-se de súbito) Que a consciência apodreça nos infernos! (bebe o resto de uísque e pega o pequeno pote).

(Medeia surge de trás das cortinas, aplaudindo pausadamente. Sorriso sarcástico. Pega o livro na cabeceira, vira-se para a plateia).

MEDEIA: Vejamos... página setenta e oito: “Se há uma coisa que excita mais os animais que o prazer é a dor. Vives, sob tortura, como sob o poder de ervas que provocam visões”... (fecha o livro e o devolve à mesinha)

(Rosa esconde o pote entre os seios e se afasta apavorada, indo de costas para a frente do palco).

ROSA: (virando-se para a plateia) Não és real! És uma alucinação!
MEDEIA: (balançando negativamente a cabeça) Mal agradecida. Vês como sou benevolente para contigo! Mesmo sendo tão maltratada por ti, venho oferecer-te uma chance de te salvares.

ROSA: (gargalhada sonora) Salvação? (expressão de medo, esfregando as mãos) Vejo como és benevolente, cara consciência! Estiveste escondida naquela garrafa, ou no pó que me queima as narinas, ou ainda no homem que roubou-me mais uma noite de vida! E me assombras como num castigo divino! Volta para minha mente e desapareces logo! (fecha os olhos com força)

MEDEIA: (andando e parando atrás de Rosa) O que fizeste de ti? Que criatura desprezível tu te tornaste...

ROSA: O que fiz de mim?! TU me fizeste? O que OS HOMENS fizeram de mim? O que o MUNDO me fez? (olhar irônico) Sou somente imagem e semelhança! (andando em volta de Medeia, recita):

“O amor fez-me puta,
a vida tornou-me mulher,
a morte, enfim, me seduz.
Aqui jaz um romance moribundo,
fruto do amor expurgado,
à luz do dia, silenciado
em sua lápide, esculpido em cruz.
(parando em frente à plateia)
Da paixão incestuosa
jorrou meu sangue imundo
por veias abertas a foice,
à espera do julgo final.
Dos subterrâneos do Éden
ao purgatório dos meus dias
escarro o pecado original
que me dilacera as entranhas,
enquanto liberta-me a alma fria.
Sou mais uma Eva, vadia,
comida num jardim qualquer.
Alimento divino do homem
sua filha, sua mulher”.

MEDEIA: (com ódio) Herege.

ROSA: Humana.

MEDEIA: Profana! Nem a morte te livrará dos teus pecados. Guarda esse arsênico, querida. Teu estômago é sensível, vais acabar vomitando. Tu és tão fraca que não consegues nem morrer sozinha. Toma. Uma arma. Atira. (aponta a mão em forma de revólver para Rosa) Despede-te de tua vida impura. Lava, com teu sangue, tuas mãos pecadoras. 

ROSA: (rosto entre as mãos, gritando) Que queres de mim?

MEDEIA: Sentir o gosto de fel na tua boca (aproxima-se do seu rosto, simulando um carinho) Quero teu sangue, pois a alma, a mim já pertence...
Rosa vira o rosto de súbito. Tira a faixa da camisola e amarra no pescoço, ameaçando enforcar-se. Começa a dançar e entra num transe.

MEDEIA: Vai! Cumpre tua sentença, se pensas que mereces tal alívio para essa alma enferma. (virando-se de costas) O inferno está em tuas mãos, em tua boca, em teu corpo. Aquele que te possuiu, mesmo morto, ainda está em ti... Levarás para onde fores. Morta ou viva, vês a lembrança daquela noite como uma espada transpassando teu peito frágil e pálido. Nem a morfina de tuas veias te alivia a alma. (voltando-se) Tu me provocas náuseas...

ROSA: Tu não existes. És fruto de minhas viagens alucinógenas...
MEDEIA: Sou fruto das tuas escolhas. (falando ao seu ouvido) Nasci de tuas entranhas. Cresci dos teus cortes, de tuas dores. Alimento-me de teus medos. Padeço em tua vaidade, em tuas ilusões. Viverás para sempre em mim e eu em você. Morrerei com tua morte. (aperta violentamente a faixa).
Rosa se solta e cai, apavorada. Medeia caminha à sua volta, ajoelhando à sua frente.

ROSA: (ofegante) Agora entendo... és real porque eu vivo. Sem mim, não és nada. Vives do meu pecado.

MEDEIA: (mãos postas em oração) Agradeço aos céus este momento sublime... Confessa teus pecados, pequena meretriz! Escolheste viver na noite, traçaste teu destino. Pede perdão! (gargalhada)
ROSA: A Deus?

MEDEIA: Não, imprestável! (irônica) A esta que vos fala. Por travares batalhas diárias contra mim. Logo eu, que sempre estive contigo. (olhando para a penteadeira) Quantas noites tu me deixaste esquecida em tua gaveta em meio a doses de absinto, seringas e culpa. (virando-se de costas para Rosa) Minha dor nunca foi suficiente para evitar as dores físicas nas quais mergulhas para fugir da vida.

ROSA: Pois em breve irás livrar-te de mim.

MEDEIA: Tua natureza é covarde, minha ninfa... Tu és uma névoa, um sopro, uma bruma que encobre a verdadeira natureza humana. Não passas de um ser delicado como nuvem que se desfaz quando o sol se abre. E qualquer vento mais forte dissipa tua valentia.

ROSA: Eis essência de nossa existência: do pó ao pó.
(Tira do peito o pote e o esvazia em sua boca. Senta-se à escrivaninha e dedilha um piano invisível, cantarolando uma melodia. Medeia vira-se e acompanha seus gestos com o olhar).

MEDEIA: (com desdém) Pareces realmente feita de pó...

ROSA: (olhar fixo) Do pó ao pó.

MEDEIA: Hum... poética. Ou devo dizer... patética? Tens certeza de que não tomaste o arsênico? Pareces delirar...
Rosa pega uma adaga na gaveta e a acaricia, serena. Abaixa a cabeça, abraçando o objeto.

MEDEIA: (balançando a cabeça negativamente) Achas que me assustas? A morte não acabará com teu martírio. Aliás... nunca fostes mártir. De Antígona, só tens a tragédia que é tua vida. Não és digna, sequer, de encenar esse papel.
(Rosa levanta e desequilibra. Limpa o suor da testa com o braço. Para em frente a Medeia e, com as duas mãos, aponta a adaga para o próprio peito).

ROSA: Tu és o demônio. Devo matá-la em mim!
(Luzes se apagam. Grito de dor. Silêncio).

ROSA: Era cianureto, e não arsênico.
(Luzes se acendem. Rosa de pé em frente ao corpo de Medeia no chão. Braços estendidos e adaga balançando nas pontas dos dedos. Virando-se para o público, solta a adaga. Fecha os olhos com força e novamente desequilibra, caindo de joelhos).

ROSA:

“Maldita carne que aprisiona
e veda-me os olhos da alma faminta
por romper com os grilhões da matéria
em decomposição.
Bendito torpor que a tudo torna tênue,
tal qual fio do líquido rascante.
Vinho rubro derramado sobre o corpo
Consagrado em sua imperfeição.
Amaldiçoado poema de minha vida,
obra inacabada de uma tragédia anunciada.
Concebida pelo pecado e
pelo perdão, esquecida”.

(Abaixa a cabeça novamente. Deita-se em posição fetal. Deixa cair o vidro vazio que rola pelo chão).

FIM

Daniela Barbosa